Dar lição de moral é uma coisa. Dar o exemplo é outra.
Educação

Por Marina Pechlivanis
Vivemos uma época inquietante. Todo mundo quer fazer a diferença, mas tem gente que nem faz ideia do que isso significa, do impacto que isso pode fazer.
Primeiramente: o que é fazer a diferença? É para um mundo de competição ou de cooperação? De desempenho ou de pertencimento? De consumo ou de responsabilidade? De individualismo ou de cidadania? E mais: com base em que? Atendendo a quais interesses? Com base em quais perspectivas? Esperando quais resultados?
Nunca houve tantos consultores e conselheiros, gurus e influenciadores explicando aos outros como consumir, educar, liderar, empreender, votar, reciclar, conviver, viver e sobreviver. Sem contar os experts e os “espertos”, vendendo um blablablá sem fim de lições de moral sobre como se comportar, o que e sobre o que falar, quais livros ler, quem seguir, por onde andar, o que escrever, o que postar, o que pensar…
Teorias e fórmulas, indicações e recomendações, todos podem ser interessantes, mas nada como aprender com quem sabe fazer na prática e dá o exemplo.
E quem é que dá o exemplo hoje no Brasil?
O pensamento já nos direciona para aqueles nomes que todo mundo conhece, não é mesmo? Aqueles empreendedores sociais famosos ou os super-herdeiros generosos, aquelas organizações socias premiadas e bem financiadas, as empresas que têm reputação por suas boas práticas e recursos financeiros para anunciar os seus feitos… Mas, além da superfície, com todo o seu mérito, há toda uma base sociotransformacional vibrante e criativa, que nem sempre aparece na mídia ou que está fazendo média nos campos convencionais de poder, mas que está “podendo”, e muito.
Boas-vindas ao universo das escolas vencedoras do Prêmio Educação para Gentileza e Generosidade Escolas. Ao longo de seis anos, centenas de projetos desenvolvidos por escolas brasileiras passaram a compor uma espécie de observatório vivo da educação. Não apenas dos conteúdos ensinados em sala de aula, mas dos valores, preocupações e transformações que educadores e estudantes consideram importantes para suas comunidades.
E o que esse conjunto de experiências revela?
Primeiro, que estas escolas estão preocupadas, genuinamente, com temas existenciais fundamentais para o futuro, não da educação, mas da nossa existência como seres humanos, que dependem de (bons) relacionamentos para se desenvolver e sobreviver. Por exemplo: pertencimento, cultura de paz, saúde mental, diversidade, sustentabilidade, voluntariado, cidadania, convivência e fortalecimento dos vínculos comunitários. Se os indicadores tradicionais mostram como os estudantes aprendem, o que é fundamental para a qualidade acadêmica destes alunos, esses projetos ajudam a revelar o potencial relacional e de transformação social das escolas, algo vital para convivência em sociedade.
Segundo, que muitas das experiências mais inspiradoras não surgem necessariamente dos lugares mais visíveis. Podem aparecer em escolas públicas e privadas, em capitais e cidades pequenas, em áreas urbanas, rurais e periféricas. Muitas vezes, em territórios que raramente ocupam espaço nos rankings, nos debates educacionais ou nas manchetes nacionais.
Talvez estejamos assistindo a uma mudança silenciosa e gradativa na forma como a transformação social acontece. E nem todas as grandes mudanças surgem dos grandes meios para a sociedade, das instituições renomadas para as comunidades, dos especialistas referenciados para os cidadãos. Pode vir de uma criança de 7 anos que tem poder de inspirar toda uma população em uma cidade.
Hoje, cada vez mais, vemos a força do “mainstream” (um caminho principal dominante) dividindo espaços com o potente circuito de “many streamings” (diversos caminhos influentes). E os resultados do Prêmio EGG Escolas mostram isso: milhares de protagonistas participando de centenas de iniciativas conectadas por valores comuns e construídas, localmente, por crianças, jovens, professores, famílias, comunidades que se indignaram com as coisas e decidiram agir.
E talvez seja justamente por isso que essas iniciativas sejam tão relevantes. Não dependem de autorização para existir, de validação para acontecer e nem de grandes estruturas para começar. Simplesmente acontecem e fazem, verdadeiramente, a diferença, endereçando resoluções concretas para desafios reais. O mais importante de tudo: são comportamentos, escolhas e exemplos altamente acessíveis — infinitamente mais replicáveis que muitos dos modelos burocráticos comercializados para compor o ideário de “como você deve fazer a diferença”.
O que vemos a cada edição, visitando as escolas vencedoras e criando aproximação com as comunidades de todos os projetos em destaque, é o poder da economia criativa sociotransformadora brasileira, mudando realidades e perspectivas de vida, especialmente para as novas gerações. E o mais importante de tudo: com resultados comprovados. Por isso, dar visibilidade (além de compartilhar de forma equânime recursos materiais, sempre que possível) também é distribuir oportunidades. O que os olhos não veem o coração não sente. E mais: ninguém reconhece aquilo que não conhece.
Essa percepção se conecta diretamente com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 das Nações Unidas. Educação de qualidade, saúde e bem-estar, igualdade de gênero, redução das desigualdades, cidades sustentáveis, consumo responsável, paz e justiça não serão alcançados apenas por políticas públicas ou avanços tecnológicos.
Em meu livro Protagonismo Infantil e o Efeito Warm Glow, teci reflexões sobre um fenômeno estudado pela psicologia e pela economia comportamental: quando percebemos que nossas ações beneficiam outras pessoas, experimentamos uma sensação positiva que fortalece o desejo de continuar contribuindo. Por isso, com o privilégio de quem visitou muitas das escolas vencedoras e teve a oportunidade de conhecer um pouco dos contextos, conversar com os gestores e professores, famílias e comunidades, deixo aqui um convite. Para fazer a diferença, um caminho inusitado pode ser “fazer diferente”. Antes de usar as mesmas referências, aquelas que todo mundo conhece, dê uma olhada aqui, nas estratégias vencedoras do Prêmio EGG. Sempre é bom renovar o repertório e aprender em novas fontes, por um mundo mais gentil, generoso, solidário, sustentável, diverso, respeitoso e cidadão.
Você pode se surpreender. E descobrir que bons exemplos e boas inspirações estão mais perto do que imagina.
*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.
