“Dinheiro não é o oposto do propósito”, diz Vinicius Schlup, CEO da Bússola Social
Captação de RecursosEm entrevista ao Observatório, Vinicius Schlup, CEO da Bússola Social, falou sobre Panorama Financeiro das OSCs 2026; segundo o levantamento, 42% das OSCs analisadas operam com até R$ 80 mil por ano

“Falar sobre dinheiro não diminui o propósito de uma causa”. Essa é a mensagem que Vinicius Schlup, CEO e Cofundador da Bússola Social, compartilha com as Organizações da Sociedade Civil (OSCs) brasileiras.
A Bússola Social foi responsável pelo Panorama Financeiro das OSCs 2026, que reuniu respostas de mais de 500 organizações de diferentes portes e áreas de atuação, em todo o país. O propósito do levantamento é apresentar os desafios e oportunidades da gestão financeira no Terceiro Setor.
Em entrevista ao Observatório, Vinicius Schlup analisou os dados do panorama e aconselhou as OSCs brasileiras sobre a gestão de recursos financeiros. “Gestão financeira não é apenas controle de números, é uma ferramenta de proteção e sustentabilidade do impacto social”, afirmou.
“Quanto mais clareza uma organização tem sobre sua realidade financeira, maior é sua capacidade de planejar, captar recursos, tomar decisões estratégicas e crescer de forma saudável” — Vinicius Schlup
Ainda, Schlup lembrou que nenhuma OSC precisa estar “perfeita” para começar a se estruturar financeiramente. Afinal, mesmo pequenos avanços em organização, planejamento e acompanhamento financeiro já geram “transformações significativas no dia a dia da operação e na confiança de parceiros, doadores e financiadores.”
O CEO da Bússola Social também destacou o papel colaborativo do terceiro setor, uma vez que as organizações sociais não precisam enfrentar os desafios financeiros sozinhas.
42% das OSCs analisadas operam com até R$ 80 mil por ano
O levantamento mostrou que 42% das organizações analisadas operam com até R$ 80 mil por ano. Conforme a Bússola Social, esse nível orçamentário impacta diretamente na estrutura das organizações, que precisam operar com equipes enxutas e, muitas vezes, concentrando a gestão financeira em poucas pessoas.
Para Schlup, o principal reflexo dessa limitação financeira é a dificuldade de garantir continuidade, escala e sustentabilidade. “Muitas OSCs conseguem executar projetos importantes, mas sem conseguir investir em gestão, equipe e planejamento de longo prazo. Isso também acende um alerta para investidores e financiadores: é preciso ampliar o acesso ao recurso e fortalecer organizações emergentes.”
Além da escassez de recursos, o levantamento mostrou que o tempo dedicado à gestão financeira é limitado. Cerca de 41% das organizações afirmam investir menos de duas horas por semana nessa atividade, dificultando o acompanhamento contínuo das entradas e saídas de recursos.
Schlup vê este dado como o mais preocupante entre os coletados pelo Panorama Financeiro das OSCs 2026. “Isso mostra que, em muitas OSCs, as decisões estratégicas estão sendo tomadas sem visibilidade real da saúde financeira da instituição.”
“Quando a gestão financeira fica em segundo plano, a organização perde previsibilidade, capacidade de planejamento e até oportunidades de crescimento e captação” — Vinicius Schlup
Escassez de preparo técnico
O baixo nível orçamentário das OSCs e a escassez de equipe — fatores que costumam concentrar a gestão financeira em poucas pessoas — também causam um outro problema: a falta de preparo técnico. O estudo mostrou que 1 em cada 4 OSCs tem suas finanças conduzidas por pessoas técnicamente despreparadas para a função.
Durante a entrevista, Schlup falou sobre as formas de solucionar essa barreira, tendo em vista que as OSCs, sobretudo de pequeno porte, não possuem recursos para contratar profissionais qualificados para a atividade de gestão.
“A solução passa, principalmente, por acessibilidade. Nem toda organização conseguirá contratar um especialista financeiro no curto prazo, mas toda organização deveria ter acesso a ferramentas simples, capacitação prática e processos que facilitem a gestão,” destacou.
Segundo ele, é fundamental investir em educação financeira voltada para a realidade das OSCs, com linguagem acessível e aplicação prática. Além disso, Schlup acredita que a tecnologia pode ter um papel transformador ao automatizar processos, organizar informações e reduzir a dependência de conhecimento técnico avançado.
“Por isso criamos o Bússola Financeiro, com o objetivo de entregar uma ferramenta simples, de fácil uso para qualquer tipo de formação e, principalmente, acessível financeiramente. Assim, as OSCs de qualquer fase de maturidade, passam a ter o controle real e previsibilidade de suas finanças.”
Um problema amplo
Vale destacar que o levantamento também mostra que esses desafios não desaparecem com o crescimento institucional. Nas organizações menores, o esforço está concentrado em reunir e organizar dados básicos. Já nas que ampliam sua atuação, a dificuldade passa a ser controlar múltiplos projetos e fontes de recursos ao mesmo tempo.
“Os desafios não somem, eles mudam de natureza. Com o estudo identificamos que o setor cresce em complexidade mais rápido do que cresce em infraestrutura de gestão. Quanto maior a operação, maiores também são as responsabilidades, os custos fixos, a necessidade de governança, prestação de contas e previsibilidade financeira.”
A análise identifica três estágios de maturidade financeira no setor. A maior parte das organizações ainda está nas fases iniciais, com gestão reativa e baixa previsibilidade financeira, o que limita a capacidade de planejamento e continuidade das atividades.
Na prática, isso significa menos capacidade de manter projetos ativos, dificuldade para prestar contas com consistência e maior dependência de esforços pontuais para captar recursos. Sem organização financeira, as OSCs perdem margem para crescer, diversificar receitas e sustentar iniciativas no longo prazo.
“Hoje, vemos uma mudança importante acontecendo: cresce a percepção de que impacto social sustentável exige saúde financeira. Dinheiro não é o oposto do propósito, ele é o que permite que o propósito continue existindo no longo prazo”, finalizou Schlup.
