Rumo à COP30: financiamento climático só avançará com alianças estratégicas

Políticas Públicas
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Imagem: Adobe Stock

 

Por Daniel Grynberg

No Brasil, falar sobre financiamento climático é quase sempre falar sobre potencial não realizado, porque mesmo com diagnósticos precisos e um consenso consolidado sobre a urgência de agir, a transformação dessas intenções em projetos concretos ainda avança em um ritmo muito aquém do necessário. O país reúne condições únicas: biodiversidade incomparável, matriz energética já majoritariamente limpa e capacidade reconhecida de produzir em escala. Mas o que poderia ser uma vantagem competitiva para liderar a transição global ainda esbarra em entraves políticos, burocráticos e de governança.

Nos últimos anos, houve, sim, avanços. O Panorama de Financiamento Climático para Uso da Terra no Brasil 2021–2023 mostra que a média anual de recursos destinados a ações ambientais chegou a R$ 88,1 bilhões, um aumento de 145% em relação ao período anterior. O número impressiona à primeira vista, mas parte desse crescimento vem de mudanças na forma de classificar investimentos, e não de novos aportes. Em outras palavras: melhoramos a forma de contar, mas seguimos longe do volume necessário para enfrentar desafios como a transição energética, a restauração de ecossistemas e a construção de resiliência climática nos territórios.

O setor público tem um papel central nessa equação, mas enfrenta obstáculos bem conhecidos como orçamento pressionado, excesso de burocracia e dificuldade de acelerar projetos de longo prazo. Já o setor privado possui capital e interesse crescente em investir em iniciativas ligadas a critérios ESG, mas encontra barreiras que vão desde a instabilidade regulatória até a falta de projetos estruturados com governança sólida. O resultado é um descompasso: temos capital de um lado, demanda do outro, mas pouca ponte ligando esses dois mundos.

Por isso, o desafio hoje não é apenas técnico ou financeiro, mas sobretudo de criar confiança. Um ambiente regulatório estável e mecanismos de financiamento de longo prazo podem reduzir riscos e atrair investimentos em escala. Isso inclui ampliar as parcerias público-privadas e linhas de crédito verde. Mais do que destravar capital, trata-se de garantir que cada real investido gere retorno social, ambiental e econômico mensurável.

A realização da COP30 na Amazônia coloca o Brasil no centro desse debate global, é a chance de mostrar ao mundo que podemos transformar discursos em compromissos práticos, capazes de mobilizar recursos e entregar resultados. A escolha da Amazônia como palco simboliza a dimensão da responsabilidade, mas também a oportunidade única de o país assumir liderança concreta nessa agenda.

O verdadeiro legado da conferência não estará nos discursos, mas na capacidade de fazer do país um exemplo de como mobilizar capital para gerar impacto real.

 

*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.

 

Daniel Grynberg

Daniel Grynberg é diretor executivo do Grupo +Unidos, bacharel em Administração de Empresas pelo Insper e mestrado em Gestão Pública pelo Insper.