O que as novas tecnologias perdem sem lideranças femininas
Tecnologia

Por Tauan Matos
Se uma inteligência artificial aprende com os dados que oferecemos a ela, o que acontece quando esses dados refletem uma sociedade marcada por desigualdades? Essa pergunta ajuda a entender muitos dos desafios que o setor enfrenta hoje. Afinal, toda tecnologia carrega as perspectivas, experiências e prioridades de quem participou de sua construção.
Com isso, já vimos exemplos de ferramentas que associavam determinadas profissões majoritariamente a homens ou que apresentavam desempenhos inferiores ao lidar com grupos historicamente sub-representados. Por esse motivo, a diversidade também precisa estar presente entre as pessoas que desenvolvem, supervisionam e validam as novas tecnologias.
A presença feminina na tecnologia avança de forma lenta e desigual. Segundo o mais recente levantamento da Serasa Experian (2025), o número de mulheres na área cresceu 4,6% em relação a 2024, passando de 69,8 mil para 73 mil profissionais no Brasil.
O cenário revela um desequilíbrio importante. As mulheres representam apenas 0,08% da população feminina adulta no setor, enquanto os homens chegam a 0,34%. Na prática, isso significa que, para cada mulher em tecnologia, existem cerca de quatro homens.
Esse desequilíbrio também aparece na forma como a presença feminina se distribui pelo país. São Paulo concentra 31,5% das mulheres em TI, seguido por Rio de Janeiro (11,2%) e Minas Gerais (8,4%). Já a menor participação está na região Norte, o que evidencia como o acesso à formação e às oportunidades para mulheres ainda é concentrado em poucos territórios.
Além disso, precisamos avaliar quantas conseguem crescer, assumir posições de liderança e construir uma trajetória de longo prazo no setor.
Afinal, mais do que ocupar cargos, é necessário que as mulheres participem das decisões que definem produtos, estratégias e, em muitos casos, o impacto direto que essas soluções terão na vida das pessoas. Quando essas posições são ocupadas por perfis homogêneos, as soluções tendem a refletir, também, visões mais limitadas do mundo.
E esse fenômeno não é exclusivo da tecnologia. Durante anos, o mercado publicitário conviveu com campanhas que reproduziam estereótipos de gênero, raça e classe social. Muitas vezes, a pergunta que surgia após uma crise era simples: como ninguém percebeu que aquilo era problemático? A resposta frequentemente estava na ausência de diversidade nos espaços de decisão. Quando as lideranças compartilham vivências semelhantes, torna-se mais difícil identificar vieses e questionar determinadas escolhas antes que elas cheguem ao público.
Por outro lado, quando as mulheres ocupam espaços de liderança, o impacto vai além da representatividade. Elas contribuem para decisões mais completas, ampliam perspectivas dentro dos times e ajudam a construir ambientes mais colaborativos e diversos. Isso se reflete diretamente na forma como os produtos são pensados, desenvolvidos e entregues. Na Mais1Code, por exemplo, a equipe de coordenação do projeto é majoritariamente feminina (60%), demonstrando como a diversidade também pode estar presente na construção das organizações que formam os profissionais do futuro.
Ainda assim, o desafio não é simples. Ele passa por acesso à educação, por oportunidades reais de crescimento e por ambientes que sustentem o desenvolvimento desses profissionais ao longo da carreira. A educação, aliás, tem se mostrado uma importante porta de entrada para muitas mulheres. Em nosso projeto, cerca de 60% dos alunos são mulheres, um reflexo de uma realidade observada em muitas comunidades periféricas, onde elas frequentemente buscam a educação como ferramenta de transformação social, profissional e econômica.
Por isso, na Mais1Code, acreditamos que a importância de formar talentos para a tecnologia vai além do ensino técnico, preparando pessoas diversas para ocuparem espaços de decisão, participarem ativamente da construção do setor e entenderem que diversidade é parte da estrutura que sustenta a inovação.
*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.
