Um dia para não se esquecer

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Por Milton Flavio

Teremos que respirar fundo e prender a respiração nos próximos dias. Até respirar parece perigoso em um ambiente inflamável, com incendiários por toda a parte e usando suas armas sem qualquer motivo ou pretexto. Duas hordas prontas para tudo, menos para o dia seguinte. 

Este dia será amargo e inesquecível para o perdedor e,  para o vencedor, além das batatas, um país quase ingovernável. 

Não sei o que temo mais. Se a ferocidade dos tresloucados perdedores dispostos a contestar os resultados do pleito, a lisura das urnas e a isenção do TSE ou a euforia desmedida dos vencedores que frequentemente perdem os limites e o significado de uma vitória que nada mais mostrará do que uma diferença apertada e decorrente da enorme rejeição que ambos, vencedor e perdedor, tem da maioria da população. 

Nenhum dos dois ou ambos tem contra si a maioria do povo brasileiro que, decididamente e mais do que nunca, votará no menos pior ou naquele por quem sente menor náusea. 

Não falo isto com o prazer que têm os analistas distantes do dia a dia e das consequências que o pleito nos legará. 

Expresso o sentimento de alguém calejado pelos anos, escaldado pelas intempéries e consequências de decisões extremadas e apaixonadas e, muitas vezes, cumprindo com a obrigação como os garis que limpam a passarela depois do carnaval, numa quarta-feira de cinzas que neste 2022 cairá numa segunda. 

Meu desejo é que, apesar de tudo, prevaleça o bom senso, o respeito ao resultado, a mão estendida aos perdedores e, acima de tudo, disposição para trabalhar e corrigir o muito que está errado num país onde as desigualdades, o desrespeito à diversidade  e a injustiça social serão as maiores heranças. 

Confesso que desta vez não anularei o meu voto como tantas vezes fiz no período da ditadura de 64 e por falta de esperança no segundo turno de 2018. 

Que Deus se assuma brasileiro, como tantas vezes repetimos e, apesar dos abusos cometidos em seu nome,  nos ofereça a oportunidade de tempos melhores. 

Que não tenhamos que vagar como os judeus por 40 anos para chegarmos à terra prometida.  

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*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.

Sobre o autor: Milton Flavio é professor aposentado da Faculdade de Medicina de Botucatu-UNESP, ex-subsecretário de Energias Renováveis do Estado de São Paulo, e hoje é Assessor da Presidência da FAPESP.