IDIS lança estudo propondo ações para ampliar a filantropia familiar no Brasil

Cultura de Doação
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Novo mapeamento identifica barreiras, motivações e tendências para doações de famílias de alto patrimônio e sugere estratégias para aumentar o impacto social no país

IDIS lança estudo com perfil de filantropos e propõe ações para ampliar a filantropia familiar no Brasil
Imagem: Freepik

O IDIS – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social lançou a publicação Caminhos para uma Atuação Mais Ampla e Estratégica da Filantropia Familiar no Brasil. O estudo traça um panorama da filantropia familiar no país e propõe caminhos para ampliar o número de doadores, o volume de recursos doados e o impacto social gerado por famílias de alto patrimônio.

A publicação é resultado de entrevistas com especialistas, levantamento de dados inéditos e contribuições de filantropos atuantes. O estudo apresenta um retrato da filantropia familiar no Brasil e no mundo, destacando características como a influência de valores pessoais, o desejo de deixar um legado, a liberdade na escolha de causas e a maior propensão ao risco, em comparação com o investimento social praticado por empresas.

Apesar do aumento no número de milionários e bilionários no país, o volume de doações realizadas por famílias ricas permanece estagnado e aquém de seu potencial.

Em nota à imprensa Paula Fabiani, CEO do IDIS, afirma:

“Em momentos decisivos, especialmente diante de demandas emergenciais, pessoas detentoras de altos patrimônios fazem doações. O desafio está em canalizar essa energia para ações estruturantes e de longo prazo. Há, sem dúvida, espaço não só para envolver novas famílias e indivíduos em atividades filantrópicas, mas também para ampliar o volume e o impacto de quem já doa.”

Globalmente, movimentos como o Giving Pledge e o Generation Pledge têm estimulado bilionários a se comprometerem publicamente com a doação de grandes parcelas de seus patrimônios. Um exemplo recente foi o anúncio de Bill Gates, em maio de 2025, sobre sua intenção de doar quase toda sua fortuna — estimada em US$ 108 bilhões — nos próximos 20 anos.

O mapeamento brasileiro contou com entrevistas e um levantamento online com 35 filantropos e filantropas, cujas práticas são, em sua maioria, bem estruturadas. Desses, 40% afirmam doar mais de R$ 5 milhões por ano. A educação, incluindo educação básica, profissional e técnica, lidera entre as causas mais apoiadas.

Contudo, o estudo mostra que a filantropia familiar no país vem se diversificando. Meio ambiente e sustentabilidade mobilizam 26% dos respondentes, enquanto 17% demonstram interesse em iniciativas voltadas à incidência em políticas públicas. O combate à fome e à redução das desigualdades aparecem em 14% das respostas. Também há menções a temas como segurança pública, fortalecimento da democracia e descriminalização das drogas.

A decisão sobre as doações costuma ser compartilhada no núcleo familiar: cônjuges participam em 65% dos casos, filhos em 59% e irmãos em 49%. Isso mostra que a filantropia familiar é, muitas vezes, resultado de um processo coletivo, sustentado por valores compartilhados e laços afetivos. Na parte administrativa, 65% dos entrevistados indicam contar com apoio de profissionais especializados.

Entre os obstáculos apontados para a expansão da filantropia familiar estão a percepção de baixa capacidade das organizações da sociedade civil em gerar impacto (20%), a falta de incentivos fiscais adequados para doações de pessoas físicas (17%) e a ausência de conhecimento sobre causas e instituições a apoiar (3%). Também foi mencionado o receio relacionado à segurança pessoal e patrimonial, uma preocupação recorrente entre famílias de alta renda na América Latina.

Como tornar a filantropia familiar mais ampla e estratégica no Brasil

O estudo aponta três caminhos complementares para a expansão da filantropia familiar e identifica ações em curso e as lacunas, propondo uma ação coordenada e com mais colaborações. O mapa estratégico, que apresenta práticas que podem ser realizadas para o atingimento de um novo patamar, foi construído com a participação de filantropos atuantes.

  1. Mais indivíduos e famílias de alto patrimônio envolvidos com a filantropia. Isso inclui sensibilizar novos doadores e a próxima geração de filantropos, criar espaços de pertencimento e troca entre pares, capacitar advisors que influenciam a tomada de decisão e ampliar a discussão pública sobre o papel social das famílias ricas.
  2. Aumento do valor médio doado por cada indivíduo e família. Aqui, o foco é ampliar a confiança e fortalecer a governança das OSCs, além de estimular mudanças no ambiente regulatório e fiscal que favoreçam a doação.
  3. Mais capitais mobilizados com compromissos de médio e longo prazo voltados para a solução de problemas estruturais. O estudo aponta a necessidade de diversificar os instrumentos financeiros usados pelos filantropos, fomentar o advocacy e construir coalizões intersetoriais capazes de gerar impacto em escala.

Um convite à ação

Para o IDIS, o lançamento do estudo marca um novo capítulo na filantropia brasileira. “A mudança não depende de um ator isolado. Requer o engajamento de todos os envolvidos no ecossistema: filantropos, consultores, advogados, contadores, comunicadores, gestores de OSCs e formuladores de políticas públicas. O que propomos é um convite à ação coordenada, com metas claras e estratégias conjuntas”, destaca Felipe Insunza Groba, gerente de projetos no IDIS.

O contexto atual — marcado por desigualdades profundas, crises socioambientais e institucionais e uma crescente urgência por soluções sistêmicas — demanda uma nova geração de filantropos dispostos a atuar com intenção e estratégia. “O Brasil tem um enorme potencial de transformação socioambiental por meio da filantropia familiar. Mas para isso, é preciso mudar a chave: sair da lógica da doação pontual ou resposta emergencial e construir uma atuação contínua, articulada e orientada a gerar impactos positivos”, complementa Groba.

A publicação completa está disponível gratuitamente no site do IDIS. A iniciativa contou com apoio da Fundação Itaú, Instituto Beja, Movimento Bem Maior e Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein.

Sobre o IDIS – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social

O IDIS — Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social — foi fundado em 1999, é uma organização social independente. É a primeira organização a apoiar estrategicamente os investidores sociais no Brasil. Seu objetivo é inspirar, apoiar e ampliar o investimento social privado e seu impacto, promovendo ações que transformam realidades e contribuem para a redução das desigualdades sociais no país. Tem a sua atuação apoiada na geração de conhecimento, consultoria e realização de projetos de impacto, que contribuem para o fortalecimento do ecossistema da filantropia e da cultura de doação.