A força das referências reais em tempos de influência virtual

Educação
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Imagem: Divulgação

 

Por Wenceslau Madeira

 

Nunca foi tão fácil acompanhar a rotina de alguém que mora do outro lado do mundo. Ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil construir vínculos verdadeiros com quem está ao nosso lado.

Os adolescentes convivem diariamente com influenciadores, atletas, artistas e criadores de conteúdo que acumulam milhões de seguidores. Muitos inspiram, entretêm e despertam sonhos. Não há problema nisso. O desafio surge quando esquecemos que as mudanças mais profundas continuam nascendo das relações presenciais.

Quem ajuda um jovem a permanecer na escola dificilmente está do outro lado da tela. Na maioria das vezes, é o professor que percebe uma ausência, o treinador que nota uma mudança de comportamento ou o educador social que escuta uma dificuldade antes de qualquer outra pessoa. São pessoas que conhecem o território, a família e a realidade daquele adolescente. Por isso, conseguem agir antes que o vínculo com a escola se rompa.

A permanência escolar não se constrói apenas dentro da sala de aula. Ela depende de pertencimento. O estudante precisa sentir que faz parte de um grupo, que alguém conhece seu nome, acompanha sua evolução e acredita no seu potencial. O esporte favorece esse encontro.

Recentemente, acompanhamos a história de uma família em Governador Valadares (MG) que descobriu no skate, graças ao Projeto Esporte na Cidade, da De Peito Aberto, um novo ponto de equilíbrio. O interesse começou com uma das filhas, envolveu os irmãos e mudou a rotina da casa. A mãe relatou mais responsabilidade, colaboração e autonomia no dia a dia.

Quando perguntada sobre o que mais marcou essa experiência, ela não falou de uma manobra aprendida nem de um campeonato. Falou do professor. De um adulto paciente, próximo e disposto a orientar seus filhos a cada treino.

A mesma lógica aparece em projetos como o “Formando Campeões”, em Arcos (MG), onde cada aula fortalece confiança, responsabilidade e cooperação. Em Matozinhos (MG), a iniciativa “A Bola e o Sonho” mostra diariamente que acreditar no talento de uma criança amplia horizontes muito além do futebol.

Há algo em comum entre essas experiências: a presença constante de adultos que se tornam referências para crianças e adolescentes.

Quem mantém esses projetos vivos depois do apito final são outras pessoas. São os profissionais que organizam os treinos, cobram frequência na escola, conversam com as famílias, orientam escolhas e lembram, todos os dias, que disciplina, estudo e respeito caminham ao lado do talento.

Existe uma diferença importante entre inspirar e transformar. A inspiração pode surgir em poucos segundos. A transformação pede convivência, tempo e continuidade.

É por isso que os projetos sociais, incluindo as iniciativas desenvolvidas por meio da Lei de Incentivo ao Esporte (LIE), ocupam um espaço tão importante. Eles oferecem a crianças e adolescentes referências acessíveis, comprometidas e presentes no cotidiano. O vínculo deixa de ser virtual e passa a fazer parte da vida. Nenhum algoritmo consegue substituir esse processo.

As mudanças mais duradouras acontecem quando alguém escolhe caminhar ao lado de uma criança ou de um adolescente pelo tempo necessário para que ele descubra do que é capaz.

Esse talvez seja um dos maiores desafios da nossa geração: valorizar quem aparece nas telas sem esquecer daqueles que, longe dos holofotes, seguem mudando vidas todos os dias.

Um influencer pode despertar um sonho. Mas é um mentor que ajuda esse sonho a permanecer de pé.

 

*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.

 

Wenceslau Madeira

Fundador e gerente de projetos da De Peito Aberto, organização voltada ao esporte, à educação e à cultura. Gestor público formado pelo UNIBH, especialista em natação e MBA em ESG pelo IBMEC, cursa atualmente pós-graduação em Comunidades Tradicionais, Licenciamento e Governança Socioterritorial na PUC Minas.