MariaLab lança guia para orientar atendimento a casos virtuais de violência de gênero
Direitos HumanosA MariaLab acolhe vítimas de ‘violência de gênero facilitada por tecnologias’; nesta quinta (13), a organização lançou pesquisa e guia para aperfeiçoar este atendimento e auxiliar outras organizações a também oferecerem um suporte mais completo às vítimas

Por Lucas Neves
Nesta quinta-feira (13), a MariaLab — organização feminista que oferece suporte em segurança digital, sobretudo para vítimas de violência de gênero facilitada por tecnologias — lançou a pesquisa “Forense Digital Feminista: um estudo e uma proposta de desenvolvimento”.
Problemas como vigilância online, clonagem de contas em redes sociais, vazamento de imagens íntimas e invasão de e-mails são alguns dos motivos que levam ativistas, mulheres e pessoas da comunidade LGBTQIAPN+ a procurar a MariaLab, afirma a organização.
O material surgiu após uma série de entrevistas e imersões práticas da MariaLab com 11 organizações internacionais, incluindo especialistas de referência em análise forense e linhas de ajuda.
Essa troca de experiência visava tanto aperfeiçoar o atendimento da sua linha de apoio, a iniciativa Maria D’ajuda, quanto auxiliar outras organizações a também oferecerem um suporte mais completo às vítimas.
“Nossa experiência de trabalho na Maria d’Ajuda e a interação com outras linhas de ajuda feministas nos levaram a identificar um problema comum: a limitação de recursos — humanos, financeiros e de conhecimento técnico” comenta Daniela Araújo, coordenadora de pesquisa da MariaLab.
Segundo ela, esse entendimento foi o ponto de partida da pesquisa. “Faltavam capacidades para avançar na investigação de casos e responder perguntas mais complexas”. Daniela também diz que a MariaLab já vinha se especializando no tema da análise forense e identificou a necessidade de desenvolver esse conhecimento não apenas internamente, mas com todo o campo de atuação.
O relatório “Forense Digital Feminista” propõe a integração de técnicas da chamada forense digital consentida, com escuta ativa, empatia e apoio personalizado.
Conforme a MariaLab, diferentemente da perícia forense tradicional, utilizada por peritos em processos criminais ou corporativos, a forense digital consentida é aplicada pela sociedade civil para proteger ativistas, jornalistas e grupos vulneráveis que são rotineiramente submetidos a vigilância ilegal.
“Esse atendimento vai além da resolução de problemas técnicos. Ao reconhecer a complexidade das experiências de violência, a forense consentida cria espaços seguros para que as pessoas afetadas expressem medos, inseguranças e dúvidas”, explica Carl Jancz, especialista forense.
Ainda, a especialista conta que o atendimento de casos de violência de gênero necessita de um conhecimento multidisciplinar. Afinal, um único caso pode exigir conhecimentos de segurança digital, física, psicossocial, jurídica, entre outros.
“A análise forense digital aprimora o atendimento porque ajuda a determinar o que realmente aconteceu e como aconteceu. Mas apostamos firmemente que esse tipo de atendimento só pode existir dentro de um ciclo de suporte feminista, que reconhece a complexidade das experiências de violência e oferece espaços seguros para que pessoas afetadas possam expressar seus medos e dúvidas, indo além da resolução de problemas técnicos. Isso torna a experiência de quem busca ajuda mais acolhedora e menos traumática”, afirma Carl Jancz.
Os resultados da pesquisa foram traduzidos de forma prática no Guia Forense Feminista, que propõe um passo a passo para o atendimento, integrando etapas e técnicas antes restritas a especialistas em análise forense, além de dois tutoriais didáticos, que ensinam o uso de ferramentas para a extração de dados.
A partir desses materiais, a MariaLab espera oferecer um suporte para o desenvolvimento deste tipo de trabalho, além de estimular que novas pesquisas e orientações sejam criadas, e que as ideias se disseminem. “Acreditamos que a partilha de conhecimentos e a inspiração de novos movimentos é a principal vocação da MariaLab”, salienta Daniela Araújo.
“Por outro lado, queremos chamar a atenção para o debate público sobre as violências digitais, conscientizando os movimentos feministas e outros movimentos sociais para a importância de tomarmos ações de cuidado digital”, conclui.
