O avanço do investimento social num ano que promete exigir mais
Impacto das ONGs

Por Daniel Grynberg
A filantropia brasileira chega ao próximo ano em um ponto curioso: enquanto a pressão por respostas rápidas aumenta, surgem também oportunidades de reorganizar o campo com mais consistência. A combinação de crises recorrentes e expectativas sociais cada vez mais altas força organizações e financiadores a reverem como atuam, e isso abre espaço para movimentos que antes avançavam lentamente. Há um interesse real em criar soluções que não dependam apenas de ciclos políticos ou de ondas de mobilização espontânea, mas que se sustentem no tempo, com mais preparo, mais estrutura e mais clareza sobre o que se quer transformar.
Os números recentes ajudam a situar esse cenário, especialmente quando observados com cautela. O Censo GIFE 2024-2025 registra R$ 5,8 bilhões investidos em 2024 e aponta tanto o fortalecimento dos repasses para organizações da sociedade civil quanto a entrada definitiva da agenda climática entre as prioridades do setor. Esse retrato, embora não esgote a complexidade do campo, indica uma mudança relevante na relação entre filantropia e problemas sistêmicos: cresce a percepção de que crises como enchentes, secas, incêndios florestais e deslocamentos populacionais exigem ações emergenciais, mas também investimentos de longo prazo em adaptação, resiliência e justiça socioambiental. A pauta climática deixa, assim, de ser tratada como um conjunto isolado e passa a ser integrada ao planejamento de impacto de organizações e investidores.
O fortalecimento da relação entre filantropia e ciência também tende a ganhar velocidade em 2026, impulsionado pela criação e ampliação de endowments universitários, pela entrada de novos financiadores interessados em apoiar pesquisa e pelo amadurecimento de espaços de diálogo entre academia, institutos e fundações. Discussões recentes realizadas no Brasil, com participação de cientistas, gestores e lideranças internacionais, reforçam que sistemas de fomento sólidos dependem de continuidade orçamentária, governança estável e capacidade institucional, elementos que a filantropia, quando estruturada, pode ajudar a sustentar. A expectativa é de que, no próximo ano, esse movimento avance para modelos mais maduros, que combinem doações permanentes, articulação com políticas públicas e apoio a pesquisas de risco mais elevado, mas de grande potencial transformador.
Os desafios de gestão e eficiência também vão ganhar peso, especialmente em um ano eleitoral e de atenção pública fragmentada. Organizações precisarão modernizar processos, incorporar dados e tecnologia, melhorar sua narrativa institucional e fortalecer a relação com financiadores que, diante de incertezas, demandam consistência e clareza. A tendência é que modelos de concessão baseados em autonomia, confiança e redução de burocracias se ampliem, abrindo espaço para organizações de base, sobretudo em territórios historicamente subfinanciados, atuarem com mais estabilidade e planejamento.
O pano de fundo que atravessará todas essas tendências é a necessidade de transformar a filantropia em uma força capaz de sustentar políticas de longo prazo, apoiar inovação e contribuir para a estabilidade institucional em um país marcado por ciclos de instabilidade. O que está em jogo em 2026 não é somente o volume de recursos que será mobilizado, mas a qualidade das escolhas estratégicas feitas por financiadores e organizações sociais. Um investimento social privado que opere com visão, continuidade e colaboração intersetorial pode se tornar um dos pilares de transformação do país. Se o setor assumir essa vocação, o próximo ano poderá representar não apenas uma reorganização do campo, mas um salto qualitativo na forma como o Brasil constrói impacto.
*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.
