Tecnologia e saúde mental: quem está no controle do mouse?
Tecnologia

Por Diogo Bezerra – Fundador do Mais1Code
A tecnologia se tornou uma das ferramentas mais poderosas desta geração. Hoje, um jovem com acesso à internet consegue estudar programação, trabalhar remotamente e construir uma carreira global sem sair da própria comunidade. Em muitos casos, ela funciona quase como um superpoder profissional, ampliando oportunidades, conectando pessoas e acelerando trajetórias.
Mas existe uma discussão que precisa acompanhar esse avanço. Quem cuida da saúde mental de quem vive essa hiperconectividade?
O debate ganhou ainda mais força em 2026 após o Relatório Mundial da Felicidade, desenvolvido pela ONU, dedicar pela primeira vez uma análise aprofundada aos impactos das redes sociais e dos ambientes digitais no bem-estar das pessoas. Entre os principais pontos levantados pelo estudo, chama atenção o fato de que jovens que passam mais de cinco horas por dia nas redes sociais apresenta índices significativamente menores de satisfação com a vida quando comparados àqueles que fazem um uso mais moderado das plataformas. O relatório também aponta aumento nos níveis de ansiedade, pressão social e esgotamento emocional, especialmente entre adolescentes e jovens adultos que cresceram em ambientes digitais altamente conectados.
Ao mesmo tempo, o estudo mostra que o problema não está necessariamente na tecnologia em si, mas na forma como ela é consumida. Plataformas voltadas para aprendizado e comunicação tendem a gerar impactos mais positivos, enquanto ambientes baseados em comparação constante, consumo passivo de conteúdo e validação social apresentam efeitos mais negativos sobre o bem-estar emocional dos jovens.
Ou seja, a mesma tecnologia que abre portas também pode gerar sobrecarga emocional quando não existe equilíbrio no uso. Ansiedade, pressão por produtividade e comparação constante passaram a fazer parte da rotina de muitos jovens que cresceram em ambientes digitais. Como qualquer sistema complexo, sem manutenção, começam a aparecer falhas. E talvez esse seja um dos maiores desafios da nova geração de profissionais do setor: aprender a dominar o código sem se tornar refém dele.
No universo da programação, ninguém espera que um sistema funcione sem atualização, monitoramento ou correção de bugs. Com as pessoas, deveria funcionar da mesma forma. Cuidar da saúde mental não é sinal de fraqueza, e sim uma estratégia de sustentabilidade profissional para quem deseja construir uma carreira relevante no mercado tech.
O impacto da tecnologia depende muito menos da ferramenta e muito mais de quem está no controle do mouse. Quando o jovem entende como funcionam os algoritmos e os ambientes digitais, ele deixa de ser apenas um usuário passivo e passa a fazer escolhas mais conscientes sobre seu comportamento online. Isso muda completamente sua relação com a tecnologia e também influencia o tipo de profissional que ele se torna.
No Mais1Code, acreditamos que formar jovens para o mercado tech vai além do ensino técnico. Programação é importante, mas desenvolvimento humano também precisa fazer parte da formação. Mais do que pessoas capazes de executar tarefas, o mercado procura profissionais preparados para lidar com pressão, trabalhar em equipe e construir soluções de forma saudável e sustentável.
*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.
