Panorama das ONGs destaca resiliência do terceiro setor em cenários adversos

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Em entrevista ao Observatório, Luisa Lima, do IDIS, afirmou que o ‘Panorama das ONGs: capítulo Brasil’ apresenta um mapa para a resiliência do terceiro setor, o qual pode ser usado por organizações sociais para analisar suas próprias estruturas

Imagem: Freepik

*Por Lucas Neves

O Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS) divulgou o relatório Panorama das ONGs: capítulo Brasil, no mês de janeiro. Lançado em parceria com a Charities Aid Foundation (CAF), o estudo oferece uma leitura sobre o cenário das organizações da sociedade civil (OSCs) no país, a partir da perspectiva de 170 lideranças respondentes.

Em nota à imprensa, o IDIS destacou que o relatório, integrante do World Giving Report, apresentou os desafios relevantes para o setor. Sobretudo, na sustentabilidade financeira e na atração e retenção de profissionais, além da mensuração e comunicação de impacto. 

O estudo apresenta um mapa para a resiliência de ONGs, uma ferramenta, em si, que pode ter um uso direto para que qualquer organização faça uma análise sobre sua estrutura. 

Em contrapartida, a pesquisa evidenciou sinais claros de resiliência e otimismo, com lideranças expressando alta confiança na capacidade de atender à crescente demanda por serviços de organizações sociais.

O propósito do relatório era compreender os desafios e, principalmente, revelar a resiliência do terceiro setor brasileiro. Nesse sentido, o estudo do IDIS ocorreu por meio de pesquisas quantitativas e entrevistas. A partir desse trabalho, foram identificados 6 fatores determinantes para a resiliência das OSCs: 

  • 1 – propósito; 
  • 2 – saúde financeira e operacional; 
  • 3 – evidências de impacto; 
  • 4 – pessoas e cultura; 
  • 5 – parcerias; 
  • 6 – contexto.

“O estudo apresenta um mapa para a resiliência de ONGs, uma ferramenta, em si, que pode ter um uso direto para que qualquer organização faça uma análise sobre sua estrutura”. — Luisa Lima

Em entrevista ao Observatório do Terceiro Setor, Luisa Lima, Gerente de Comunicação do IDIS, contou que a escolha do termo “resiliência” como um eixo principal do estudo está ligada à necessidade das ONGs se fortalecerem diante dos desafios crescentes da sociedade atual.

Entendemos resiliência como a capacidade de uma organização se adaptar, recuperar e se reinventar rapidamente diante de crises, mudanças repentinas ou pressões ambientais e políticas. Envolve resistir a choques, garantindo a continuidade das operações e a preservação de valores fundamentais enquanto se ajusta a novos cenários”, comentou.

Luisa também afirmou que, devido ao contexto recente de crises econômicas, aumento das desigualdades, agravamento de conflitos e intensificação de eventos climáticos extremos, existe um crescimento significativo na demanda de atuação das ONGs. “Dessa forma, a pesquisa apresenta seis dimensões que, se trabalhadas com atenção, contribuem para que as organizações da sociedade civil sejam mais resilientes.”

O aumento da demanda por serviços de ONGs

A tendência do aumento na procura por serviços de ONGs ficou evidente nos números divulgados pelo relatório. Mais da metade (72%) dos líderes de organizações ouvidas afirmaram que tiveram um aumento grande (36%) ou pequeno (36%) nas suas demandas nos últimos 12 meses. 

Os percentuais são ainda maiores quando se trata da expectativa para os próximos meses. Nesse recorte, 80% dos respondentes acreditam que as demandas por serviços da sua instituição irão aumentar muito (39%) ou, pelo menos, um pouco (41%).

Apesar do crescimento da pressão sobre as ONGs, as lideranças demonstraram confiança em conseguir responder a essas necessidades. Entre as organizações que esperam aumento de demanda, 44% se declaram “muito confiantes” de que conseguirão atendê-la — patamar acima da média global, também citada no relatório.

O otimismo cresce quando se trata da expectativa para o futuro do setor. Nesse aspecto, somente 7% das lideranças disseram estar pessimistas ou muito pessimistas, enquanto 66% delas declararam algum grau de otimismo. Além disso, 27% dos respondentes se mostraram neutros.

Sustentabilidade financeira como principal desafio

A sustentabilidade financeira é a principal dificuldade relatada por organizações no Brasil e no mundo. 66% das ONGs brasileiras selecionaram essa como uma das questões mais urgentes. 

“É interessante ver como este é um desafio global. É evidente que há formas de as ONGs se prepararem melhor, mas é importante reconhecer este fato como um cenário que, para ser mudado, depende também de novas atitudes de financiadores”, comentou Luisa.

No Brasil, o relatório destacou haver uma ênfase na diversidade de fontes de receita, com média de 3,9 fontes de financiamento por organização, superando a média global de 3,8. Doadores individuais aparecem como fonte central, reforçando a relevância de fortalecer a cultura de doação no país. 

Nesse sentido, Luisa lembrou que a diversidade de fontes de receita é uma das principais variáveis que determinam a saúde financeira de uma organização.Não depender apenas de poucas fontes facilita enfrentar desafios quando há uma mudança repentina na estratégia de um dos financiadores.”

No entanto, a Gerente de Comunicação do IDIS alertou também que, apesar dessa diversificação, o capítulo brasileiro do relatório apontou riscos associados à dependência de recursos destinados a projetos específicos e à necessidade de ampliar o acesso a recursos livres, entendidos como essenciais para desenvolvimento institucional, adaptabilidade e continuidade.

Quer conferir todos os dados do Panorama das OSCs: capítulo Brasil? Acesse o site do IDIS e baixe o material.

O Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social

O IDIS é uma organização da sociedade civil independente, fundada em 1999 e pioneira em suporte técnico a investidores sociais no Brasil. Com a missão de inspirar, apoiar e promover a filantropia estratégica e seu impacto, o IDIS atende indivíduos, famílias, empresas, institutos e fundações familiares, bem como organizações da sociedade civil, em ações que transformam realidades e contribuem para a redução da desigualdade social no país.