Futebol, inglês e a barreira invisível para o futuro dos nossos jovens
Educação

Por Sarah Morais
Imagine uma votação em sala de aula para escolher o tema de um projeto coletivo: a chance do resultado ser “futebol” é altíssima. É paixão, é identidade, é patrimônio cultural. Conectar com esse tema é uma chave poderosa para a aprendizagem de nossos jovens. Ao transportarmos esse protagonismo para a vitrine global que a proximidade de mais uma Copa do Mundo nos traz, percebemos que o orgulho de ser o “país do futebol” esbarra em uma barreira invisível: a desigualdade de oportunidades para aprendizagem de inglês – a língua que hoje dita muitas das regras do jogo global.
O inglês ocupa, atualmente, o idioma oficial das trocas globais. É a arquitetura por trás dos negócios, da ciência e da inovação, servindo como a ponte necessária para um mundo interconectado. Ainda assim, no Brasil, ele funciona como uma fronteira invisível, um divisor de águas entre quem acessa oportunidades e quem fica assistindo da arquibancada. Embora o idioma pulse nas músicas, nos filmes e no cotidiano digital de milhões de jovens, o salto para um aprendizado estruturado e de qualidade ainda representa um abismo desigual.
Se fôssemos escalar um time de jovens brasileiros preparados para dialogar em inglês no cenário global, percebemos rapidamente que poucos estariam prontos para entrar em campo. Uma pesquisa realizada pela Pearson, em parceria com a Opinion Box, revelou que o Brasil apresenta o menor nível de proficiência entre os principais países da América Latina. Apenas duas em cada dez pessoas afirmam ter algum domínio do idioma. O dado não é nada animador e é ainda mais alarmante quando olhamos para o início do aprendizado: apenas 13% tiveram contato com a língua entre os 16 e 20 anos.
Em um país onde estimativas apontam que cerca de 5% da população possui proficiência real no idioma, o inglês deixou de ser uma habilidade complementar para se tornar um filtro social silencioso. É o critério que define quem pode disputar vagas, acessar bolsas de estudo ou ocupar espaços em empresas globais. Não há igualdade de competição quando o ponto de partida é tão desigual, é como começar uma partida com parte do time sem ter tido acesso ao treino.
Segundo o Censo Escolar 2024, realizado pelo Ministério da Educação (MEC) e o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), mais de 80% dos jovens do Ensino Fundamental e Médio estão na rede pública. É justamente ali que o ensino de inglês costuma ser mais fragilizado com carga horária reduzida, turmas numerosas e pouco tempo de exposição à língua, o que torna quase impossível desenvolver fluência e autonomia no idioma.
Enquanto celebramos a possibilidade de o Brasil ser vitrine internacional mais uma vez, ignoramos que milhões de jovens não terão condições de aproveitar as oportunidades que esses eventos movimentam. Hotelaria e turismo, empresas de tecnologia, agências internacionais, imprensa estrangeira, intercâmbios culturais, todos esses espaços exigem comunicação global. Em outras palavras, é difícil disputar essa partida quando a principal língua do jogo não está ao alcance de todos.
A Organização das Nações Unidas (ONU) já estabeleceu, nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que educação de qualidade (ODS 4) e redução das desigualdades (ODS 10) são bases para o desenvolvimento sustentável. Mas como falar em equidade se o acesso a uma competência básica para o mundo atual continua restrito a quem pode pagar?
É nesse contexto que a ONG Cidadão Pró-Mundo (CPM) atua e demonstra que é possível romper o ciclo da exclusão linguística ao democratizar o ensino de inglês de qualidade para estudantes da rede pública e bolsistas, oferecendo uma formação comparável à das melhores escolas particulares. A iniciativa amplia horizontes e conecta o Brasil ao mundo, permitindo que talentos brasileiros circulem com confiança em espaços globais e levem consigo a potência da nossa cultura, como faz o ator Wagner Moura, por exemplo, ao apresentar o cinema nacional a plateias internacionais com identidade e desenvoltura.
Hoje, a CPM prioriza jovens de 11 a 25 anos que cursaram o Ensino Fundamental e Médio na rede pública e bolsistas, sendo que 57% dos alunos matriculados são pretos e pardos, refletindo quem historicamente enfrenta maiores barreiras de acesso a oportunidades educacionais e profissionais.
Essa transformação que a ONG oferece é sustentada por uma rede estruturada de voluntários, educadores e lideranças que doam tempo e conhecimento com organização e profissionalismo. Até 2030, a meta é alcançar mais de 4.500 alunos matriculados e engajar mais de 2.800 voluntários ao redor do mundo. A metodologia adotada respeita o nível de conhecimento de cada estudante, a progressão contínua do aprendizado e a importância da prática regular da língua como ferramenta de consolidação.
Uma das alunas que passou pela CPM é a Milena Cristina. Mulher preta, moradora da zona leste de São Paulo (SP), formada em Administração, passou anos fazendo “bicos” enquanto tentava se recolocar no mercado. Estudava inglês sozinha, por aplicativos, até encontrar a ONG em um grupo de WhatsApp. Trabalhava à noite no setor de eventos e, muitas vezes, chegava em casa às 5h da manhã para dormir apenas uma hora antes das aulas.
Em uma das entrevistas que realizamos com ela, disse que “a faculdade despertou meu interesse pelo inglês, mas os cursos eram caros, sempre estudei por aplicativos. Tentei estudar sozinha, mas faltava direção. Foi quando encontrei a CPM”. Após concluir o curso de inglês, foi contratada por uma multinacional de redes sociais. Hoje, promovida, exerce uma função 100% em inglês na área de crimes virtuais. O que mudou na trajetória de Milena não foi talento, esforço ou capacidade. Isso ela sempre teve. O que mudou foi o acesso. Quantas “Milenas” o Brasil ainda mantém no banco de reservas por falta de oportunidades?
Se queremos ser protagonistas globais, precisamos abandonar a ideia de que o inglês é um “diferencial” para poucos. Garantir o desenvolvimento da proficiência linguística é democratizar o futuro. Enquanto o inglês for um privilégio, continuaremos naturalizando uma desigualdade silenciosa. Democratizar o acesso ao idioma é, em última instância, garantir que o Brasil entre em campo com o time completo.
*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.
Sobre a autora: Sarah Morais dedica-se há 15 anos à Cidadão Pró-Mundo (CPM), onde foi volunteacher, a primeira profissional contratada e hoje atua como diretora executiva na organização. Com mestrado em Educação Internacional pelo Teachers College da Universidade de Columbia, trabalha por um futuro mais justo e próspero para nossas juventudes.
