Reprogramar as quebradas é reprogramar o futuro
Tecnologia

Por Diogo Bezerra – Fundador da Mais1Code
Uma das perguntas que mais nos fazem é: quantos jovens vocês já formaram? É uma pergunta legítima, mas incompleta. Para nós, o que realmente importa é outra coisa: quantos jovens formados estão hoje formando outros? É nessa virada de lógica que um projeto social deixa de ser pontual e passa a ser geracional.
Embora o Brasil ainda lute contra gargalos estruturais na educação, dados recentes do Indicador de Analfabetismo Funcional (Inaf) trazem uma perspectiva reveladora: em setembro passado, moradores de quebradas registraram 63% de alto desempenho, superando a média nacional de 53%. Esse cenário reforça algo que quem vive nas periferias já sabe: talento nunca foi o problema, e sim o que historicamente faltou foi acesso a recursos.
Quando criamos a Mais1Code, partimos exatamente dessa premissa: não se trata de “levar conhecimento” às quebradas, mas de desbloquear um potencial que já está ali. Reprogramar as quebradas é, antes de tudo, reprogramar a lógica de expectativa sobre quem pode ocupar o mercado de tecnologia.
Nos últimos quatro anos, mais de três mil alunos passaram pela Mais1Code. O impacto indireto já alcança cerca de dez mil pessoas, especialmente famílias que passaram a conviver com aumento de renda e novas perspectivas de mobilidade social. Educação, quando gera renda, não transforma apenas currículos: transforma núcleos familiares inteiros.
Mas a sustentabilidade social não acontece apenas pelo número de formados. Ela acontece quando o modelo pedagógico é estruturado para gerar autonomia e continuidade. Nossa atuação se organiza em quatro pilares: formação em linguagens de programação com tecnologias atualizadas, inglês voltado para o mercado tech, desenvolvimento de soft skills e, mais recentemente, formação para criação de agentes de inteligência artificial.
Essa estrutura não é aleatória. O mercado de tecnologia não exige apenas código exige comunicação, pensamento crítico, adaptabilidade e fluência em ambientes globais. Ao integrar competências técnicas e comportamentais, construímos algo maior do que empregabilidade imediata: construímos capacidade de permanência e evolução na carreira.
Hoje, com cerca de 200 estudantes ativos no Jardim Pantanal, vemos na prática o que significa construir impacto de longo prazo. Jovens que entram buscando o primeiro emprego e saem não apenas empregados, mas conscientes do papel que podem desempenhar como referência dentro de suas comunidades.
É nesse ponto que o efeito-cascata acontece. Quando um ex-aluno orienta um primo, indica um amigo para a próxima turma ou retorna como mentor, o projeto deixa de depender exclusivamente da organização. Ele passa a ser sustentado por uma rede viva de pessoas que carregam a experiência como parte de sua identidade.
Essa lógica permitiu que o método criado nas quebradas brasileiras ultrapassasse fronteiras e chegasse à Europa e à África. Não porque exportamos um curso, mas porque estruturamos um modelo replicável, adaptável e centrado em potencial humano. Um projeto geracional precisa ser, antes de tudo, metodológico, capaz de manter a essência e adaptar o contexto.
É essa robustez técnica que sustenta projetos sociais verdadeiramente duradouros: aqueles que não apenas abrem portas, mas ensinam a construí-las. Quando a metodologia serve à autonomia, o impacto deixa de ser estatística e se torna legado. Um tipo de transformação que, diferentemente de metas anuais, só pode ser medido através das gerações.
*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.
