Estudos revelam a contribuição do teatro e da música para o fim da escravidão no Brasil

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Estudos avaliam a participação do teatro e da música no processo de emancipação de escravizados no país

Foto: Adobe Stock

Por Redação

O teatro brasileiro do século XIX desempenhou um papel crucial na formação de uma consciência antiescravista, conforme destacado por João Roberto Faria em seu recente livro “Teatro e escravidão no Brasil” (editora Perspectiva, 2022). Ao analisar 50 anos de atividades teatrais, desde 1838 até a promulgação da Lei Áurea em 1888, Faria revela como o teatro foi um veículo de crítica à escravidão e um instrumento de promoção do abolicionismo.

Martins Pena, renomado dramaturgo carioca, foi pioneiro ao abordar a violência física contra escravizados em sua comédia “Os dois ou o inglês maquinista”, encenada em 1845. Faria argumenta que Pena não apenas registrou costumes, mas criticou a escravidão de maneira explícita. O historiador destaca que, nas décadas de 1830 e 1840, falar sobre escravidão era tabu, e mesmo abordagens laterais desse tema eram significativas para a época.

O livro destaca que o Conservatório Dramático Brasileiro, estabelecido em 1843, censurou várias peças críticas à escravidão. Figuras como Martins Pena e Machado de Assis atuaram como censores, evidenciando a resistência da sociedade à discussão aberta sobre a escravidão. Faria destaca um caso específico de censura em 1844, quando a peça “O marujo virtuoso ou os horrores do tráfico da escravatura” foi vetada pelos censores, revelando a conivência das autoridades com o tráfico ilegal de africanos.

A mudança na abordagem teatral sobre a escravidão foi notada com o tempo. A década de 1880 testemunhou a realização de matinês abolicionistas nos teatros cariocas, lideradas por figuras como Vicente de Souza, José do Patrocínio e André Rebouças. Esses eventos, que incluíam concertos, poemas e pequenas comédias, tiveram grande alcance em uma sociedade pouco alfabetizada, contribuindo para a conscientização popular sobre a causa abolicionista.

Além do teatro, a música também desempenhou um papel importante no movimento abolicionista. O maestro baiano Manoel Tranquilino Bastos, conhecido como o “maestro da Abolição”, contribuiu significativamente com suas composições, incluindo o hino abolicionista de 1884. Outros músicos, como João Pedro Gomes Cardim, organizaram concertos em prol de entidades emancipadoras, ampliando o alcance da campanha abolicionista para além do ambiente político.

O livro de João Roberto Faria revela o impacto profundo e multifacetado que o teatro e a música tiveram no movimento abolicionista brasileiro, influenciando a consciência pública e contribuindo para a transformação social. O autor é professor aposentado de literatura brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

Fonte: Revista FAPESP.