Projeto leva cinema gratuito para crianças na periferia de Guarulhos

Impacto das ONGs
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Antes utilizada para descarte de lixo e uso de drogas, viela foi revitalizada pela ‘ONG Favela pra Frente’, que agora oferece sessões de cinema infantil gratuitas no local

Cine na Viela (Foto: Observatório do Terceiro Setor)

Por Lucas Neves

Nem mesmo o frio de 11°C impediu as crianças de se juntarem na “Viela do 15”, no bairro Cidade Tupinambá, em Guarulhos–SP. O espaço, que antes servia para acúmulo de lixo, desova de animais mortos e consumo de drogas, agora é ocupado pelos moradores da comunidade com olhares atentos a um projetor.

No dia 14 de junho, a ONG guarulhense, Favela pra Frente, realizou mais uma sessão do seu projeto de cinema gratuito e ao ar livre chamado “Cine na Viela”. Com a exibição de um filme infantil, o evento ofereceu às crianças da comunidade a experiência completa de uma sala de cinema, com projetor, sistema de som e até alimentos como pipoca, milho e canjica.

Frio não impediu as crianças de comparecer na sessão de cinema. (Foto: Observatório do Terceiro Setor)

Falta de acesso ao cinema nas comunidades

O estado de São Paulo possui mais de mil salas de cinema. Apesar do número expressivo, diversas comunidades paulistas não têm acesso a este meio de lazer, encontrando obstáculos físicos e, principalmente, financeiros ao consumir essa arte.

Este foi um dos fatores que motivaram a ONG Favela pra Frente a criar o Cine na Viela, no começo de 2023. Lucas Felipe, líder comunitário, fundador e presidente da organização, conta que passou por um momento marcante durante uma das exibições do projeto.

“A gente perguntou quais crianças já tinham ido ao cinema e pouquíssimas levantaram as mãos. Perguntamos também quem tinha TV em casa, a grande maioria levantou a mão, mas teve duas ou três que continuaram com as mãos abaixadas”, lembra Lucas. “A gente acaba nem imaginando que exista uma situação dessa próxima da gente”.

Nesse sentido, o líder comunitário salienta a importância da democratização da cultura e do lazer nas periferias. Segundo ele, o foco da ONG está nas crianças, uma vez que o acesso a peças culturais, como o cinema, é parte fundamental do processo de formação.

Um trabalho comunitário

O Cine Viela surgiu após o trabalho de revitalização na Viela do 15, realizado pelos moradores da comunidade de Tupinambá. Esse trabalho deu origem à ONG Favela pra Frente, reunindo um grupo de pessoas que cresceram no bairro e ainda moram na região.

Segundo Lucas, eles se juntaram para limpar a viela, pois não aguentavam mais “conviver com aquele tanto de lixo e o consumo desenfreado de droga, vendo um monte de amigo se perdendo”. Após a limpeza, eles promoveram um “encontrão de grafite”, para ilustrar os muros do local, “um monte de gente colocou a mão na massa mesmo”, comenta.

Viela do 15 – Guarulhos (Foto: Observatório do Terceiro Setor)

No entanto, os moradores notaram a necessidade de ocupar ainda mais o local. “Vimos que a limpeza não era o suficiente, não podia ser só um espaço de trânsito, e aí surgiu o nosso primeiro projeto de ocupação cultural que é o Cine na Viela”.

O presidente da Ong Favela pra Frente conta que o trabalho comunitário na viela acontece sem nenhum apoio dos órgãos públicos. De acordo com ele, até a retirada dos lixos nas lixeiras é realizada pela comunidade.

A cooperação se estende para o Cine na Viela. Antes do filme começar, os moradores se dividem para preparar os alimentos que serão distribuídos durante a sessão. Lucas lembra do começo do projeto, quando a estrutura era ainda mais simples e a ajuda comunitária mais necessária.

“A primeira vez que fizemos o Cine na Viela foi pegando cadeira emprestada de um, som emprestado de outro. Aí um ajudava com refrigerante e outro ajudava com a pipoca… e aconteceu. Hoje, a gente já fez mais de 30 exibições”, celebra.

Pipoca distribuída durante a sessão. (Foto: Observatório do Terceiro Setor)

Dificuldades do Cine na Viela

Apesar do crescimento do projeto, Lucas comenta as dificuldades ainda enfrentadas. Segundo ele, os principais empecilhos do Cine na Viela são estruturais. “Hoje, a gente tem parte do equipamento, como as cadeiras, por exemplo, que a gente comprou de segunda mão, então são cadeiras que já estão velhas. Enfim, não é a estrutura que a gente gostaria de oferecer para comunidade, mas é a que a gente tem no momento”.

O líder comunitário também convida todos a conhecerem o projeto e se voluntariarem. Fora a questão estrutural, o Cine na Viela aceita insumos para a sessão, como pipoca e refrigerante, além da mão de obra voluntária para auxiliar na organização do evento.

Para suporte financeiro, Lucas recomenda contato com as redes sociais da ONG Favela pra Frente (@favelaprafrente), onde é possível receber a chave PIX da organização e estar por dentro da prestação de contas do projeto.