A verdadeira liderança climática está nas comunidades que o mundo insiste em não ver

Políticas Públicas
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Imagem: Divulgação

 

Por Daniel Grynberg

 

A COP30 trouxe uma forte sensação de que o setor socioambiental brasileiro está mais articulado e presente do que nunca. A quantidade de pessoas circulando, apresentando projetos e trocando experiências mostrava uma maturidade construída ao longo dos últimos anos, algo que ficava claro nas conversas espontâneas e na colaboração entre organizações que, na prática, trabalham pelo mesmo objetivo.

Essa impressão ficava ainda mais viva na Zona Verde, caminhar por ali significava encontrar o povo da Amazônia ocupando o espaço com naturalidade e firmeza. Muita gente que acompanhou outras COPs comentou que esses ambientes costumam ser esvaziados, mas dessa vez não havia nenhum sinal disso. A presença era intensa, com arte, rodas de conversa, protestos, demonstrações de saberes e um sentimento de pertencimento que fazia a conferência ficar menos distante e mais conectada à realidade de quem vive na floresta. Esse contraste com a Zona Azul reforçava o quanto o debate climático perde quando não inclui quem está no território todos os dias.

A exibição do documentário Rede Amazônia Amazônia +Conectada no Museu das Amazônias ganhou ainda mais significado nesse contexto, porque o filme nasceu justamente para aproximar o público de uma região que muitos brasileiros conhecem somente pela imaginação. Mostrar personagens como a Isonara, com sua leveza e força empreendedora, ajuda a revelar como a conectividade altera rotinas, cria oportunidades de renda e reduz distâncias que antes pareciam intransponíveis. Quando uma comunidade passa a vender e comprar pela tela do celular, ganha autonomia e circulação econômica, algo que transforma não só a vida de cada família, mas toda a dinâmica local.

Esse impacto deixa claro que iniciativas como essa têm potencial para chegar a muitos outros territórios que, até hoje, dependem exclusivamente da presença física para acessar oportunidades. Sem conectividade, essas regiões continuam isoladas de serviços, mercados e informações que já fazem parte do cotidiano de milhões de brasileiros, e ampliar esse acesso significa permitir que a floresta seja preservada por quem vive nela e tem condições de construir seu próprio desenvolvimento.

A conferência também reforçou o quanto o setor trabalha de forma colaborativa. Há poucos concorrentes e muitos aliados, pois quase todos estão enfrentando desafios parecidos e buscando soluções que se complementam. Esse espírito coletivo deixa evidente que as respostas mais consistentes para a crise climática surgem das pessoas e das comunidades que protegem a floresta diariamente, e que qualquer projeto de futuro precisa partir desse reconhecimento.

No encerramento do evento, ficou evidente uma tensão que raramente ganha espaço no palco principal; seguimos avançando em tecnologias, metas e grandes compromissos internacionais, enquanto deixamos de encarar a pergunta mais básica: quem, de fato, sustenta a floresta no dia a dia? Há uma distância entre o entusiasmo por soluções globais e a realidade de quem vive o território, e é nessa distância que muitas políticas se perdem. A presença amazônica na conferência mostrou que não falta conhecimento, nem vontade, nem projeto, falta prioridade. E talvez a provocação mais necessária da COP30 seja justamente essa, não há futuro climático possível se continuarmos tratando as comunidades que protegem a floresta como nota de rodapé nas decisões que definem o rumo do planeta.

 

*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.

 

Daniel Grynberg

Daniel Grynberg é diretor executivo do Grupo +Unidos, bacharel em Administração de Empresas pelo Insper e mestrado em Gestão Pública pelo Insper.