Trabalho digno é política essencial para construir autonomia e justiça social

Direitos Humanos
Compartilhar
Imagem: Adobe Stock

 

Por Vitor Hugo Neia

 

A divulgação dos dados mais recentes da PNAD Contínua, referentes ao segundo trimestre de 2025, trouxe à tona um dado emblemático: a taxa de desemprego no Brasil caiu para 6,6%, o menor nível desde o início da série histórica, em 2012. São mais de 103 milhões de brasileiros ocupados, com o número de trabalhadores com carteira assinada superando os 39 milhões. A informalidade, por sua vez, recuou para 37,9%, e a renda real habitual atingiu a marca de quase R$ 350 bilhões. Esses indicadores revelam que o país vive um momento promissor em termos de ocupação.

Mais do que isso, esses dados apontam para algo ainda mais relevante. Quando o acesso ao trabalho digno se amplia, ele se torna um catalisador poderoso da mobilidade social e da reconstrução da autonomia, especialmente entre populações em situação de vulnerabilidade.

Em um país que historicamente convive com elevadas taxas de desigualdade e baixa mobilidade intergeracional, garantir que o trabalho funcione também como instrumento de transformação é um desafio coletivo. Ainda hoje, a realidade da maioria das famílias das classes C, D e E é marcada por insegurança econômica, acesso limitado a direitos básicos e permanência prolongada em contextos de pobreza. Para muitos, a ascensão social ainda é uma promessa distante, algo que depende menos do esforço individual e mais das condições estruturais em que se nasce e cresce. Nesse cenário, a inclusão produtiva, entendida como o acesso sustentável e qualificado a oportunidades de trabalho e geração de renda, emerge como uma das estratégias mais eficazes para promover o desenvolvimento com justiça social.

Não se trata apenas de criar vagas, mas de garantir que essas vagas representem trajetórias de crescimento real. Isso requer políticas e ações que integrem formação técnica e profissional, apoio psicossocial, estímulo ao empreendedorismo, acesso a crédito e a mercados, além de estratégias para permanência e progressão no mundo do trabalho. Quando conseguimos conjugar esses fatores, criamos o que, na  Fundação Grupo Volkswagen, chamamos de jornada completa para a inclusão produtiva. Uma jornada que não se encerra na capacitação ou no primeiro emprego, mas que acompanha indivíduos e comunidades na construção de percursos autônomos, sustentáveis e transformadores.

A Fundação tem concentrado esforços no fortalecimento de iniciativas com esse olhar sistêmico. Projetos como o Projeto Tração, por exemplo, demonstram o potencial de impacto quando organizações sociais de base comunitária recebem suporte técnico, formativo e financeiro para atuarem de forma mais estruturada e autônoma em seus territórios. Mais do que investir em ações pontuais, buscamos fomentar ecossistemas locais de desenvolvimento, valorizando os saberes e vocações das comunidades e incentivando soluções construídas a partir de sua própria realidade. É dessa forma que o trabalho deixa de ser apenas uma via de subsistência e se torna uma alavanca de prosperidade coletiva.

Nenhum avanço, no entanto, será sustentável sem o engajamento de todos os setores. O poder público precisa garantir políticas de transição entre escola e mercado, combater a evasão escolar, apoiar o empreendedorismo periférico e ampliar o acesso a direitos trabalhistas e previdenciários. Já as empresas devem ir além das práticas de responsabilidade social e assumir seu papel na criação de oportunidades reais de empregabilidade e inclusão produtiva. E o investimento social privado precisa seguir se consolidando como uma força estratégica de transformação, com foco no longo prazo, no fortalecimento de capacidades locais e na superação de barreiras estruturais.

O atual cenário, sinalizado pelos dados da PNAD, é um convite à ação. É preciso aproveitar esse momento não apenas para celebrar os avanços, mas também para aprofundar o debate sobre as condições reais de trabalho e renda no país. Reduzir a informalidade, qualificar o emprego e ampliar o acesso a oportunidades são caminhos essenciais para reconstruir uma sociedade mais justa, dinâmica e coesa. E essa reconstrução começa pelo reconhecimento de que a autonomia individual e o fortalecimento comunitário caminham juntos, com o trabalho digno servindo de elo entre essas dimensões.

Que possamos, portanto, transformar os bons indicadores em compromissos duradouros. A verdadeira mobilidade social não se mede apenas em estatísticas, mas em vidas que se transformam com a possibilidade de construir seu próprio futuro com dignidade, segurança e pertencimento. É esse o horizonte que devemos perseguir, com coragem, cooperação e visão de futuro.

 

*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.

 

Vitor Hugo Neia

Vitor Hugo Neia é diretor-geral da Fundação Grupo Volkswagen e integra a organização desde 2018. Mestre em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), possui sólida experiência em planejamento, gestão e execução de iniciativas no terceiro setor, com ênfase em projetos de inclusão produtiva, desenvolvimento comunitário e redução de desigualdades sociais.