Thaissa Alvarenga: transformando a maternidade em impacto social
Direitos HumanosO nascimento do seu primeiro filho, Francisco, serviu como combustível para que Thaissa Alvarenga lutasse pelo bem-estar e direitos das pessoas com deficiência; “essas pessoas têm o direito de se desenvolver para estarem na rua, tendo os seus sonhos realizados, como qualquer ser humano”, comenta a fundadora do Instituto Nosso Olhar

Por Lucas Neves
A jornada de Thaissa Alvarenga no terceiro setor se conecta diretamente com sua história de vida e, principalmente, com a maternidade. Sua vida se transformou ao dar à luz ao seu filho mais velho, Francisco, uma criança com síndrome de Down. A partir de sua experiência como mãe atípica, Thaissa fundou o Instituto Nosso Olhar.
Sejam bem-vindos ao projeto Eu Sou 3° Setor, criado para dar voz a lideranças simbólicas da sociedade civil e evidenciar o poder de transformação das organizações sociais. Eu sou Lucas Neves, jornalista do Observatório do Terceiro Setor, e neste episódio conheceremos a história de Thaissa Alvarenga.
Vida transformada pela maternidade
Antes publicitária, com especialização em marketing, Thaissa conta que sua caminhada no terceiro setor começou há cerca de 9 anos, quando já estava grávida da sua segunda filha.
Tudo aconteceu durante uma conversa com o filantropo Elie Horn, fundador da Cyrela, do Movimento Bem Maior e do Instituto Liberta. “Ele me falou que nós não estamos aqui só de passagem e que eu teria um propósito com a minha família”, comenta Thaissa.
Após essa conversa emblemática, ela passou a alimentar um blog para contar o dia a dia do Francisco. Segundo Thaissa, a ideia era mostrar sua rotina para outras famílias que possuem filhos com deficiências, apresentando uma série de instrumentos de suporte. “O blog cresceu e, em 2018, resolvi abrir o Instituto Nosso Olhar, na época ONG, com o tema de mobilizar e educar para a real inclusão”, comenta.

Ela conta que, atualmente, o Nosso Olhar atende cerca de 300 famílias. As principais frentes de atuação do instituto estão voltadas à educação para inclusão e inserção de pessoas com deficiência no mercado de trabalho, realizando projetos nas áreas de saúde, educação, cultura, esporte e emprego apoiado.
Com mais de 5 anos em atividade, o Nosso Olhar está com um plano de expansão. A partir da ajuda de filantropos, a organização comprou um terreno para construir sua nova sede no Morumbi, mesma região onde está sediada atualmente.
Thaissa salienta que o plano é construir um prédio de 1.000 m². “Vamos criar um local que, além dos atendimentos tradicionais, tenha educação, cursos e vivências”.
A profissionalização do terceiro setor
Hoje, Thaissa se dedica completamente ao Instituto Nosso Olhar e a causa da inclusão e acolhimento das pessoas com deficiência. “Saí do mundo corporativo. Além de fundadora, eu sou vice-presidente. Eu trabalho no Instituto diariamente para poder levar os nossos programas”.
Ao ser questionada sobre os principais aprendizados que levou do mundo corporativo para a gestão de uma organização social, Thaissa ressalta a necessidade de “encarar o terceiro setor como uma empresa”, tendo como única diferença o fato de não visar a geração de lucro.
“Me orgulho de falar que tenho 28 colaboradores em projetos, porque emprego pessoas, impactando a vida não só das famílias atendidas. O terceiro setor é profissional e não tem que ser encarado como coitadinho. A gente paga conta e entregamos à sociedade o que a gestão pública não consegue”, diz Thaissa.

A educação como um pilar fundamental
O Instituto Nosso Olhar defende a educação como uma das principais ferramentas de inclusão social para as pessoas com deficiência. Conforme Thaissa, é necessário pensar na educação de base para esse grupo, ainda mais na primeira infância.
“Se não olhamos para essa educação de base e não damos as ferramentas desde a primeira infância, que é um grande terreno onde a criança vai moldar uma série de habilidades, perdemos uma janela muito importante, principalmente para quem precisa de estímulos”, alerta.
Thaissa também destaca a necessidade de educar a população, sobretudo as famílias típicas, que não convivem com pessoas que necessitam de atenção especial. Assim, ela ressalta a importância de conscientizar a sociedade para enxergar uma pessoa com deficiência “como alguém capaz”.
“Essas pessoas têm o direito de se desenvolver para estarem na rua, tendo os seus sonhos realizados, como qualquer ser humano. A diferença são os desafios que elas têm e as ferramentas que elas precisam para o seu desenvolvimento” — Thaissa Alvarenga
O legado de Thaissa Alvarenga e do Instituto Nosso Olhar
Durante minha conversa com Thaissa, fica claro que o nome “Nosso Olhar” é a escolha perfeita para o propósito do instituto. Afinal, além de prestar suporte e atendimento às pessoas com deficiência, é evidente o esforço da organização e da sua fundadora em criar artifícios para mudar o “olhar” da sociedade perante essa população.
“Toda vez que vocês olharem para uma pessoa com deficiência, lembrem que aquela pessoa tem um nome, sobrenome, faz parte de uma família, tem um CPF, e que ela tem um direito. Ela não precisa ser olhada só como alguém com deficiência”, diz Thaissa.
Quando perguntada sobre o legado que pretende deixar ao mundo, a fundadora do Instituto Nosso Olhar destaca, primeiramente, o desenvolvimento dos seus três filhos como seres humanos melhores.
Ela também espera, a partir da nova sede do Nosso Olhar — um espaço para desenvolver pessoas — que o instituto deixe um legado significativo para o país. “Queremos nos desenvolver cada vez mais, se possível, durante muitos anos, para gerar impacto e mudança na sociedade”.
Por fim, Thaissa manda um recado para os pais e/ou responsáveis atípicos, que podem enfrentar desafios ao criar um ser humano que necessita de cuidados especiais. Ela recomenda que essas pessoas sempre busquem e lutem pelos seus direitos, acessando ajuda por meio de instituições como a Instituição Nosso Olhar.
Além disso, a fundadora da organização pede que os responsáveis confiem nas suas crianças com deficiência e entendam que elas têm o seu próprio tempo. “Acredite, porque essa pessoa tem os seus direitos e consegue se desenvolver, no seu tempo e momento. Lembre que elas têm sentimentos, sonhos, emoções e devem ser respeitadas”, conclui Thaissa Alvarenga.
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