Conhecer direitos muda destinos – Juventudes, democracia e educação cidadã: por que medir as transformações sociais é essencial?
Educação
Por Anne Wilians
Dezembro costuma ser um mês de balanço. No campo democrático, ele também convida a uma leitura mais atenta do presente. Nunca houve tantos direitos formalmente garantidos e, ao mesmo tempo, tanta dificuldade para que esses direitos façam sentido na vida cotidiana de milhões de pessoas. Para grande parte da população brasileira, sobretudo as juventudes, o Estado ainda se apresenta como uma estrutura distante e pouco compreensível. O efeito desse distanciamento não é desinteresse ou apatia, mas a dificuldade concreta de transformar direitos escritos em referências práticas para decisões do dia a dia.
Pesquisas recentes mostram que a juventude brasileira valoriza a democracia, mas enfrenta dificuldade de conexão com instituições tradicionais. Em 2025, dados da pesquisa Juventudes: Um Desafio Pendente indicam que 66% dos jovens veem a democracia como a melhor forma de governo, embora mais da metade reporte baixa confiança em partidos políticos e instituições como governo e presidência. Ao mesmo tempo, jovens manifestam interesse em políticas públicas concretas, como emprego e segurança, o que sugere que há disposição por participação, mas falta mediação e experiências formativas que aproximem direitos da vida cotidiana.
Esse desencontro entre juventudes e instituições não surge por acaso. Ele se constrói ao longo de vidas marcadas por desigualdades estruturais e persistentes, pela ausência de experiências concretas de participação e pelo desconhecimento dos próprios direitos. Para muitos jovens, a cidadania permanece como uma ideia abstrata, associada a discursos formais que pouco dialogam com seus territórios, suas urgências e suas condições reais de escolha.
Ainda assim, esse cenário não é imutável. Quando jovens têm acesso a experiências concretas de educação para a cidadania, a relação com o Estado e com a vida pública se transforma. A cidadania deixa de ser apenas um conceito normativo e passa a funcionar como orientação prática para escolhas e decisões.
É nesse ponto que a educação para a cidadania assume papel central. Não como conteúdo teórico isolado, mas como processo educativo que conecta informação, compreensão e ação, ao mesmo tempo em que fortalece a confiança nas instituições e nos próprios direitos. Educar para a cidadania significa criar condições para que jovens compreendam o funcionamento do Estado, reconheçam-se como sujeitos de direitos e saibam, na prática, como acessá-los. É um processo que articula conhecimento, experiência e responsabilidade, contribuindo para a construção da cultura da legalidade.
Muitos jovens concluem a educação básica sem se sentirem preparados para lidar com desafios sociais contemporâneos. Indicadores do INEP e análises da Unesco ajudam a dimensionar essa lacuna, ao mesmo tempo em que revelam algo relevante: há disposição social para ampliar o debate sobre cidadania e democracia nos espaços educativos. O desafio, portanto, não está na falta de interesse, mas na capacidade de traduzir esses temas em experiências educativas conectadas à vida dos estudantes.
Processos educativos em cidadania, que articulam informação qualificada, experiência prática e estímulo à confiança, produzem efeitos consistentes na forma como jovens se posicionam na vida pública. Eles passam a reconhecer seus direitos, compreender limites e possibilidades das políticas públicas e enxergar o território como espaço legítimo de ação. Essas mudanças não são imediatas, mas reorganizam decisões, comportamentos e trajetórias.
Nesse movimento, o Terceiro Setor exerce um papel estratégico. Organizações da sociedade civil atuam como mediadoras entre o Estado e as juventudes, traduzindo direitos, fortalecendo vínculos comunitários e criando espaços de aprendizagem e escuta. Essa mediação é fundamental para reconstruir confiança e permitir que a cidadania deixe de ser abstrata e passe a ser vivida no cotidiano.
É a partir desse lugar que o Instituto Nelson Wilians atua. Como articulador, investidor social e desenvolvedor de tecnologias sociais e metodologias educativas, o Instituto tem a educação para a cidadania como eixo estruturante de sua atuação. Iniciativas como o Cidadaniar e o Compartilhando Direitos integram um conjunto de processos educativos que buscam aproximar direitos da vida cotidiana dos jovens, com práticas ajustadas a partir da escuta de educadores, juventudes e territórios.
Esse percurso evidencia um dos grandes desafios do campo social contemporâneo: como medir processos educativos que transformam a forma como pessoas compreendem, acessam e exercem seus direitos. No Instituto Nelson Wilians, esse desafio vem sendo enfrentado por meio do desenvolvimento e do uso de indicadores próprios de cidadania, que observam aspectos como compreensão de direitos, capacidade de orientação prática, reconhecimento de caminhos de acesso à justiça e percepção de pertencimento institucional.
Não se trata de prometer impactos imediatos, mas de acompanhar transformações com método, critérios claros e aprendizagem institucional contínua.
A cidadania não se constrói apenas por leis ou discursos. Ela se aprende, se experimenta e se fortalece quando o conhecimento sobre direitos se conecta à vida concreta. Investir em educação para a cidadania é investir na base que sustenta o Estado Democrático de Direito.
Ao encerrar este ano, deixo meu agradecimento aos leitores e leitoras do Observatório do Terceiro Setor, espaço fundamental de reflexão qualificada e diálogo responsável. Que o Natal seja um tempo de cuidado, presença e renovação. E que o novo ano venha iluminado, com saúde, bênçãos, afeto e conquistas, para que sigamos fortalecendo a cidadania como valor coletivo e prática cotidiana.
*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.
