O que as ONGs podem fazer diante do crime organizado?

Políticas Públicas
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Imagem: Divulgação

 

Por Thiago Crucitti

 

Eu nunca conheci um menino que nasceu sonhando em ser avião do tráfico.

Mas conheci vários que viram no crime a única chance de mudar de vida.
Não porque escolheram o mal, mas porque ninguém chegou antes com o bem.

O crime organizado não é só uma rede de violência.
É uma pedagogia. Um jeito de ensinar o mundo.
Com símbolos, códigos, recompensa e pertencimento.

E se a gente quiser proteger nossas crianças, não vai bastar entregar serviço.
Vai ter que disputar imaginação.

Quando um menino da favela diz que quer ser “alguém na vida”, ele está dizendo uma verdade.
Ele quer ser visto. Quer ter valor. Quer respeitar e ser respeitado.
Se o crime é quem oferece isso primeiro, ainda que de forma distorcida, então é com ele que estamos competindo.

E, sim, estamos atrasados.

A escola virou campo neutro.
A igreja perdeu linguagem.
A ONG virou PowerPoint.

Enquanto isso, a boca de fumo virou referência de status, de consumo e até de proteção.

O que fazer?

Primeiro, chegar antes. O crime recruta cedo. A proteção tem que ser mais cedo ainda. Com quem? Com as mães, com as igrejas, com o futebol de várzea, com o grupo de dança. O menino de 13 anos já escolheu um lado. E, às vezes, não foi o nosso.

Segundo, andar junto. O crime é contínuo. O edital, não. Não dá pra cuidar de gente com projeto de 12 meses. ONG que quer mudar destino precisa ser aliança, não fornecedor.

Terceiro, falar a língua. Quem não comunica, não protege. É preciso traduzir o cuidado para o vocabulário de quem vive no corre. Porque se o tráfico fala com rima, com presença e com estética, a gente não pode continuar falando só com relatório.

Quarto, construir política pública de baixo pra cima. A ONG de hoje pode ser o desenho da política pública de amanhã. Se tiver evidência, comunidade, resultado e coragem. E se tiver a humildade de ser plataforma, não estrela.

O crime é organizado.
Mas a esperança também pode ser.

Não com armas, mas com alianças.
Não com medo, mas com pertencimento.
Não com promessa, mas com presença.

A ONG que quiser vencer essa disputa não precisa de mais discurso.
Precisa de uma teologia do cuidado, uma ciência da proteção e uma estratégia da vida.

Porque no fim das contas, é isso:
Ou a gente cuida.
Ou alguém recruta.

 

*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.

 

 

Thiago Crucciti

Thiago Crucciti é Diretor Nacional da Visão Mundial Brasil e fundador da startup social Máquina do Bem. Atua desde 2010 na amplificação da transformação social por meio de projetos inovadores e comunitários.