Violência sexual é usada como estratégia na guerra no Sudão
Direitos HumanosRelatórios revelam estupros sistemáticos contra mulheres em Darfur; prática se repete em conflitos ao redor do mundo e dialoga com a realidade da violência de gênero no Brasil

Por Vitória Serrão.
A violência de gênero tem sido usada como arma de guerra no Sudão. Mulheres e meninas em Darfur compartilham medo e relatos de terror vividos no cotidiano do conflito.
O relatório “Há algo que eu quero te contar”: sobrevivendo à crise de violência sexual em Darfur, realizado pelo Médicos Sem Fronteiras (MSF) reúne os relatos mais abrangentes já documentados sobre violência sexual na guerra do país, com depoimentos de sobreviventes e dados das atividades médicas da instituição.
O Sudão, localizado no norte do continente africano, vive um conflito com raízes históricas profundas, em razão de disputas étnicas entre árabes e não árabes, principalmente em Darfur. A guerra teve início em abril de 2023 e opõe as forças armadas sudanesas (SAF), comandadas por Abdel Fattah al-Burhan, às Forças de Apoio Rápido (RSF), lideradas por Mohamed Hamdan Dagalo.
A violência sexual está sendo usada como estratégia de guerra e como instrumento sistemático de controle da população civil no país, violando um direito humanitário internacional. Sobreviventes dos ataques relatam que a violência não acontecem apenas durante os confrontos, mas também em situações cotidianas. Homens armados foram responsáveis por mais de 95% dos ataques em Darfur do Norte, enquanto quase 60% dos casos no Sul envolveram múltiplos agressores.
Testemunhos e dados médicos da MSF mostram que soldados das Forças de Apoio Rápido (RSF – sigla em inglês) e milícias aliadas aliadas estão envolvidos em atos generalizados e sistemáticos de violência sexual contra mulheres.
Entre janeiro de 2024 e novembro de 2025, pelo menos 3.396 sobreviventes de violência sexual buscaram tratamento em unidades de saúde apoiadas pela MSF em Darfur do Norte e do Sul. A organização alerta que este número representa apenas uma fração dos casos, uma vez que muitos sobreviventes não conseguem chegar aos serviços de saúde com segurança. Mulheres e meninas correspondem a 97% das sobreviventes atendidas.
O aumento da violência sexual em conflitos
O relatório do Secretário-Geral da ONU sobre Mulheres, Paz e Segurança, divulgado em 2025, aponta que 676 milhões de mulheres vivem a até 50 quilômetros de um conflito letal, o maior número registrado desde 1990.
Os riscos enfrentados por mulheres e crianças cresceram expressivamente, sendo as principais vítimas das guerras, algo que quadruplicou em comparação com o biênio anterior, além disso, a violência sexual relacionada a conflitos aumentou 87% em apenas dois anos.
Em contexto de vulnerabilidade e invisibilidade, mulheres em zonas de guerra continuam a viver cenários de extrema violência. O relatório também expõe um desequilíbrio alarmante: enquanto os gastos militares ultrapassaram US$ 2,7 trilhões em 2024, organizações de mulheres em áreas de conflito receberam apenas 0,4% da assistência necessária.
A violência como uma batalha cotidiana
No Brasil, embora não haja um conflito armado, a violência contra as mulheres está longe de ser uma realidade distante. Em 2025, o país registrou o maior número de feminicídios dos últimos dez anos, com 1.568 mulheres assassinadas por razões de gênero, um aumento de 4,7% em relação a 2024.
Os dados, divulgados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mostram também um aumento no percentual de feminicídios entre os homicídios dolosos de mulheres, que passou de 9,4% em 2015 para 40,3% em 2024, indicando maior reconhecimento do crime pelas autoridades.
No levantamento realizado pela Rede Observatório de Segurança em nove estados brasileiros (AM, BA, CE, MA, PA, PeE, PIí, RJ e SP), também é possível observar um avanço da violência sexual. Em 2025, foram registrados 961 casos de estupro ou outras formas de violência sexual, um aumento de 56,6% em relação ao ano anterior. A maioria das vítimas era composta por meninas de até 17 anos, que representaram 56,5% dos casos, classificados como estupro de vulnerável.
