Copa do Mundo do Saneamento: se o critério de classificação do mundial fossem as condições sanitárias, o Brasil seria eliminado
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Se a Copa do Mundo fosse uma competição que levasse em consideração as condições de saneamento básico, o Brasil não passaria da segunda fase (16 avos de final). E o Japão seria o campeão. Esta é a constatação dolevantamento Copa do Mundo do Saneamento, realizado pela ABES-SP – Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental – Seção São Paulo, comparando as condições sanitárias entre todos os 48 países que participarão do mundial, que começa nesta quinta-feira, 11 de junho, tal qual estão dispostos na tabela do torneio mundial (veja anexo).
O estudo foi feito com base em dados do Programa de Monitoramento Conjunto para o abastecimento de água e saneamento – UNICEF e Organização Mundial da Saúde (OMS) – (JMP_2025_WLD: arquivo baixado do site da WHO UNICEF: https://washdata.org/data/household#!/ ).
O JMP considera satisfatórias as condições de saneamento a partir de um conjunto de itens, como:
Água: ligações domiciliares, Poços Artesianos, Captação, armazenamento e utilização de água da chuva, dentre outros;
E para o Saneamento: a existência de vaso sanitário, sistema de coleta de esgoto (coleta, bombeamento, tratamento e disposição final adequada) e fossa séptica, entre outros.
Se no futebol a imprevisibilidade é parte do espetáculo, na Copa do Mundo do Saneamento 2026 alguns padrões se confirmam — ainda que com surpresas marcantes. A competição, que utiliza indicadores de acesso à água potável e gestão segura dos serviços de saneamento como critério de desempenho, escancara um retrato do mundo real: onde infraestrutura, desenvolvimento e políticas públicas definem quem avança e quem fica pelo caminho.
“A Copa do Saneamento cumpre um papel fundamentalnestes tempos de celebração do esporte: transforma indicadores técnicos em narrativa acessível e evidencia que ainda há bilhões de pessoas numa partida essencial à vida: a do acesso à água e ao saneamento”, ressalta Álvaro Diogo Teixeira, especialista da ABES-SP, tecnólogo em Hidráulica e Saneamento Ambiental e mestre em Gestão e Tecnologia em Sistemas Produtivos.
Veja a seguir os destaques do estudo:
Brasil: grupo “fácil”, alerta aceso e eliminação precoce
O Brasil iniciou sua trajetória em um grupo considerado “acessível” – o segundo mais fraco da competição, mas a campanha ficou longe da tranquilidade esperada. Com indicador médio de apenas 72,0%, o país avançou com dificuldades, flertando com uma eliminação ainda na fase de grupos — cenário que acende um sinal de alerta sobre o ritmo de evolução do saneamento no país.
O desafio estrutural é evidente: com mais de 211 milhões de habitantes, sendo o segundo país mais populoso da competição, e uma vasta extensão territorial, universalizar o acesso ao saneamento segue sendo uma tarefa monumental.
Na segunda fase do torneio, o Brasil encontrou o Japão — uma potência consolidada — e acabou eliminado sem grandes chances. Vale destacar que a eliminação precoce do Brasil em 2026 reforça um padrão recente na Copa do Saneamento: assim como nas edições de 2018 e 2022, o país volta a cair diante de um adversário asiático de altíssimo desempenho — desta vez o Japão, repetindo o roteiro das derrotas anteriores para a Coreia do Sul, que também se consagrou como uma das grandes potências do setor.
Japão: consistência, excelência e um título construído no detalhe
O Japão confirmou, mais uma vez, sua posição de referência global em saneamento, encerrando a competição com indicadores próximos de 99,0% — praticamente universalizados.
A campanha japonesa foi marcada por consistência e pequenos detalhes decisivos:
• Passou com autoridade pelo Grupo F, o “grupo da morte” da competição, que reunia seleções de altíssimo nível e indicadores muito elevados;
• Eliminou o Brasil com autoridade logo nas fases iniciais;
• Superou o Catar em um confronto mais disputado;
• Empatou com Curaçao nas quartas de final, avançando no critério de desempate por maior população;
• Venceu a Austrália em uma semifinal apertada;
Essa trajetória evidencia um ponto central: quando os indicadores são próximos do limite máximo, diferenças marginais e critérios secundários passam a decidir resultados. Para o exercício aqui proposto, foi adotado o critério de desempate pela maior população, uma escolha metodológica que reforça o peso da escala dos serviços: países com populações mais numerosas enfrentam desafios muito mais complexos para universalizar o saneamento, o que torna seus resultados proporcionalmente mais difíceis de alcançar e, portanto, um fator relevante na comparação entre desempenhos equivalentes.
O destaque japonês não é casual. Trata-se de um país que historicamente investe em infraestrutura, gestão eficiente e tecnologia, combinando alta urbanização com políticas públicas estáveis — uma equação que se traduz diretamente em desempenho na competição.
Inglaterra: regularidade de elite e um vice consistente
A Inglaterra chegou à final com uma campanha sólidadurante toda a competição, mantendo indicadores próximos de 99,0%.
A trajetória foi marcada por confrontos duros:
O vice-campeonato reforça a posição do Reino Unido entre os líderes globais em saneamento, ainda que sem conseguir superar o refinamento técnico japonês nos momentos decisivos.
Disputa pelo 3º lugar: Áustria x Austrália
A briga pela terceira colocação trouxe dois modelos interessantes:
A vitória austríaca confirma a força do continente europeu, mas a presença da Austrália no pódio mostra uma competição cada vez mais diversificada entre países com alto nível de desenvolvimento.
Grupo F: o verdadeiro “grupo da morte”
O Grupo F fez jus ao apelido de “grupo da morte” ao reunir algumas das seleções mais qualificadas da Copa do Saneamento 2026, combinando indicadores muito elevados e alto equilíbrio técnico entre os participantes. Com a presença de Japão (99,0%), Holanda (98,5%), Suécia (97,5%) e Tunísia (72,5%), o grupo apresentou um dos maiores níveis médios da competição (média de 91,9%), além de uma disputa acirrada pelas vagas na fase eliminatória.
Nesse cenário, cada detalhe fez diferença: Japão, Holanda e Suécia chegaram à fase decisiva com condições reais de classificação, exigindo desempenho consistente ao longo de todos os confrontos. A Tunísia, apesar de apresentar um indicador inferior, também contribuiu para elevar o nível competitivo ao impor desafios adicionais.
A classificação japonesa nesse grupo não apenas reforça sua qualidade técnica, mas também mostra sua capacidade de se destacar em ambientes altamente competitivos — um indicativo claro do que viria a seguir ao longo da campanha campeã.
América Latina: entre avanços, resistência e eliminações precoces
O bloco latino-americano teve participação discreta, ainda que com presença relevante na fase de grupos. Brasil, México, Argentina e Panamá conseguiram avançar para a segunda fase, mas todos acabaram eliminados logo na sequência, sempre diante de adversários de peso: o Brasil caiu para o Japão, a Argentina foi superada pela Inglaterra, o México parou diante da Bélgica e o Panamá foi eliminado por Portugal — evidenciando a dificuldade de competir com países mais desenvolvidos.
Por outro lado, Colômbia, Equador, Haiti e Paraguai não conseguiram avançar da fase de grupos. O caso do Uruguai chama atenção: mesmo apresentando um dos melhores indicadores da região (82,0%), acabou eliminado ainda na fase de grupos ao cair em um grupo extremamente competitivo (Grupo H, considerado o terceiro mais difícil da competição com média de 88,6%), ao lado de seleções com desempenho elevado, o que inviabilizou sua classificação.
O cenário reforça o caráter heterogêneo da América Latina no saneamento: ainda que alguns países avancem, o continente segue distante do nível das principais potências globais, com poucos casos de excelência e muitos desafios estruturais a enfrentar.
Os destaques da edição: brilho inesperado de Curaçao
Entre os grandes protagonistas, Curaçao merece um capítulo à parte.
Com indicador elevado (99,0%), o país caribenho protagonizou uma campanha histórica:
O desempenho chama atenção não apenas pelos números, mas pelo contraste entre a pequena escala populacional (apenas 186 mil habitantes) e a alta eficiência em saneamento. A menor população e o território reduzido(444 km², pouco maior que Ilhabela em SP) naturalmente, contribuem para a obtenção de indicadores mais elevados, ao facilitar a universalização dos serviços — ainda assim, isso não diminui o mérito de Curaçao, que se destacou como o único representante das Américas a alcançar as quartas de final, superando nações maiores, mais ricas e com maior tradição.
Quem poderia ter ido mais longe
Alguns confrontos evidenciaram o alto nível técnico e o equilíbrio entre as principais seleções da competição:
•?Áustria x Suíça, quartas de final decidida no critério de desempate e por uma margem extremamente pequena entre os indicadores (9,12 x 8,92 milhões de habitantes), em um duelo entre duas seleções de elite. A eliminação suíça chama ainda mais atenção pelo histórico recente: a Suíça vinha de dois vice-campeonatos consecutivos (2018 e 2022), reforçando sua condição de potência e mostrando como pequenas variações podem ser decisivas nesse nível;
•?Coreia do Sul x Inglaterra, oitavas de final também definida no critério de desempate e por uma diferença pequena entre os indicadores (51,71 x 56,50 milhões de habitantes), refletindo o equilíbrio máximo entre equipes de altíssimo desempenho. A eliminação sul-coreana ganha relevância ao lembrar que a Coreia do Sul era a atual campeã da edição de 2022.
10 primeiros e 10 últimos: onde estão os extremos do saneamento mundial
A competição também permite mapear os polos globais:
10 Melhores indicadores (98% e 99,0%)
Concentrados majoritariamente na:
Esse recorte evidencia um padrão já consolidado no cenário global: os melhores indicadores de saneamento estão fortemente concentrados em países desenvolvidos, com alta capacidade de investimento, planejamento de longo prazo e gestão eficiente dos serviços. Ainda assim, a presença de Curaçao entre as elites reforça que, embora fatores como escala populacional e territorial influenciem os resultados, boas políticas públicas e organização institucional podem permitir que países menores alcancem níveis de excelência comparáveis aos das grandes potências — mostrando que universalizar o saneamento é, acima de tudo, uma questão de prioridade e governança.
10 Piores indicadores (<60,0%)
Predominantemente em:
Os dados evidenciam um recorte geográfico claro: desenvolvimento econômico e investimento estrutural seguem sendo determinantes diretos do acesso ao saneamento. Nos países que aparecem entre os piores indicadores, observa-se um conjunto de desafios recorrentes, como crescimento populacional acelerado, urbanização desordenada, limitações fiscais e, em muitos casos, instabilidade política ou institucional — fatores que dificultam a expansão e a manutenção de redes de abastecimento de água e coleta e tratamento de esgoto.
Na África, por exemplo, países como Congo, Costa do Marfim, Gana e Senegal refletem déficits históricos de infraestrutura básica; já na América Latina e Caribe, casos como Haiti, Colômbia e Equador evidenciam desigualdades internas profundas e dificuldades de universalização, mesmo em contextos com maior disponibilidade de recursos.
O Iraque, por sua vez, ilustra como conflitos e fragilidades institucionais impactam diretamente a prestação dos serviços. Em comum, esses países mostram que o avanço no saneamento depende não apenas de investimento, mas de continuidade de políticas públicas, planejamento de longo prazo e capacidade de gestão — elementos ainda desafiadores em grande parte dessas regiões.
Os gigantes populacionais e o desafio do saneamento
Entre os 10 países mais populosos da competição, temos de um lado, países como Japão (99,0% / 123,75 MM de hab.), Alemanha (98,5% / 84,55 MM de hab.), Estados Unidos (97,5% / 345,42 MM de hab.) e França (95,0% / 66,54 MM de hab.) que demonstram que é possível combinar grande população com excelência em saneamento, resultado de planejamento de longo prazo, alto nível de investimento e gestão eficiente. De outro, realidades como Congo (12,5% / 109,27 MM de hab.) e México (53,0% / 130,86 MM de hab.) que evidenciam enormes déficits estruturais, onde crescimento populacional e limitações institucionais dificultam a universalização dos serviços.
Mesmo entre os países intermediários há contrastes importantes: o Brasil (72,0% / 211,99 MM de hab.), apesar de avanços, segue distante das lideranças globais; o Egito (68,0% / 116,53 MM de hab.) enfrenta desafios semelhantes; enquanto o Irã (92,0% / 91,56 MM de hab.)e a Turquia (87,5% / 87,47 MM de hab.) já se aproximam de patamares mais elevados.
O conjunto evidencia uma leitura central da Copa do Saneamento: quanto maior a população, maior a complexidade — mas são as escolhas políticas, a capacidade de investimento e a eficiência na gestão que determinam o resultado final.
Outro fator estrutural que influencia diretamente esses resultados é a extensão territorial. Países de grande dimensão, como Brasil, Estados Unidos e China (fora da copa, mas comparável em escala), enfrentam desafios adicionais relacionados à dispersão populacional, à diversidade geográfica e à necessidade de expandir redes de infraestrutura por longas distâncias, muitas vezes em áreas remotas ou de difícil acesso. Essa complexidade aumenta significativamente os custos de implantação, operação e manutenção dos sistemas de água e esgoto.
Por outro lado, países menores territorialmente — como Japão e Alemanha — conseguem, em geral, integrar suas redes de forma mais eficiente e homogênea, o que contribui para alcançar níveis mais elevados de universalização. Assim, além da população, a dimensão territorial se consolida como um elemento-chave para entender as desigualdades observadas nos indicadores de saneamento.
O “multiverso do futebol” no saneamento
A comparação entre futebol e saneamento segue rendendo contrastes curiosos:
Mais uma vez, fica evidente que o sucesso esportivo não reflete necessariamente as condições estruturais de um país.
Leituras e tendências da Copa 2026
A edição de 2026 reforça algumas lições importantes:
•?A liderança global permanece concentrada em países altamente desenvolvidos, que combinam investimento contínuo, planejamento de longo prazo e forte capacidade de gestão, mantendo indicadores próximos da universalização e presença constante entre os finalistas;
•?Diferenças entre os melhores são mínimas — e critérios indiretos passam a decidir, como evidenciado em diversos confrontos resolvidos pelo critério de desempate por maior população;
•?Países intermediários, como o Brasil, avançam lentamente, mas ainda enfrentam grandes desafios, especialmente diante de fatores estruturais como população elevada, extensão territorial e desigualdades internas que dificultam a universalização plena dos serviços;
•?Pequenas nações eficientes, como Curaçao e Cabo Verde, confirmam que escala não é barreira para bons resultados, e se consolidam como grandes destaques positivos da edição ao demonstrar que governança, foco em políticas públicas e organização dos serviços podem superar limitações estruturais e gerar resultados comparáveis aos das principais potências.
Metodologia
A classificação dos países foi realizada com base na média dos indicadores de serviços “geridos com segurança” (safely managed) relativos ao acesso à água potável e ao saneamento, conforme a metodologia do JMP (WHO/UNICEF). Em caso de empate, adotou-se como critério de desempate a maior população do país, que avança para a fase seguinte.
Os dados utilizados referem-se, em geral, ao ano de 2024, com exceção da Croácia (2021) e de Curaçao (2017, apenas para o indicador de saneamento seguro). Para Escócia e Inglaterra, foram considerados os indicadores agregados do Reino Unido.
Os vencedores das edições anteriores da Copa do Saneamento foram:
2022 – Coreia do Sul
2018 – Japão
2014 – Alemanha
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