Saímos do Mapa da Fome. Ninguém mais passa necessidade alimentar?

Direitos Humanos
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Imagem: ChatGPT

 

Por Diogo Cavazotti Aires

 

Há algumas semanas o Brasil saiu do Mapa da Fome. Isso significa que, de acordo com a média feita entre 2022 e 2024, menos de 2,5% da população vive sob subnutrição ou falta de comida no país. O anúncio foi feito pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO/ONU).

“A saída do Brasil do Mapa da Fome é resultado de decisões políticas do governo brasileiro que priorizaram a redução da pobreza, o estímulo à geração de emprego e renda, o apoio à agricultura familiar, o fortalecimento da alimentação escolar e o acesso à alimentação saudável”. É o que diz o site oficial do
Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome.

Há que se comemorar esta conquista. Sem dúvida. Mas é necessário entender que ela é um começo, e não um fim. No mesmo dia em que este anúncio foi feito, fui ao mercado e, ao chegar em casa, havia uma mulher de meia idade vasculhando o lixo do meu condomínio. Quando cheguei, ela já havia separado um bom tanto de comida. “Olha isso, as pessoas jogam comida boa no lixo! Você tem alguma coisa na sua casa pra me dar? Pode ser vencida, não tem problema. Eu consumo comida vencida até dois anos, fica boa ainda”. Todavia ela disse que precisava levar alimentos para os filhos. Sem dúvida este exemplo está entre os 2,5% que ainda estão sob insegurança alimentar. Mas será possível zerar este número de pessoas passando fome, principalmente em um país tão grande como o nosso, já que a produção de comida ultrapassa a necessidade real dos cidadãos e cidadãs?

Guiné-BissauLibériaChadeMadagascarQuêniaRepública Democrática do CongoSíriaZimbábueUganda são alguns dos países que continuam a figurar no Mapa da Fome. Então não importa o tamanho da nação, mas sim as políticas públicas aplicadas no local, conforme cita acima o site do Ministério.

A grande desigualdade presente no Brasil reflete índices sociais, como o da fome. Diminuir milhões de pessoas em subnutrição é uma vitória social muito relevante. Chega a ser vergonhoso um país de grande produção alimentar figurar na lista do Mapa da Fome. E quando falta comida, não é só o alimento que não tem, mas também a fralda, o absorvente, a passagem do ônibus, a roupa, a luz, quiçá a internet para ficar sabendo de projetos sociais que poderiam beneficiar uma família. Coisas que o dinheirinho do semáforo não consegue comprar. Aí esta luta precisa ser vencida no corpo a corpo, com os e as agentes que visitam casas e abordam pessoas vivendo nas ruas. Um trabalho de formiguinha, mas que faz bem para todo o formigueiro.

E você? Conhece uma família subnutrida? Contribui para diminuir este índice? Não estou falando em ajudar um bairro inteiro, mas uma casa, uma família, uma pessoa. Dificilmente uma cesta básica fará diferença na sua vida, mas na do subnutrido, faz muita. E pode ter certeza, esse ato fará mais bem a você do que ao outro ou outra que recebe.

 

*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.

 

Diogo Cavazotti

Doutor em Educação. Mestre em Direitos Humanos e Direito Internacional Humanitário. Jornalista. Único brasileiro bolsista da Corte Interamericana de Direitos Humanos.