Mobilidade social no Brasil: o que fizemos em 2025 e os desafios para acelerar a mudança no futuro
Políticas Públicas

Por Vitor Hugo Neia
O ano de 2025 se encerra com um retrato ambíguo da mobilidade social no Brasil. Houve avanços relevantes em indicadores de emprego e redução da pobreza, mas eles seguem insuficientes para alterar as estruturas profundas que sustentam a desigualdade no País. Os dados do Atlas da Mobilidade Social, elaborado pelo Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS), são eloquentes: menos de 2% das crianças pertencentes à metade mais pobre da população conseguem alcançar o grupo dos 10% mais ricos na vida adulta, e apenas 10,8% dos jovens oriundos dos 50% mais pobres chegam aos 25% mais ricos. Além disso, somente metade dos brasileiros nascidos na década de 1980 supera a renda de seus pais, um sinal de estabilidade intergeracional que, embora relevante, está longe de representar transformação estrutural.
Quando observamos esse cenário a partir dos territórios, as fragilidades se tornam ainda mais evidentes. A pesquisa “Viver nas Cidades: Desigualdades 2025”, realizada pelo Instituto Cidades Sustentáveis em parceria com a Fundação Grupo Volkswagen, mostra que, embora parte da população relate estabilidade ou leve melhora de renda, a maioria precisa recorrer a atividades extras para fechar o orçamento mensal. O peso do custo de vida segue pressionando as famílias e reduzindo sua capacidade de planejamento de médio e longo prazo, o que limita escolhas e compromete projetos de futuro.
Essas dificuldades não são pontuais, mas estruturais. O baixo crescimento econômico da última década reduziu a capacidade do País de gerar oportunidades consistentes de mobilidade social, enquanto a precariedade da educação pública compromete o desenvolvimento de competências essenciais desde a infância. A qualidade da aprendizagem segue sendo um dos principais gargalos. Estudos internacionais já demonstraram que uma parcela expressiva dos adolescentes brasileiros chega ao ensino médio sem dominar habilidades básicas, o que compromete trajetórias educacionais, dificulta a inserção produtiva qualificada e perpetua desigualdades ao longo das gerações.
No campo do trabalho, 2025 apresentou sinais positivos, como o crescimento da ocupação, a redução do desemprego e a queda da pobreza. Porém, ainda assim, esses avanços convivem com desafios persistentes. A informalidade permanece elevada, parte relevante das novas vagas é marcada por baixa remuneração e instabilidade, e desigualdades históricas de gênero, raça e território, continuam a limitar as possibilidades de ascensão social para milhões de brasileiros. Emprego, por si só, não garante mobilidade quando não vem acompanhado de renda adequada, proteção social e perspectivas de progressão.
A educação, tradicionalmente apontada como principal alavanca de mobilidade social, também revela um balanço contraditório. Houve aumento da escolaridade média ao longo das últimas décadas, impulsionado, em parte, por políticas de transferência de renda. No entanto, esse avanço não tem se traduzido, de forma consistente, em maior percepção de prosperidade ou segurança econômica. A desconexão entre escola e mundo do trabalho permanece como um dos principais entraves, reforçando a necessidade de políticas que integrem formação educacional e inclusão produtiva.
Para que o Brasil consiga acelerar a mobilidade social, será necessário enfrentar, de forma articulada, alguns eixos estruturantes. O ponto de partida está no enfrentamento do déficit educacional, não apenas em termos de acesso, mas sobretudo de qualidade da aprendizagem. Garantir desenvolvimento integral desde a primeira infância, reduzir defasagens ao longo da trajetória escolar e fortalecer a transição entre escola e trabalho são condições essenciais para alterar trajetórias de vida. Isso exige investimento contínuo na educação básica, aliado ao fortalecimento da educação profissional, técnica e superior, com currículos alinhados às transformações econômicas e tecnológicas.
Esse esforço precisa caminhar junto à ampliação consistente da inclusão produtiva. O trabalho digno segue sendo o principal vetor da mobilidade social. Avançar nessa agenda requer coordenação entre poder público, setor privado, universidades, e terceiro setor para ampliar a qualificação profissional, estimular a geração de empregos formais e apoiar trajetórias de empreendedorismo capazes de garantir renda estável e proteção social ao longo do tempo.
Esse conjunto de políticas só produzirá resultados duradouros se estiver ancorado em uma estratégia de desenvolvimento territorial integrado. A persistência das desigualdades regionais demonstra que soluções homogêneas têm alcance limitado em um País marcado por realidades tão diversas. Políticas eficazes são aquelas que partem de diagnósticos socioterritoriais, dialogam com as especificidades locais e fortalecem capacidades e redes nos territórios. Sem esse olhar, o risco é reproduzir respostas desconectadas da realidade e aprofundar a imobilidade social que se busca superar.
O balanço de 2025 deixa claro que a mobilidade social no Brasil não avançará de forma consistente sem coordenação, visão de longo prazo e investimento estrutural em pessoas e territórios. O desafio que se impõe para 2026 e os próximos anos, não é apenas preservar avanços pontuais, mas transformá-los em estratégias duradouras, capazes de alterar, de forma efetiva, o destino social das próximas gerações.
A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.
