E quando a Educação em Direitos Humanos falta nos currículos escolares?

Direitos Humanos
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Imagem: Divulgação

 

Por Diogo Cavazotti

 

Há alguns dias eu estava no supermercado e escutei uma criança de uns 7 anos falar o seguinte: “não quero mais ir para esta escola”. O pai não deu muita importância e mudou de assunto. E pensei: o que será que motivou ela não querer mais ir para a escola? Bullying? Baixa qualidade educacional? Motivação? Professores e professoras cansados do dia a dia e repercutindo no trabalho que exercem? Não há como saber. Eu não pude me aproximar da criança para perguntar o motivo. Mas uma coisa é certa: todas as perguntas acima são válidas e podem habitar a mente daquela criança.

Há algumas semanas ministrei uma palestra de Educação em Direitos Humanos (EDH) na Região Metropolitana de Curitiba. Repleta de diretores e professores de escolas públicas e particulares. Na metade da palestra duas professores de escola cívico militar pularam de suas cadeiras e gritaram suas opiniões sobre EDH em suas escolas. Na opinião delas, não era necessário, e o que “este pessoal” de direitos humanos só servia para proteger bandido. A polêmica estava criada. Ei fiquei com a intervenção, uma vez que o tema da palestra havia sido avisado. Foi necessária uma pessoa da organização gritar para acabar com a desordem, que aquelas duas pessoas haviam criado.

O que falta na escola é consciência do que existe. É óbvio que em toda escola há bullying, seja por interferência midiática ou pela própria criação que vem dos pais, mães e responsáveis. O bullying é um problema social que precisa ser debatido, discutido e resolvido na escola (também na família). Já escrevi aqui na coluna sobre casos trágicos que iniciaram com bullying. Se é óbvio que acontece, qual o motivo de professores não receberem treinamento para isso?

Uma vez um menino de 14 anos, que havia passado por todos os bullyings que se possa imaginar, inclusive físicos, passou por determinada situação. O professor de matemática quis dar um exemplo: “imaginemos que aqui na sala há 11 meninos”. Rapidamente um aluno da última fileira gritou: “10 e meio né professor, porque tem o Diogo”. Sim, eu! Enquanto todos riam na sala, a minha vontade era de sair correndo. Estamos falando dos anos 1990, quando o tema de diversidade não era nada trabalhado na mídia, nas redes sociais (nem existiam) e em boa parte da arte. Fecho os olhos e me lembro deste momento, da sala, dos jovens dando risada, do professor sem fazer nada, das roupas que as pessoas vestiam, de tudo. Isso ocorreu há quase 30 anos, e ainda me lembro daquele momento com riqueza de detalhes. Foi um ato de bullying que jamais esqueci, e que me afeta com o que eu sou hoje. O agressor certamente nem lembra deste dia. Terapia alguma conseguiu apagar. E nos perguntamos: precisamos falar sobre bullying?

Na minha opinião, o que faltou foi uma atitude do professor. Na realidade ele não sabia como agir, ou não quis. Mas faltou uma formação em direitos humanos para chamar o agressor num canto, falar com ele, falar separadamente com o agredido e conversar com toda a turma. É o mínimo que se espera de um profissional da educação. Não recebeu treinamento para isso? Ok, mas há formações, inclusive online, para se dedicar ao assunto e saber como proceder. Mas o ideal seria ter esta disciplina, de EDH no currículo da Licenciatura. Ouso dizer que além da Licenciatura: de todos os cursos. O bullying não existe apenas na escola, existe nas empresas, no dia a dia também. Gordos, afeminados, pessoas diferentes do tradicional estão expostas ao bullying diariamente, até nas ruas.

Aprender sobre EDH promove o entendimento do que é ser humano. Das diferenças cruciais que envolvem o ser humano. Da riqueza de vivência onde há diferença. Em como podemos aprender com estas diferenças. Você que está lendo este texto, por exemplo, tem um amigo ou uma amiga transexual? Se não tem, segue na rede social algum ou alguma para saber como é a realidade dele ou dela? Há negros no seu rol de amigos? Pessoas com deficiência? Autistas? Entre outros mais vulnerabilizados? Bipolares, borderlines, entre outros?

Aumente seu nível de conhecimento convivendo com pessoas fora do seu círculo tradicional. Isso gera conhecimento para a sua vida e convivência com os demais. E a EDH começa aqui, quando o outro é reconhecido como nós mesmos.

 

*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.

 

Diogo Cavazotti

Doutor em Educação. Mestre em Direitos Humanos e Direito Internacional Humanitário. Jornalista. Único brasileiro bolsista da Corte Interamericana de Direitos Humanos.