Se em vez de aprender a “jogar o jogo”, a gente aprendesse a “mudar o jogo”?

Direitos Humanos
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Imagem: ChatGPT

 

Por Daiany França Saldanha

 

Durante muito tempo, acreditei que bastava esforço e coragem para vencer. Fui parte da chamada “Geração de Valor”: li os livros, participei das palestras e me deixei seduzir pelo discurso de que o sucesso dependia apenas da força de vontade individual. Mesmo atuando há anos no campo social, comprei por um tempo a ideia da meritocracia e da salvação pelo empreendedorismo. Até perceber que o jogo era viciado.

Faz tempo, mas essa lembrança voltou quando assisti ao episódio “1 Bilionário vs. 30 Trabalhadores”, do canal Foco. O formato é simples: um personagem central, geralmente alguém bem-sucedido, frente a trinta pessoas comuns. O resultado é previsível: um palco para a retórica neoliberal brilhar. Ali, o bilionário Flávio Augusto defende que “a desigualdade não é necessariamente um problema”, que o verdadeiro vilão é o Estado e que “quem traz as soluções é o empreendedor”. É um roteiro conhecido, mas ainda assim revoltante.

O que mais me incomodou, porém, não foi apenas o conteúdo das falas, mas a naturalidade com que elas são aplaudidas. O discurso meritocrático, travestido de inspiração, transforma a desigualdade em algo aceitável, quase moralmente desejável. Ele apaga o papel das estruturas e responsabiliza o indivíduo pelo próprio fracasso. E, quando uma sociedade inteira passa a acreditar que basta “jogar bem o jogo”, ela deixa de questionar as regras que o tornam injusto desde o início.

A retórica bilionária também é uma estratégia de poder. Ela se alimenta da ausência de contraponto; e é por isso, também, que precisamos de mais espaços de formação crítica no terceiro setor. Em vez de cursos genéricos sobre captação de recursos, o terceiro setor precisa investir em letramento político, argumentação e leitura de mundo. Porque não basta fazer o bem: é preciso compreender como o bem é usado, muitas vezes, para manter o status quo.

Ao longo do episódio, ficou evidente o quanto o pensamento neoliberal tenta domesticar o debate público. A filantropia é apresentada como benevolência individual, não como dever coletivo; o sucesso é tratado como ciência exata; e o Estado é reduzido a obstáculo. É a fórmula perfeita para um mundo que aceita bilionários, mas desconfia de ONGs. No fundo, trata-se de uma disputa simbólica, em que o capital controla não apenas os meios, mas também o sentido das palavras.

Por isso escrevi esse ensaio crítico: para provocar reflexão e propor uma inversão de lógica. O terceiro setor não deve se limitar a “jogar o jogo” com as regras do mercado, mas assumir seu papel histórico de força transformadora. Como escreveu Piotr Sztompka, a mudança social é sempre obra humana. Somos nós que decidimos o rumo da história. Então, fica a pergunta: e se, em vez de aprender a jogar o jogo, a gente aprendesse, de fato, a mudar o jogo?

O texto completo está em: https://mamaocomrapadura.substack.com/p/se-em-vez-de-aprender-a-jogar-o-jogo

 

*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.

 

Daiany França

Daiany França Saldanha é consultora, mentora e pesquisadora. Doutoranda e mestra em Mudança Social e Participação Política pela USP, atua há mais de 20 anos no campo social, na interseção entre terceiro setor, filantropia e fortalecimento de organizações. É diretora-executiva da Mais Impacto e reconhecida entre as principais vozes de Justiça Social e Filantropia no LinkedIn Brasil.