Crianças passam fome sem auxílio merenda na quarentena

Compartilhar

Com as aulas suspensas, governos e prefeituras anunciaram a distribuição de auxílio merenda. Porém, o benefício não está chegando a todas as famílias que precisam e algumas passam fome durante a crise

Famílias passam fome sem auxílio merenda
Foto: Arquivo/Agência Brasil

Por: Júlia Pereira

No início do mês de abril, ainda no começo da pandemia de Covid-19 no Brasil, Denise Silva recebeu R$ 300 de auxílio alimentação da Prefeitura do Rio de Janeiro para suprir a merenda dos três filhos matriculados na rede municipal durante a suspensão das aulas presenciais. Foi ao mercado e conseguiu fazer uma boa compra para manter a alimentação da família.

Porém, o auxílio, que deveria ser entregue às famílias mensalmente, nunca mais foi carregado. “Agora, eu estou sem nada dentro de casa, não tem de onde tirar dinheiro e o cartão não recarrega”, diz Denise.

A Secretaria Municipal de Educação (SME) Carioca anunciou a entrega de um cartão-alimentação no valor de R$ 100 por aluno às famílias atendidas pelo Programa Bolsa Família/Cartão Carioca. O benefício tem como objetivo minimizar os impactos do coronavírus e substituir a merenda oferecida nas escolas em cenários de normalidade.

Além dos três filhos matriculados na rede municipal do Rio – 7, 11 e 14 anos – Denise também tem uma filha de 17 anos que estuda na rede estadual e que não havia recebido nenhum auxílio até então.

Depois de quase três meses desde a suspensão das aulas, a diretora da escola entrou em contato com as famílias para falar sobre a distribuição de cestas básicas. 

“A diretora entrou em contato comigo pedindo para eu mandar os dados da minha filha e o número do NIS [Número de Identificação Social], sendo que o número do NIS da minha filha eu não tenho. Creio eu que, por causa disso, eu não vou conseguir pegar a cesta”, conta.

Denise
Denise precisou sair do emprego e hoje passa dificuldades, já que parou de receber o auxílio merenda dos filhos | Foto: Arquivo pessoal

Assim como a Prefeitura, o Governo do Estado do Rio também anunciou a distribuição de vales de R$ 100 aos alunos durante a suspensão das aulas presenciais. Para receber, a família do estudante deve estar dentro do perfil socioeconômico de extrema pobreza, ser atendida pelo governo federal por meio do CadÚnico e ser beneficiada pelo Programa Bolsa Família.

Denise é cuidadora de idosos e estava desempregada desde dezembro de 2018. No dia 5 de abril deste ano, foi contratada. Pouco depois de um mês no novo emprego, ela começou a sentir um mal-estar e fortes dores no estômago em razão de uma úlcera gástrica causada pelo sistema nervoso.

A doença se juntava com a fome que sentia. A paciente que Denise cuidava era quem a ajudava oferecendo comida enquanto estava no trabalho, já que em casa a situação estava difícil. “Às vezes, eu estava comendo no trabalho e sabia que meus filhos em casa não tinham o que comer”, lembra.

Por conta das dores intensas, Denise precisou sair do trabalho. Desempregada desde então, ela tem que recorrer à ajuda do pai de um dos filhos para se manter. “Eu não estou tendo essa ajuda do governo, então a única pessoa com quem eu posso contar é o meu ex, o pai da minha caçula, que não tem muita coisa também, mas o pouco que tem ele me ajuda”, explica.

A fome acompanha o desemprego

A distribuição do auxílio merenda também foi anunciada em São Paulo. Tanto na rede municipal quanto na estadual, o benefício é oferecido aos estudantes em situação de vulnerabilidade social inscritos no Programa Bolsa Família. Essa exigência, no entanto, acaba excluindo famílias que estão passando por necessidades neste momento.

Stefany
Stefany não recebe o Bolsa Família e, por isso, seus três filhos não têm direito ao auxílio merenda | Foto: Arquivo pessoal

Stefany Chagas Miranda, moradora do Parque São Rafael, trabalhava como auxiliar de limpeza e recebia um salário mínimo. Por isso, não se enquadrava nas exigências para receber o Bolsa Família e não pôde receber o auxílio merenda dos filhos.

Em razão da crise gerada durante a pandemia, Stefany foi demitida e entrou na faixa dos 12,9 milhões de brasileiros desempregados, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Sem emprego formal, a moradora de São Paulo passou a fazer faxina por conta própria para conseguir o dinheiro contado para o sustento próprio e dos três filhos, de 6, 8 e 11 anos.

Mas sem uma renda fixa, Stefany acaba precisando da ajuda emergencial do ex-marido e da mãe para garantir o básico em casa: a alimentação.

“Os dias mais difíceis são quando começa a passar fome dentro de casa. A gente fica desesperado, ainda mais quando tem criança”, desabafa.

Organizações da sociedade civil tentam suprir a falta de políticas públicas

Enquanto o Presidente da República planejava cortes no Programa Bolsa Família para investir na publicidade do governo, as classes mais pobres passam por necessidades. É o caso da família de Fábio Francisco da Silva. Ele é o único entre as 8 pessoas que possui emprego formal, como professor. Como a família não recebe o Bolsa Família, as dificuldades aumentaram ainda mais nesse período de crise.

Fábio tem três sobrinhos pequenos. Duas das crianças estão matriculadas numa creche da rede municipal de Recife (PE) e receberam uma cesta básica.

No entanto, o benefício foi entregue somente no mês de abril e a quantidade de itens não foi suficiente para suprir a necessidade de toda a família. “Por que estão acontecendo esses saqueamentos na cidade? Porque as pessoas estão com fome. Eu sei que isso não justifica, mas as pessoas estão com fome. Tudo fechado, tudo parado, as pessoas estão com fome! É difícil”, diz, indignado.

Por falta de apoio da Prefeitura e do Governo, a família da comunidade do Cardoso, zona oeste de Recife, passou a depender das doações de cestas básicas da Ação da Cidadania, entidade presente nos 26 estados brasileiros e no Distrito Federal.

Fábio
Fábio, a irmã Camila e os sobrinhos após receberem a cesta básica da Ação da Cidadania | Foto: Arquivo Pessoal

Fábio também é líder de um grupo formado por 23 famílias da comunidade que, assim como a dele, não foram assistidas pelo poder público neste momento e dependem de doações da organização.

“Desde março até agora eles estão ajudando a gente. A Ação da Cidadania é muito importante pra gente”, diz Fábio.

A entidade, que atua há 27 anos no combate à fome e à miséria no Brasil, reforçou os trabalhos neste momento de crise. Desde o começo da pandemia, já foram distribuídas mais de 230 mil cestas básicas e kits de higiene e limpeza para a população mais vulnerável.

“As famílias mais vulneráveis são as que mais sofrem em todo esse processo. Sem acesso à saúde e condições mínimas de vida, estas famílias não têm a quem recorrer. Elas não têm nem poupança, nem crédito e agora nenhuma possibilidade de trabalho. Sem o apoio de entidades como a nossa, elas literalmente vão morrer de fome”, explica Kiko Afonso, diretor executivo da Ação da Cidadania, que afirma não ter visto um cenário tão grave como este desde a fundação da entidade, em 1993.

A filial da ONG Sonhar Acordado, em São Paulo, também está atuando durante a pandemia. A organização, que tem como missão a formação de jovens líderes através da vivência e transmissão de valores e virtudes, está com foco na arrecadação de doações destinadas às famílias atendidas pelas instituições parceiras, como Centros Comunitários de Assistência para Crianças e Adolescentes (CCA), Casas de Apoio, Serviço de Acolhimento Institucional Para Crianças e Adolescentes (SAICA), entre outros.

Uma das ações criadas neste momento foi a ‘Rifa Sonhadora’. “Criamos uma rifa no valor de R$ 12,00. Todos os valores arrecadados dessa rifa serão destinados para as instituições em dinheiro ou para a compra de produtos conforme as necessidades”, conta Vinícius Pereira, voluntário, que explica que esses itens vão desde cestas básicas, kits de higiene e limpeza, além de máscaras de proteção.

Por meio das ações realizadas pela organização, já foram arrecadadas cerca de 4 toneladas de produtos destinados às famílias atendidas.