“Sonhar é motor de mudança social”: conheça o Movimento Futuro
Impacto das ONGsEm entrevista ao Observatório do Terceiro Setor, a cofundadora da organização Movimento Futuro destaca como a educação socioemocional pode prevenir a violência, fortalecer vínculos e transformar a vida de estudantes em todo o Brasil

Por Vitória Serrão.
A escola representa um importante espaço para o desenvolvimento de competências educacionais, sociais e emocionais. No entanto, em meio a uma rotina de avaliações, conteúdos, calendários e diferentes realidades vividas pelos alunos, principalmente por aqueles inseridos em contextos marcados pelas desigualdades, aumentam as vulnerabilidades à violência, à criminalidade e aos problemas emocionais e psicológicos.
Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), entre 10% e 20% dos adolescentes brasileiros enfrentam adoecimento psicológico, com alta incidência de ansiedade e exaustão emocional. Foi nesse contexto que, em 2015, surgiu a organização social Movimento Futuro, ao perceber que, no ambiente escolar, nem sempre sobra tempo para que o estudante olhe para si e sonhe.
Inicialmente, a iniciativa contava apenas com rodas de conversa e experiências práticas em escolas e comunidades, sempre colocando os estudantes como protagonistas da própria formação.
Para Isabelle Alchorne, cofundadora da Associação Movimento Futuro e professora de Projeto de Vida, o que consolidou a existência da organização, em 2018, foram os próprios jovens atendidos. Em uma das primeiras atividades, eles juntaram dinheiro em um potinho e o entregaram à Sofia, outra cofundadora, dizendo que aquilo precisava chegar a mais pessoas.
“A motivação inicial foi garantir o direito de sonhar, um direito que muitas vezes não é assegurado, especialmente para aqueles que vivem em contextos de vulnerabilidade. E foi justamente dos próprios participantes que veio a força para continuar”, afirma Isabelle.
Com o tempo, o Movimento Futuro percebeu, de acordo com Isabelle, que esse espaço para sonhar estava diretamente conectado a um desafio ainda maior: a violência e a exclusão que atravessam a vida escolar e comunitária.
“Hoje, nossa missão é justamente essa: romper, junto com crianças, adolescentes, jovens e professores, o ciclo da violência e da exclusão, para que o futuro seja possível para todos. Acreditamos que sonhar é motor de mudança social e que a educação socioemocional é o caminho para construir futuros mais justos e coletivos.”
A cofundadora Isabelle Alchorne destaca que é possível observar mudanças concretas tanto na vida dos estudantes quanto no clima das escolas atendidas. O projeto Caminho do Futuro, que visa o desenvolvimento de habilidades socioemocionais e incentiva os estudantes a criarem projetos de intervenção comunitária para resolver problemas reais de suas comunidades, já impactou mais de 3.800 estudantes em 12 estados brasileiros.
Os resultados são visíveis: turmas que antes conviviam com conflitos constantes passaram a construir relações de confiança, colaboração e empatia.

Isabelle também afirma que uma pesquisa realizada em 2025 apontou um aumento significativo da amabilidade, traço de personalidade diretamente associado à cooperação e à redução de comportamentos de violência e bullying. Na prática, isso se traduz em menos conflitos, vínculos mais fortes e um ambiente escolar mais seguro e acolhedor.
“Essas transformações não ficam apenas no campo socioemocional. Em um projeto-piloto realizado com uma turma de uma escola privada, identificamos a melhoria das notas de Português e Matemática, mostrando que o fortalecimento das relações e da autoestima também impacta o desempenho acadêmico”, destaca.
O projeto Somando com o Futuro, voltado para jovens em situação de vulnerabilidade social, também apresenta resultados expressivos. Isabelle ressalta que, em menos de seis meses, mais da metade dos participantes conseguiu ingressar no mercado de trabalho ou dar continuidade à formação em áreas escolhidas por eles. Além disso, foi registrado um aumento de 75% na autoestima e na capacidade de comunicação desses jovens.
A cofundadora da Associação Movimento Futuro ressalta que as habilidades socioemocionais são essenciais porque servem de base para todas as outras aprendizagens e experiências de vida. Segundo ela, quando um jovem desenvolve empatia, colaboração, autoestima e capacidade de comunicação, ele não apenas melhora a convivência escolar, mas também amplia suas perspectivas de futuro.
“Na escola, percebemos que a ausência dessas habilidades abre espaço para a violência, a exclusão e o desengajamento. Ao contrário, quando elas são fortalecidas, a escola se transforma em um ambiente seguro e significativo, capaz de gerar pertencimento e vínculos. Isso não apenas previne a violência, mas também cria condições para que os estudantes se reconheçam como sujeitos de direitos e sonhem com projetos de vida mais justos e coletivos”, destaca.
Para Isabelle, projetos de vida com significado não são apenas planos individuais, mas caminhos que dialogam com o território, a comunidade e a transformação social.
“Por isso, acreditamos que investir nessas competências é investir em futuros possíveis para todos. Elas abrem portas para oportunidades reais porque fortalecem o que há de mais humano: a capacidade de se relacionar, sonhar e construir coletivamente”, completa.
Educadores são as pontes para o futuro
Os educadores são peças-chave para que o impacto do Movimento Futuro permaneça vivo e se multiplique ao longo do tempo. Isabelle destaca que o trabalho desenvolvido com os estudantes cria experiências transformadoras, mas é na prática cotidiana dos professores que essas mudanças se consolidam e ganham continuidade.
“Quando um professor participa das nossas formações, ele passa a ter ferramentas para lidar com conflitos, promover a escuta ativa e estimular projetos de vida com significado. Isso garante que, mesmo após o encerramento das atividades do Movimento Futuro, a escola continue sendo um ambiente seguro, acolhedor e capaz de prevenir a violência e a exclusão”, ressalta.

Para a associação, os professores são multiplicadores da transformação. Ao capacitá-los, a organização garante que os aprendizados não fiquem restritos a um projeto, mas se tornem parte da cultura escolar e da vida dos estudantes. É por meio deles que o Movimento Futuro amplia seu alcance e fortalece sua sustentabilidade, criando condições para romper, de forma duradoura, o ciclo da violência e da exclusão.
Conheça a Associação Movimento Futuro
O Movimento Futuro é uma organização da sociedade civil que busca romper, junto com jovens, estudantes e professores, o ciclo da violência e da exclusão para que o futuro seja possível para todos. Desde sua fundação, em 2018, a organização já alcançou 55 escolas em 12 estados brasileiros, impactando mais de 3.800 estudantes. A aplicação do jogo Caminho do Futuro contribuiu para um aumento de 76,72% no desenvolvimento das habilidades socioemocionais dos participantes. Além disso, mais de 900 professores transformaram suas práticas pedagógicas por meio das formações promovidas pela organização.
“O Movimento Futuro nasceu do sonho de transformar a educação em um espaço de pertencimento e construção coletiva, e nossos próximos passos seguem nessa direção”, afirma Isabelle.
Entre as metas da organização estão conquistar uma sede própria para ampliar suas atividades, transformar o Caminho do Futuro em política pública para os anos finais do Ensino Fundamental, expandir a metodologia com trilhas do 6º ao 9º ano, ampliar o programa Somando com o Futuro para alcançar mais jovens em situação de vulnerabilidade, fortalecer a rede de apadrinhamento e formar cada vez mais professores para disseminar práticas de desenvolvimento socioemocional e melhoria da convivência escolar.
“Esses desafios refletem a convicção de que a transformação da educação depende de parcerias e do engajamento coletivo. O objetivo é ampliar o alcance do Movimento Futuro para que mais escolas, educadores e comunidades construam, juntos, realidades mais justas e inclusivas”, finaliza Isabelle.
Saiba mais: https://movimentofuturo.org/
