Abuso sexual infantil: 87,7% das vítimas são meninas

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Combinando pesquisa, educação e construção coletiva de programas e políticas públicas, a ONG Serenas realiza capacitações com lideranças das redes públicas de ensino; focadas na prevenção e no acolhimento, iniciativas combatem o abuso e violência sexual contra meninas e mulheres.
Abuso sexual infantil: 87,7% das vítimas são meninas
Imagem: Adobe Stock

Da Redação

Crianças e adolescentes são as principais vítimas de abuso sexual; segundo os dados do 17ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, 61,3% dos casos ocorrem com menores de 13 anos e cerca de 86% dos abusadores foram familiares ou pessoas próximas da família. O situação traz um alerta para a vulnerabilidade desta parcela da população, especialmente as meninas, que conforme levantamento da Fundação Abrinq aponta, em 87,7% dos casos são as principais vítimas desse tipo de violência.

O Brasil ocupou o segundo lugar no ranking mundial desse tipo de crime, com o total de 500 mil vítimas anualmente. O terceiro setor conta com diversas organizações engajadas no compromisso de prevenir e enfrentar a exploração sexual de meninas e mulheres, entre elas a ONG Serenas, que atua em território nacional, utilizando duas estratégias centrais: a educação para prevenção e a qualificação para acolhimento. Em colaboração com secretarias de educação em todo o território nacional, a organização desenvolve políticas educacionais destinadas a prevenir a violência de gênero, abordando tanto situações de violência doméstica quanto o enfrentamento da violência institucional que as vítimas enfrentam ao buscar apoio nos serviços públicos.
“Em nosso programa ‘Serenas na escola‘, trabalhamos com três etapas. A primeira é a sensibilização das lideranças, com workshop de 8 horas de formação nos mais diversos setores da Secretaria de Educação. Todas as áreas passam pela formação, desenvolvendo um olhar para prevenção das violências de gênero em qualquer política que seja construída. Depois, realizamos Assessoria Técnica que ajuda com demandas mais específicas da secretaria. Por fim, a produção e disseminação de materiais educacionais que cheguem para os agentes da comunidade escolar, professores e diretores e para os próprios estudantes e suas famílias“, conta a co-fundadora e diretora executiva da Serenas, Amanda Sadalla.
O engajamento da organização impacta diretamente a perspectiva e atenção para o cenário de prevenção. Ações do tipo são necessárias, ainda mais considerando o problema da subnotificação, em que 76,5 dos estupros acontecerem dentro de casa, com 82,5% dos abusadores sendo conhecidos da vítima; a Unicef estima que nem 10% dos casos chegam às mesas das delegacias.
A ONG chama atenção à importância de atender e dar visibilidade à vulnerabilidade das meninas, buscando a sistematização de dados para embasar políticas públicas efetivas. Com a metodologia formativa “Escola Segura para Todas as Meninas“, a ONG atua para sensibilizar lideranças e agentes das redes de educação pública, afim de incorporar a perspectiva da prevenção de violências contra meninas e mulheres em todas as políticas educacionais e tomadas de decisão. Apoiada pela Fundação José Luiz Egydio Setúbal (FJLES), a metodologia foi pilotada em 2023 no estado do Pará, envolvendo 50 lideranças da Secretaria Estadual de Educação e Secretaria da Mulher.
“O objetivo central é, nos próximos cinco anos, conseguir disseminar e reaplicar os programas, como o Serenas na Escola, e assim realizar um acolhimento humanizado na perspectiva de gênero, em todos os estados do nosso país, em nível estadual e municipal”, explicou Amanda.
Maio Laranja 
Maio Laranja é uma campanha anual dedicada ao combate à violência sexual contra crianças e adolescentes e promover uma rede de proteção e garantia dos direitos desse grupo vulnerável. A ação, simbolizada pela flor gérbera que representa a fragilidade dos pequenos, ocorre em maio para coincidir com o Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, estabelecido em 18 de maio.
Diversas ONGs estão engajadas com causa, como é o caso do Instituto Liberta.
Em entrevista para Observatório do Terceiro Setor no programa de rádio Perspectiva, a presidente da organização, Luciana Temer, falou os riscos da invisibilidade desse tipo de crime sexual. “Quando a gente fala de estupro de crianças, mais de 70% dos estupros acontecem dentro de casa, praticado por familiares. Então é muito importante que a gente entenda a cara dessa violência, porque pensar no perigo que está na rua é fácil pra nossa cabeça, o difícil é tentar enxergar o perigo quando ele está dentro de casa. A violência sexual infantil não acontece na rua, acontece dentro dos espaços protegidos, praticado por pessoas conhecidas”, explicou.
Com uma visão ambiciosa de impactar a vida de 10 milhões de adolescentes e agentes públicos até 2030, a ONG Serenas se inspira nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, principalmente no ODS 5, buscando alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas até o final desta década.
Serenas é uma organização suprapartidária e sem fins lucrativos que atua na qualificação de agentes públicos para prevenir e responder à violência contra meninas e mulheres no Brasil. A ONG se empenha em assegurar o acesso universal aos direitos e à saúde sexual e reprodutiva para meninas, ao mesmo tempo em que promove políticas educacionais voltadas à construção de relações saudáveis e prevenção de violências na infância e adolescência.


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