Gelson Henrique: conectando a filantropia às favelas e periferias do Brasil
Captação de RecursosEnvolvido em projetos sociais desde a infância, Gelson Henrique foi um dos idealizadores da Iniciativa PIPA, focada na democratização do investimento social privado nas periferias; “criamos a Iniciativa PIPA para endereçar à filantropia um movimento que busca qualificar o debate sobre a doação no país, a partir da intersecção de raça, classe, gênero e território”

Por Lucas Neves
Em 2019, quatro ativistas do Rio de Janeiro perceberam a dificuldade das organizações e movimentos periféricos em acessar investimento social privado, assim nasceu a Iniciativa PIPA. O carioca Gelson Henrique é uma dessas figuras que luta contra a perpetuação das desigualdades nas favelas. Hoje, ele atua como diretor-executivo da iniciativa.
Sejam bem-vindos ao projeto “Eu Sou 3° Setor”, criado para dar voz a lideranças simbólicas da sociedade civil e evidenciar o poder de transformação das organizações sociais. Eu sou Lucas Neves, jornalista do Observatório do Terceiro Setor, e neste episódio conheceremos a jornada de Gelson Henrique.
Ativismo de berço
Nascido e criado em Campo Grande, no Rio de Janeiro, bairro mais populoso do país, Gelson conviveu com a injustiça desde pequeno. “A desigualdade sempre esteve posta na minha vida e eu tive uma família com uma consciência social e racial, com a leitura desse mundo”, lembra o ativista.
Ele cita a influência familiar como fator determinante para o seu engajamento em causas sociais, afirmando que seus pais foram os responsáveis por engajá-lo e, principalmente, apresentarem os instrumentos necessários para ler o mundo por uma ótica social.
“Se não fosse esse seio familiar, com uma lente social engajada para entender a sociedade, eu não estaria aqui hoje” — Gelson Henrique
Desde a infância, Gelson viu os seus pais envolvidos na gestão de projetos na comunidade. Assim, o jovem ativista cresceu não só como um dos beneficiários dessas ações sociais, mas pode conhecer o funcionamento interno delas. “O pensar e produzir em coletividade estava dentro da minha criação”.
Jornada profissional até a Iniciativa PIPA
Gelson é cientista social e mestre em políticas públicas. Sua experiência no poder público começou enquanto estagiário, quando atuou na Secretaria de Direitos Humanos e Ciências Sociais do estado do Rio de Janeiro.
Ainda na graduação, ele criou um coletivo para jovens de periferia, estimulando-os na participação política, elaboração de políticas públicas, fiscalização e monitoramento. “Nesse processo, comecei a fazer uma circulação no campo de debate de juventude, direito da criança e adolescente”.
O ativista também fez parte do Conselho Consultivo de Adolescentes e Jovens do UNICEF e recebeu o reconhecimento da ASHOKA Brasil como um dos 10 jovens transformadores da democracia brasileira.
“Em 2021, eu assumi a gerência de projetos na Secretaria de Juventude do município do Rio de Janeiro. E aí, entre o final deste ano e início de 2022, assumi a direção executiva da Iniciativa PIPA”.

Criação da Iniciativa PIPA
Mesmo que tenha ido às ruas somente em 2022, a Iniciativa PIPA foi idealizada e fundada em 2019. Juntos de Gelson, os ativistas Raull Santiago, Marcelle Decothe e Ana Clara Telles, perceberam a necessidade de lutar pela democratização de acesso ao investimento social privado no país. Assim, a iniciativa surge para fazer os recursos filantrópicos chegarem a organizações, coletivos e movimentos de base periférica.
“Criamos a Iniciativa PIPA para endereçar à filantropia um movimento que precisa qualificar o debate de doação do país, a partir da intersecção de raça, classe, gênero e território. Então a PIPA está neste lugar hoje”, salienta Gelson.
Ele destaca que existe uma filantropia que não chega aos movimentos periféricos e comunitários, concentrando-se em grandes organizações sociais. Apesar de ter muito dinheiro sendo doado, Gelson lembra que esse valor ainda precisa crescer. “Não é sobre disputar o financiamento, mas sobre destravar mais financiamento”.
A Iniciativa PIPA defende que essa atual lógica de alocação de recursos filantrópicos privados perpetua as desigualdades estruturais do país, dificultando o potencial de impacto de grupos periféricos. Para a iniciativa, são essas organizações comunitárias que possuem o poder real de transformar seus territórios.
“Existem grandes organizações que têm muito recurso e que não produzem os impactos e resultados necessários para a nossa realidade” — Gelson Henrique
Para reverter essa lógica de desigualdade, eles atuam como ponte entre financiadores e coletivos, movimentos e organizações de base periférica, produzindo assim diagnósticos, ferramentas e ações para levar os recursos financeiros às favelas e periferias brasileiras.
Filantropia nas periferias
Mas por que o investimento social privado chega tão pouco às zonas periféricas? Gelson explica que, no Brasil, a filantropia opera em uma lógica de relacionamento e confiança, não enxergando as periferias e favelas como potenciais donatários.
“A filantropia vai construindo encastelamentos ecossistêmicos. ‘Eu dou para quem eu conheço, para quem tenho próximo, porque eu confio’”.
Ele destaca que esse método pautado pela confiança é muito presente no cenário de investimento social privado brasileiro, levando a uma filantropia excludente aos movimentos, coletivos e organizações periféricas e faveladas.
“No Brasil, a filantropia já confia, mas a minha pergunta é em quem. Ela confia nos seus pares, ela confia nas mesmas pessoas, naqueles que têm o seu mesmo CEP, a sua mesma cor e a sua mesma classe” — Gelson Henrique
Durante minha conversa com Gelson, fica clara a importância da palavra “coletividade” na filosofia do ativista. E, quando o questiono sobre sua maior lição atuando no terceiro setor, a resposta não poderia ser outra.
“O meu grande aprendizado é que o trabalho coletivo sempre será a saída e as periferias nunca se abandonam. Porque, no final do dia, só o que temos somos nós”.
