Primeiro emprego: por que começar ainda é tão difícil para muitos jovens
Empresas do Bem

Por Daniel Grynberg
Quando um jovem termina a escola ou a faculdade e tenta entrar no mercado de trabalho, se depara com exigências que não fazem sentido para quem busca o primeiro emprego. A vaga “de entrada” pede experiência, inglês, curso, portfólio, indicação e disponibilidade total, como se a vida adulta já viesse pronta. Para quem não tem estrutura, recursos e tempo para “se preparar melhor”, sobra a sensação de estar sendo cobrado por algo que ninguém deu chance de construir.
É assim que muita gente fica parada no meio do caminho, não por falta de vontade, mas por falta de condições. Segundo o IBGE, no segundo trimestre de 2025, a taxa de desemprego chegou a 12% entre jovens de 18 a 24 anos, mais que o dobro da média nacional, de 5,8%. Esse contraste mostra que a porta de entrada segue mais estreita justamente para quem está começando e ajuda a explicar por que tantos jovens demoram mais para conseguir se inserir e estabilizar a própria trajetória profissional.
O erro mais comum é transformar esse cenário em julgamento individual. O ponto é que não é uma coisa só, são várias pequenas dificuldades que vão se acumulando. Um processo seletivo que exige “experiência prévia” para o primeiro emprego. Uma entrevista longe, sem dinheiro para transporte. Um curso que exige internet estável e computador. Uma rotina em que estudar, procurar emprego e ainda ajudar em casa vira exaustão. Nessa lógica, as urgências do dia a dia acabam empurrando o futuro profissional para depois.
O problema aparece em três pontos. Primeiro, a porta de entrada do mercado ficou seletiva demais para quem está começando. Segundo, a rede de apoio e de contatos pesa muito. Quem tem alguém para orientar e indicar entra com mais facilidade. Quem não tem, enfrenta um caminho bem mais longo. Terceiro, falta permanência. Sem apoio básico, muita gente não consegue sustentar a busca, concluir uma formação curta, comparecer a encontros ou se manter disponível para entrevistas.
É aí que a atuação do terceiro setor e o apoio da filantropia podem fazer a diferença. Não se trata só de oferecer “capacitação”, mas de sustentar trajetórias com acompanhamento, mentoria de verdade, conexão com oportunidades e apoio para permanência. Muitas vezes, o detalhe que parece pequeno é o que evita a evasão, um auxílio para transporte, uma estrutura mínima de acesso, uma rede que orienta e abre portas.
É nessa lógica que iniciativas como o Nexus ganham força. Iniciativa do Grupo +Unidos com apoio de empresas parceiras, o programa oferece formação gratuita em tecnologia, inglês e habilidades socioemocionais para jovens de 16 a 29 anos em São Paulo e região metropolitana. Mais do que oferecer conteúdo, o programa parte de uma lógica simples: para muita gente, a oportunidade só se torna viável quando vem acompanhada de orientação, acompanhamento próximo e apoio para permanência, como auxílio-transporte nos encontros presenciais. É esse tipo de iniciativa que mostra, na prática, como terceiro setor e filantropia podem ajudar a reduzir barreiras reais de entrada no mercado.
Se a gente quer que esses jovens entrem no mercado e consigam se manter, não basta uma ação pontual. Precisa ter condições para continuar, apoio para não desistir no meio e conexão real com oportunidades. A primeira chance, precisa ser mais acessível para quem está começando.
*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.
