Tendências da filantropia na saúde para 2026: caminhos para as organizações da sociedade civil no Brasil

Impacto das ONGs
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Imagem: ChatGPT

 

Por Fernanda Vieira

 

As organizações da sociedade civil têm sido cada vez mais cobradas por eficiência, transparência e impacto social mensurável. Como estamos nos aproximando de 2026, trago uma reflexão sobre algumas tendências que se consolidam e ajudam a desenhar os caminhos possíveis para o fortalecimento do terceiro setor, especialmente na área da saúde no Brasil.

Uma delas é a filantropia mais estratégica e orientada por dados.

Doadores individuais, empresas e institutos têm buscado compreender melhor onde e como seus recursos geram maior impacto. Cresce a expectativa de que organizações apresentem resultados claros e evidências do benefício social gerado. No Brasil, esse movimento se reflete numa maior valorização de indicadores de impacto, relatórios de atividades e avaliações contínuas de projetos, especialmente na área da saúde, onde os desafios são complexos e multifatoriais.

Outra tendência relevante é o fortalecimento das parcerias intersetoriais.

A filantropia deixa de atuar de forma isolada e passa a se integrar de maneira mais consistente com o poder público, a iniciativa privada, universidades e centros de pesquisa.
Pesquisas indicam que ambientes colaborativos ampliam a sustentabilidade das ações filantrópicas e reduzem a sobreposição de esforços. Para as organizações da sociedade civil em saúde, isso significa construir agendas comuns, compartilhar conhecimento e atuar em rede para enfrentar problemas estruturais como o acesso ao tratamento, a adesão terapêutica e o cuidado integral ao paciente.

A centralidade das pessoas atendidas também se consolida como eixo estruturante da filantropia contemporânea.

Projetos desenhados a partir da escuta ativa de pacientes, familiares e cuidadores tendem a ser mais eficazes e socialmente legitimados. No relatório “Assistência médica centrada na pessoa”, a Organização Mundial da Saúde aponta que abordagens mais humanas e participativas fortalecem os resultados clínicos e os impactos sociais dos sistemas de saúde. Para as organizações da sociedade civil, isso implica revisar práticas, incluir beneficiários nos processos decisórios e reconhecer saberes e experiências como parte fundamental das soluções.

A digitalização é outra tendência que ganha força rumo a 2026.

Ferramentas digitais têm sido incorporadas tanto na captação de recursos quanto na gestão de projetos e na comunicação com a sociedade. Organizações que investem em tecnologia conseguem ampliar alcance, reduzir custos operacionais e fortalecer vínculos com doadores e apoiadores. No campo da saúde, a tecnologia também tem permitido novas formas de apoio remoto, educação em saúde e acompanhamento social de pacientes.

Por fim, observa-se um crescimento da filantropia baseada em confiança e relações de longo prazo.

Cada vez mais, financiadores compreendem que impacto social consistente não se constrói em ciclos curtos ou exclusivamente por projetos pontuais. Relações mais horizontais, com menos burocracia e maior diálogo fortalecem as organizações e aumentam a efetividade das ações. Para o Terceiro Setor em saúde, essa abordagem representa a possibilidade de planejar com mais estabilidade e investir no desenvolvimento institucional.

Na prática, essas tendências já se refletem no cotidiano de diversas organizações brasileiras que atuam na área da saúde, inclusive no INCAvoluntário, área de ações sociais do Instituto Nacional de Câncer. Ao longo dos anos, a experiência mostra que iniciativas baseadas em parcerias, escuta ativa, transparência e foco no cuidado integral conseguem gerar impacto social duradouro, mesmo em contextos desafiadores.

Mais do que modismos, as tendências para 2026 apontam para uma filantropia mais madura, colaborativa e comprometida com a transformação real da vida das pessoas.Para se fortalecer, ela precisa da capacidade das organizações da sociedade civil de aprender, se adaptar e trabalhar coletivamente. Num país marcado por profundas desigualdades, o papel do Terceiro Setor segue sendo essencial para complementar políticas públicas, inovar em práticas de cuidado e garantir que ninguém seja deixado para trás.

 

*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.

 

Fernanda Vieira

Gerente-geral do INCAvoluntário, área de ações sociais do Instituto Nacional do Câncer. Jornalista por formação, é especialista em Gestão (Fundação Dom Cabral), e tem MBA em Comunicação e Marketing. É membro da Rede Conexão Captadoras da ABCR (Associação Brasileira de Captadores de Recursos) e do Instituto Filantropia.