Marketing Digital: empresas e ONGs jogam o mesmo jogo, mas com regras diferentes

Cultura Organizacional
Compartilhar

 

Imagem:ChatGPT

 

Por Edmond Sakai

 

No vasto e ruidoso cenário digital de hoje, a visibilidade não é apenas um bônus, é uma necessidade. Para as ONGs, que competem por atenção, recursos e apoio, a capacidade de se destacar e comunicar sua missão de forma eficaz é mais desafiadora do que nunca. Em um mundo onde a maioria das pessoas está constantemente conectada, ignorar o marketing digital significa perder uma enorme quantidade de apoiadores em potencial. Afinal vivemos a era do digital.

Li um artigo interessante a respeito disso na Nonprofit Digital Mentor que aponta diferenças e similaridades entre o marketing digital empregado pelas ONGs e empresas.

Organizações sociais e corporações competem todos os dias pela mesma coisa: atenção. Mas se o campo de batalha é o mesmo – as redes sociais, Google e e-mail -, as estratégias e os propósitos são completamente diferentes.

O marketing digital é hoje o pulso de qualquer projeto bem-sucedido, seja ele movido por lucro ou por propósito. Então como empresas e ONGs usam o digital para conquistar corações, gerar impacto e entregar resultados?

É o que o artigo apresenta e, abaixo, trago uma breve análise dos seus principais pontos.

 

O que ONGs e empresas têm em comum?

A Nonprofit Digital Mentor avalia que tanto as ONGs quanto as empresas sabem que o primeiro passo é entender profundamente seu público.

Quem é essa pessoa do outro lado da tela? O que a move, o que ela busca e o que desperta sua emoção?

Esse conhecimento é o ponto de partida para criar campanhas que realmente conectam. Outro ponto em comum é o poder do conteúdo.

Em outras palavras, não basta estar online, é preciso entregar valor. Textos, infográficos, vídeos, stories e postagens precisam inspirar, educar e entreter. É isso que constrói autoridade, confiança e relevância. E claro, as redes sociais são o grande palco onde tudo acontece.

Instagram, LinkedIn, X, YouTube … cada canal tem sua própria dinâmica, mas todos servem a um mesmo propósito: criar comunidade. É ali que marcas e causas se tornam parte do dia a dia das pessoas.

 

O jogo das empresas

Segundo o artigo, para o mundo dos negócios, o marketing digital é estratégia e performance. Com efeito, cada clique pode virar um cliente, cada lead pode virar uma venda.

Aqui, as métricas reinam: ROI, conversão, funil, retenção. Tudo é medido, tudo é otimizado.

Além disso, empresas investem pesado em anúncios, influenciadores e automações.

O foco é claro: gerar receita, ampliar mercado e fidelizar consumidores. E quanto mais dados, melhor, porque no universo corporativo, informação é lucro.

 

O jogo das ONGs

Já no nosso Terceiro Setor, de acordo com o artigo, o jogo é outro. O objetivo não é vender, é mobilizar.

O sucesso não se mede em lucros, mas em vidas transformadas, causas fortalecidas e pessoas engajadas. Entretanto, a partir da minha experiência, faço uma ressalva aqui: cada vez mais as ONGs implementam as mesmas métricas usadas pelas empresas como KPIs, churn (taxa de evasão ou cancelamento de doadores em um período específico), ROI, conversão e retenção. Afinal de contas, uma ONG é uma empresa – no caso não lucrativa – e como tal suas ações precisam ser medidas. Com efeito, já dizia o pai da administração moderna Peter Drucker: “o que não se mede não se gerencia”.

Além disso, a Nonprofit Digital Mentor menciona em seu artigo que as ONGs operam com recursos limitados, mas com um ativo que as empresas muitas vezes invejam: propósito genuíno. De fato, concordo que este é o grande diferencial que as ONGs têm, pois nasce de causas reais e mobiliza pessoas. Enquanto empresas frequentemente tentam construir propósito como parte de sua estratégia de marca, nas ONGs ele é a própria identidade. Essa autenticidade gera engajamento, confiança e capacidade de transformar limitações em força. No fim, o que falta em orçamento sobra em significado – e isso é um ativo que nenhuma verba compra.

Assim, com histórias reais, emoção e autenticidade, ONGs conquistam o que o dinheiro não compra: empatia e pertencimento.

Campanhas bem-sucedidas no setor social apostam em storytelling, parcerias e mídia orgânica. E sim, com ferramentas como o Google Ad Grants (até US$10 mil por mês em anúncios de pesquisa gratuita), até o orçamento pequeno pode ganhar escala global.

Agora uma coisa deixo claro: ONGs precisam ter recursos e, como resultado, necessitam arrecadar e ter um departamento profissional de captação de recursos, que é – como já escrevi em 2020 e continuo a repetir, pois é vital que todos ligados, sejam como voluntários, sejam como profissionais, ao Terceiro Setor saibam – um dos três pilares da administração eficiente de uma ONG.

 

A fórmula secreta do sucesso

O artigo afirma que o segredo não está em ter mais recursos, mas em usar a estratégia certa para o seu objetivo.

Empresas precisam ser humanas. ONGs precisam ser estratégicas. Ambas têm muito a aprender uma com a outra.

Ademais, as empresas podem inspirar-se no poder emocional das ONGs para humanizar suas marcas. E as ONGs podem adotar o rigor e a inteligência de dados das empresas para escalar seu impacto.

O futuro do marketing digital, para o Nonprofit Digital Mentor, está nessa fusão: propósito com performance, emoção com estratégia, causa com resultado.

É verdade que o sucesso, portanto, nasce quando esses dois mundos utilizam estrategicamente as ferramentas de um e de outro. Empresas que integram propósito real às suas ações ganham relevância e confiança. ONGs que aplicam visão estratégica e mentalidade de crescimento tornam-se mais sustentáveis e ampliam seu impacto.

No fim, não se trata de escolher entre sentimento ou eficiência, mas de combinar ambos. Propósito sem estratégia é inspiração que não se realiza; estratégia sem propósito é movimento sem direção.

A fórmula secreta do sucesso está justamente nessa convergência: organizações — sejam lucrativas ou sociais — capazes de unir sentido e método, coração e mente, deixam de apenas comunicar e passam a transformar. É essa síntese que define o novo padrão do marketing digital: menos ruído, mais impacto real.

 

Conclusão: o digital é o território da transformação

Em resumo, o marketing digital é apenas o meio – o que realmente importa é o porquê.

Empresas querem crescer. ONGs querem mudar o mundo. Mas as duas só vencem quando conseguem tocar pessoas de verdade, no mundo real.

Então, antes de lançar a próxima campanha, pare e pergunte: “o que minha marca quer deixar no mundo?”

Seja você uma empresa que busca relevância ou uma ONG que busca apoio, o segredo é o mesmo: autenticidade, conexão e propósito real. Bom jogo!

 

*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.

 

Edmond Sakai

Edmond Sakai é advogado e professor. Foi diretor de ONGs como Operation Smile, Aldeias Infantis SOS-Brasil, Human Rights Watch-Brasil, The Nature Conservancy-Brasil e JCI. É mestre em Integração da América Latina pela USP e em Administração de ONGs pela Washington University in St. Louis. Foi professor de Direito Internacional na UNESP, de Gestão do Terceiro Setor na FGV-SP e Representante da JCI na ONU. Recebeu Voto de Júbilo da Câmara Municipal de São Paulo e o título de Visitante Ilustre da Câmara Municipal de Santa Cruz de la Sierra.