Único indígena sobrevivente de massacre morre de covid, no Brasil
O indígena Karapiru viu o grupo ao qual pertencia, incluindo sua família, ser vítima de um massacre promovido por invasores não-indígenas de suas terras. O ataque matou até mesmo mulheres e crianças e fez com que Karapiru passasse 10 anos em total solidão no meio da floresta

O indígena Karapiru, do povo Awá Guajá, vivia relativamente isolado na região oeste do Maranhão quando um massacre promovido por invasores não-indígenas dizimou o grupo com o qual ele vivia e matou sua família, em 1978.
Seu pequeno grupo estava acampado na floresta e incluía mulheres amamentando e crianças. Eles estavam em redes nas árvores quando ouviram sons de tiros e começaram a correr. Homens armados saíram em perseguição a todos, atirando até nas crianças e colocando fogo nos pertencentes que os Awás deixaram para trás. Em meio ao caos, Karapiru conseguiu carregar uma criança consigo.
Ele sobreviveu, mas a criança acabou morrendo de diarreia pouco tempo depois. Sem encontrar outros sobreviventes e com medo dos invasores, Karapiru não pôde ficar na sua terra. Fugindo, perambulou totalmente sozinho por regiões desconhecidas por dez anos, caçando com seu arco e flecha, dormindo no alto de árvores e sem falar com nenhum outro ser humano.
O sobrevivente andou tanto que acabou indo parar na Bahia, onde foi resgatado pela Fundação Nacional do Índio (Funai) na década seguinte. Levado de volta ao território do seu povo, ele viveu com os Awá Guajá por cerca de 30 anos até morrer de covid-19, sozinho no hospital, em 16 de julho de 2021.
Ao saber da trágica morte de Karapiru, a antropóloga Aparecida Vilaça, professora do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), correu atrás de diversas pessoas que fizeram parte da história do indígena para recuperar e recontar sua história.
“Fiquei comovida porque ele não é único. As pessoas não têm ideia, mas essas histórias são muito comuns, vários outros indígenas passam por processos parecidos: invasões, massacres, fugas, morte por covid. Pode variar o trajeto, eles podem não ser conhecidos, como o Karapiru ficou ao ser resgatado, mas a tragédia é a mesma”, disse Vilaça.
O povo de Karapiru, os Awá Guajá, está entre os povos mais ameaçados do mundo – hoje é composto por apenas 420 pessoas.
A história de Karapiru é peculiar, explica Vilaça, porque de alguma forma ele conseguiu sobreviver a dez anos de total solidão, longe de casa, em uma terra desconhecida. Mas depois de tudo – do massacre, da perda da família, da solidão – ele nunca conseguiu se recuperar totalmente.
A covid-19 já matou mais de 600 mil pessoas no Brasil, e os indígenas foram um dos grupos mais afetados. Sendo amparados pelo governo somente depois da interferência do Supremo Tribunal Federal (STF), através de liminar que exigiu que os povos indígenas fossem amparados. O STF determinou, em julho do ano passado, providências do governo federal, como um plano de ação para o combate à doença.
Na época, o Ministro Luís Roberto Barroso deu uma “bronca” nas autoridades: “Impressiona que, após quase dez meses de pandemia, não tenha a União logrado o mínimo: oferecer um plano com seus elementos essenciais, situação que segue expondo a risco a vida e a saúde dos povos indígenas e que mantém em aberto o cumprimento da cautelar deferida por esse juízo”.
Fonte: BBC Brasil
