Inspiradas nas suas experiências, mães criam projetos e transformam vidas

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Conheça as histórias de três mães que, a partir de suas experiências pessoais envolvendo a maternidade, decidiram criar projetos sociais e hoje ajudam muitas outras pessoas

Por: Isabela Alves

O Dia das Mães, comemorado no Brasil no segundo domingo de maio, é uma data que homenageia a figura materna pela sua dedicação, amor e carinho pelos filhos. 

A data foi celebrada pela primeira vez no mundo no dia 9 de maio de 1914, nos Estados Unidos, após a filha de Ann Maria Reeves Jarvis, a metodista Anna Jarvis, criar um memorial em homenagem à morte da sua mãe e promover uma campanha para que o Dia das Mães se tornasse um feriado reconhecido. 

Apesar disso, muitos historiadores acreditam que a data também possui raízes na Antiguidade clássica, como na Grécia e Roma antigas.

Especialistas ainda apontam que, apesar de não existir uma associação direta com a celebração moderna, sempre houve festivais para homenagear a figura materna. 

Nesta reportagem, você vai conhecer três mães que, a partir de suas experiências pessoais, criaram projetos que causaram impacto positivo na vida de outras pessoas.

Após nascimento do filho com síndrome de Down, ela se tornou empreendedora social 

Thaissa Alvarenga, de 43 anos, viu a sua vida se transformar com o nascimento do primeiro filho. Publicitária por formação, ela conheceu o seu marido no mundo corporativo e engravidou aos 35 anos.

Na época, ela tinha planos de ir embora do Brasil. No entanto, seus planos mudaram ao descobrir, com 23 semanas de gravidez, que seu filho tinha Síndrome de Down e cardiopatia congênita.

“A síndrome não foi algo que me abalou emocionalmente. O que mais me preocupou foi a questão do coração, já que é uma cirurgia delicada. Eu quis deixar ele na minha barriga o maior tempo possível para que ele nascesse saudável, mas o Francisco acabou nascendo prematuro”, conta. 

Seu primogênito nasceu após 36 semanas e 4 dias de gestação (8 meses), e precisou passar seus 4 primeiros dias de vida na UTI, mas mamou no peito desde o primeiro.

Thaissa então decidiu largar a sua carreira para se dedicar inteiramente ao filho. Aos 4 meses de vida, Francisco foi submetido à cirurgia e teve a cardiopatia corrigida. Depois disso, ela passou noites em claro até que o bebê se recuperasse.

Ela fez tudo o que estava ao seu alcance para que o filho se desenvolvesse da melhor maneira. Com apenas 6 meses de idade, Chico foi encaminhado para consultas na fonoaudiologia, fisioterapia e terapia ocupacional. Com 9 meses, ele já fazia aulas de natação. Hoje ele tem 7 anos.

“A sociedade cria mitos de que são pessoas ‘especiais’. Em primeiro lugar, deve-se enxergar ali o ser humano. Cada pessoa tem o seu potencial e características. Ele é uma criança como as outras, mas que precisa de mais estímulos”, afirma. 

Não demorou muito para que ela quisesse aumentar a família e logo vieram duas meninas: Maria Clara, hoje com 4 anos, e Maria Antônia, com 3.

Posteriormente, a mãe passou a refletir sobre a sua experiência como mãe de três e pensou em uma maneira de dar o exemplo da sua família para outras pessoas.

Em 2016, criou um blog para levar informações sobre o dia a dia das crianças e, com o crescimento do blog, ela passou a pensar em projetos sociais e decidiu fazer uma transição de carreira para trabalhar como empreendedora social.

Em 2018, o blog se tornou o site Chico e Suas Marias e ela também inaugurou a ONG Nosso Olhar, com projetos voltados à área da educação, esporte e cultura. As ações são pensadas desde a primeira infância até a terceira idade.

Localizada no Morumbi, na Zona Sul de São Paulo (SP), a ONG possui um espaço com tatame inclusivo, terapia e área de convivência. Além disso, faz parceria com outras organizações para levar o debate da inclusão a outros ambientes. Um exemplo disso é a parceria com a Gerando Falcões para levar o tema para dentro das favelas. 

Em 2020, Thaissa ganhou um espaço mensal no portal UOL, onde ela escreve artigos e produz o programa Inclua Mundo no Papo de Mãe.

Com a pandemia, Thaissa revela que o maior desafio que enfrentou foi manter a estrutura da sua ONG. No entanto, ela relata que o mais importante do seu projeto social é que ele cria pontes para transformar o mundo.

“É preciso quebrar o muro invisível do preconceito e levar o assunto da inclusão para o seio familiar e as escolas. Ninguém nasce sabendo e por isso não devem existir limitações”, diz. 

Após o desaparecimento da filha, ela criou uma ONG que já ajudou 5 mil famílias a encontrarem pessoas desaparecidas

Nascida em Alagoas, Ivanise da Silva Santos, de 59 anos, diz que a maternidade é uma dádiva e um amor imensurável. 

Ela engravidou pela primeira vez aos 19 anos de idade. No entanto, nesta tentativa ela acabou sofrendo um aborto espontâneo. Seu marido trabalhava como motorista de ônibus e ela estava em sua casa sozinha, assistindo à TV, em uma tarde de domingo.

De repente, ela sentiu uma cólica muito intensa e, quando foi tomar banho, viu o sangue pelo chão. Ao chegar no hospital, Ivanise entrou em um estado de choque ainda maior ao descobrir que estava grávida de gêmeos.

“Depois disso, eu fiquei obcecada em me tornar mãe. A minha ansiedade estava tão grande que só consegui engravidar depois de 9 meses”, conta.

Na época, ela não conseguiu fazer exames de ultrassom para saber o sexo do bebê por falta de dinheiro, então a sua expectativa para ter o filho no colo só aumentou com o passar do tempo.

Sua primeira filha, Fabiana, nasceu e logo Ivanise engravidou da segunda filha, Fagna. “Ver os primeiros sinais de vida, quando o bebê se mexe, gera uma das melhores sensações da vida. Quando a bebê chega ao mundo chorando, ela sente a temperatura do seu corpo e logo para. Ao nascer uma criança, também nasce uma mãe”, diz emocionada. 

Apesar de ter ajudado a sua mãe a cuidar de 6 irmãos mais novos quando era adolescente e ter uma noção de como lidar com as bebês, ela enfrentou muitas dificuldades ao cuidar das duas filhas, porque não tinha a ajuda de ninguém.

O pai só chegava no final do dia e não trocava ou dava banho nas filhas. Ela lembra que dava de mamar no peito para uma e na mamadeira para outra, com as duas no colo.

O salário do marido não permitia regalias, então as crianças não tiveram carrinho e usavam fraldas de pano na maior parte do tempo.

Apesar disso, Ivanise afirma que as criou com muito amor: “Elas viviam com laços, brincos, pulseiras e vestidos. Até os pediatras falavam o quanto dava gosto em examinar elas”.

Sua vida teve uma reviravolta no dia 23 de dezembro de 1995. Aos 13 anos, Fabiana saiu de casa às 20h para ir à festa de aniversário de uma colega de classe. O trajeto da casa de Ivanise para lá era de apenas 20 minutos.

Ivanise não estava em casa no momento em que ela saiu, mas, assim que chegou, pegou o guarda-chuva e foi buscá-la na casa da amiga que a havia acompanhado para a festa.

Ao chegar, a menina disse: “Ela devia ter chegado em casa há muito tempo. Nos separamos no mercado”. O estabelecimento ficava a 120 metros do começo da sua rua.

Ivanise afirma que, alguns dias antes do desaparecimento, ela teve um sonho ruim e que no dia em que tudo aconteceu ela acordou muito triste, com vontade de chorar, mas não sabia o motivo. Ao saber da notícia, ela começou as buscas nas proximidades de casa.

Na época, não existiam câmeras nos supermercados, então ela ficou na rua procurando pela filha até às 02h30 da manhã. Depois, foi até a delegacia e foi tratada de forma desrespeitosa.

“Eu saí me sentindo a pior pessoa do mundo e nada foi feito nas primeiras horas. Passou a véspera e o dia de natal, e durante mais 3 meses continuei procurando a minha filha nos hospitais, IML e nas ruas”, relata. 

Nos primeiros dias, houve comoção entre os conhecidos, professores e colegas de classe. No entanto, em pouco tempo, a vida de todos seguiu e ela foi a única pessoa que continuou procurando. 

Ivanise diz que quase chegou à beira da loucura, porque sua vida não tinha mais sentido. Ela passou 8 anos fazendo terapia e chegou a pesar apenas 36 kg. “Ou eu iria morrer ou encontraria forças para continuar procurando a minha filha”, diz. 

Assim, ela fundou a ONG Mães da Sé. Ao lado de outras mães que passaram pela mesma dor, ela aprendeu a conviver com essa situação e passou a ajudar aquelas que não conheciam os seus direitos. “Se eu continuasse a viver a minha dor solitária, eu não estaria mais aqui”.

Ela revela que o principal obstáculo em relação aos casos de desaparecimento é enfrentar o descaso das autoridades que falam ‘volte em 24 horas’, pois não se deve esperar. “O policial que me atendeu mandou eu voltar para casa, porque ‘isso é uma coisa de adolescente’ e até hoje eu estou esperando”. 

Ivanise afirma que em casos nos quais o policial se recusa a prestar o serviço, é preciso pegar o seu nome e fazer uma denúncia na corregedoria. Também é necessário fazer o boletim de ocorrência para o registro e procurar uma delegacia investigativa para as buscas. 

Na sua ONG, a pessoa que tem um parente desaparecido faz um cadastro e assina um termo para que a instituição faça um trabalho de divulgação em parceria com outras instituições, como o Ministério Público e o Conselho Tutelar. 

A ONG já possui mais de 11 mil cadastros. Deste total, 42% tiveram um desfecho feliz: cerca de 5 mil pessoas foram encontradas.

Ivanise relata que enxerga a sua filha no rosto de cada pessoa encontrada e que a certeza de que Fabiana irá aparecer um dia é o que a mantém viva. 

“Essa é a pior dor do mundo. Eu quero uma resposta, porque essa dúvida me mata aos poucos a cada dia. Roubaram a minha paz e a minha vida parou no tempo. No dia que eu a reencontrar, eu quero beijar, abraçar e viver cada minuto ao seu lado para compensar o tempo perdido”.

Mãe na adolescência, hoje ela incentiva que as mulheres se enxerguem além da maternidade

Rafaela Lopes dos Santos Nunes, de 22 anos, é educadora social e diz que a maternidade é algo complexo, difícil de se definir.

Moradora do bairro de Parelheiros, no extremo sul da cidade de São Paulo, ela se tornou mãe aos 16 anos e, ainda gestante, começou a participar do projeto ‘Centro de Excelência em Primeira Infância’, do Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário (IBEAC), criado em 2016.

Ao entrar no projeto, ela começou a refletir mais sobre o que é a maternidade e como é importante não romantizá-la. “Se alguém fala ‘meus filhos são a razão da minha vida’, falta algo ali. Isso acontece porque a mãe só pensa em se dedicar ao outro, sem entender a sua própria essência. Ela sempre coloca as expectativas no filho”, afirma. 

Por ter engravidado no Ensino Médio, Rafaela acreditava que já havia conquistado tudo o que queria na vida: casar-se, cuidar do filho e ser dona de casa. No entanto, no projeto ela descobriu que existem outras possibilidades e que é possível ir além.

Atualmente, ela enxerga que a maternidade se trata de viver a infância de uma outra perspectiva, mas que também deve ser encarada como uma atividade que envolve multitarefas. 

“Muitas mães têm tripla jornada e não conseguem cuidar de si mesmas. Essa necessidade que a sociedade impõe de que as mulheres nasceram para ser mães acaba colocando as mulheres em caixinhas e não nos incentiva a viver o mundo de uma maneira completa”, relata. 

Segundo ela, a maternidade deve ser encarada como uma escolha, mas nunca como a única opção. Por meio do projeto social, Rafaela aprendeu que a necessidade de ser mãe é colocada na mente das meninas desde a primeira infância.

Enquanto os meninos brincam de avião ou carrinho, as meninas brincam de boneca e de casinha. Uma simples brincadeira faz com que a prioridade dos homens na vida adulta seja arrumar um emprego e viajar o mundo, enquanto as mulheres devem cuidar da família. 

É importante ressaltar que, em Parelheiros, o índice de gravidez na adolescência atinge 16,53%. Ele só é menor do que o registrado no distrito de Marsilac, com 18,85%, segundo o Mapa da Desigualdade, da Rede Nossa São Paulo.

A educadora aponta que, por mais que o projeto lute para baixar esse índice, novas mães continuam surgindo e existindo. O projeto do IBEAC propõe, então, que essas mães expandam a sua visão de mundo para que elas possam conquistar outros espaços.  

Durante a quarentena, surgiu o projeto ‘Mães Mobilizadoras’, em que 14 mães se uniram para ajudar seis comunidades carentes da região onde moram. Elas trabalham com a técnica dos 4 Ps: pão, proteção, poesia e plantio. É válido ressaltar que, além dos 4Ps, o projeto atua em outras frentes. 

“O pão representa que essas famílias não devem passar fome. A proteção ocorre com a distribuição gratuita de máscaras. A poesia são as leituras que realizamos para que as mães tenham a alma preenchida. Por fim, o plantio foi pensado na criação de hortas comunitárias para garantir a segurança alimentar da população”, conta. 

Até agora, a ação distribuiu 4 mil livros, 25 mil máscaras de tecido e 97 toneladas de alimentos, beneficiando 1.300 famílias.

Além disso, por meio de parcerias com empresas, elas entregaram 1.200 cartões de alimentação ao longo de 3 meses com um valor para ajudar essas famílias.

Agora, o projeto está promovendo rodas de leitura e conversa online. Nos encontros, elas sempre trazem alguma reflexão, como, por exemplo, “que tipo de coisa você deixou de fazer por ser mulher?”.

Uma simples pergunta desencadeia diversas histórias complexas e, o mais importante, faz com que elas criem consciência por elas próprias. O IBEAC também encaminha para as mães materiais que conscientizam sobre a violência contra a mulher e, em casos mais graves, encaminha essas mulheres para a Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima próxima, o Centro de Cidadania da Mulher ou Advogados Parceiros.

“Para o futuro, queremos levar essa experiência para outras comunidades e sistematizar essa metodologia que visa o autocuidado. Queremos produzir artigos científicos e até nos tornar referência para planos nacionais”, conclui. 


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