A função do brincar no desenvolvimento infantil

Educação
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Imagem: Divulgação

 

Por Diogo Cavazotti Aires

 

No último mês foram lançados três livros que versam sobre educação, da editora Prosa Nova. Como é um assunto que envolve minha área de investigação, resolvi paralisar outras leituras e me aprofundar nas novas obras. Preste atenção nos títulos dos livros: “Educação Infantil Transformadora”, “Gestão Democrática na Educação Infantil Brasileira” e “Educação Infantil – Espaço do Brincar e Aprender”. As três abordam temas educacionais específicos. Mas bastou uma leitura mais aprofundada para pincelar um tema uniforme nas três obras: o brincar infantil e sua importância crucial para o desenvolvimento social e íntegro do indivíduo e da indivídua.

Ao ler, fiz rabiscos e marquei trechos das três obras que abordam a importância do educar na brincadeira, e na formação do cidadão, da cidadã. Compartilho com vocês os trechos que me atentaram sobre o assunto e que abordam o brincar como importância fundamental para o educar integral. Isso não impede a leitura íntegra das três obras lançadas.

GESTÃO DEMOCRÁTICA NA EDUCAÇÃO INFANTIL BRASILEIRA

“Pesquisas mostram que a Educação Infantil de qualidade tem impactos significativos e duradouros na vida das crianças”.

“A brincadeira está diretamente vinculada à forma como as crianças se comunicam e interagem com o mundo, como elas se constituem enquanto sujeitos humanos, ampliam os conhecimentos e as experiências significativas para a faixa etária da Educação Infantil”.

“Tomar a brincadeira como eixo norteador vem reafirmar a importância do brincar para o desenvolvimento da criança e como ele deve permear toda a proposta do trabalho pedagógico na instituição. O parecer da BNCC reafirma que as crianças devem brincar cotidianamente de diversas formas, em diferentes espaços e tempos, com diferentes parceiros. É por meio do brincar que a criança constrói um sentido para o mundo que a cerca, expressa seus sentimentos, amplia seus conhecimentos e realiza interações”.

“Também devem promover a construção coletiva de saberes, a reflexão crítica sobre as práticas pedagógicas e a articulação entre teoria e prática. A interação e a brincadeira são eixos fundamentais que devem permear todas as atividades, garantindo um ambiente de aprendizagem lúdico e significativo para as crianças”.

“A elaboração da Proposta Pedagógica ou Projeto Político Pedagógico dos centros de Educação Infantil deve ser motivada pela necessidade da implementação de práticas pedagógicas voltadas para a inovação da ação coletiva na busca pela melhoria da qualidade da educação, e não apenas pelo cumprimento de uma exigência da legislação educacional”.

“Com as brincadeiras, as crianças podem trazer conhecimentos advindos dos ambientes em que estão imersas e, assim, a transformam em novos saberes”.

“O professor será essencial, pois cabe a ele construir estratégicas didáticas diferenciadas, criativas, inovadoras, que possibilitem aflorar a criatividade as crianças, tornar espontâneas as expressões de suas ideias, reconhecendo a multidimensionalidade humana e a engenharia complexa que constitui a natureza humana, na qual as dimensões física, cognitiva, psíquica, emocional e espiritual se combinam e são expressas no aprender, no brincar, no conviver e no conhecer-se”.

“Os estudos apontam a família como o primeiro espaço socializador do bebê. Os pais são os responsáveis pela mediação das relações entre o bebê e o mundo”.

EDUCAÇÃO INFANTIL – ESPAÇO DO BRINCAR E APRENDER

“Por meio da brincadeira, a criança aprimora suas habilidades cognitivas, sociais e emocionais, além de desenvolver sua linguagem e capacidade de resolução de problemas. A brincadeira também é uma forma de a criança aprender a se comunicar e interagir com outras, exercitando sua empatia e capacidade de cooperação. Dessa forma, a brincadeira é vista como uma atividade fundamental para o desenvolvimento saudável e integral da criança”.

“As interações com adultos experientes e responsivos são esperadas e essenciais. A ausência do processo imperativo é uma séria ameaça ao desenvolvimento e ao bem-estar da criança”.

“Há um número crescente de estudos e pesquisas sobre a importância e os benefícios das brincadeiras ao ar livre como formas de promover o desenvolvimento infantil saudável e experiências de aprendizagens de alta qualidade”.

“No Brasil, ainda precisamos concentrar muitos esforços para a compreensão da importância do brincar em áreas abertas e naturais. É preciso que haja políticas públicas e práticas de Educação Infantil em que se valorize o brincar ao ar livre das crianças. Temos ainda muitas lacunas e barreiras sobre brincar mais próximo da natureza”.

“Segundo o escritor e jornalista Richard Louv, atualmente no século XXI, algumas crianças sofrem de déficit de natureza, expressão cunhada por ele para descrever o impacto que a falta de contato com a natureza tem no desenvolvimento”.

“A Sociedade Brasileira de Pediatria divulgou um documento com evidências científicas as que comprovam os benefícios do contato com a natureza na infância e na adolescência. Entre eles, estão a melhoria do controle de doenças crônicas, como diabetes, asma e obesidade, a redução do risco de independência química, o desenvolvimento neuropsicomotor e a diminuição de problemas de comportamento. Além disso, o contato com a natureza proporciona bem-estar mental, equilibra os níveis de vitamina D e reduz a necessidade de visitas médicas”.

“A criança deve ter o seu tempo para explorar, observar, fazer as suas hipóteses e construções – o adulto não precisa intervir dizendo o que deve ser feito ou com qual material vai brincar. A criança precisa de liberdade e do seu tempo para fazer as suas escolhas, sem a imposição do adulto direcionando-a em todos os momentos”.

“Um estudo de 2020 analisou o impacto da publicidade infantil de brinquedos plásticos na saúde de crianças e no ambiente, intitulado “Infância plastificada”, do Grupo de Estado e Pesquisa em Química Verde, Sustentabilidade e Educação, da Universidade Federal de São Carlos. Tal trabalho aponta que 90% de todos os brinquedos no mundo são feitos de materiais plásticos e estima-se que será produzido 1,38 milhão de toneladas de brinquedos de plástico no Brasil entre 2018 e 2030. Por conta da mistura de diferentes materiais que os compõem, é pouco provável que eles possam ser reciclados. Diversos estudos têm demonstrado que brinquedos de plástico possuem substâncias potencialmente tóxicas para as crianças e podem lhes causar, inclusive, problemas hormonais e câncer”.

“A educação tem o papel fundamental de promover o desenvolvimento integral do ser humano, permitindo-lhe flores em sua totalidade, em um ambiente de liberdade e dignidade”.

“A maneira como vivemos ao mundo, o modo como somos alimentamos e o jeito como somos cuidados nos primeiros meses e anos de vida determinam uma impressão emocional que servirá de matriz para os nossos relacionamentos ao longo da vida”.

“No Brasil, embora a criatividade também seja uma marca cultural, há muito o que se avançar nas discussões sobre o papel das artes nos caminhos educacionais e formativos das crianças”.

“O tempo das crianças é um tempo diferente do dos adultos e, por isso, nem sempre compatível. O tempo próprio que, para as crianças, deve ser para brincar, é informal, usando-o de forma prazerosa para fazer com ele aquilo de que mais gostam, cumprindo, afinal, a verdade finalidade, que é “o tempo de realizar””.

“A criança não se desenvolve fazendo horas e horas de lição de casa, mas interagindo e se descobrindo com os colegas, brincando, explorando. Quanto mais as crianças brincam e interagem, mais elas conseguem construir uma representatividade no mundo e nas suas relações. Essas crianças são capazes de se adaptar, de ir além, pessoas com uma determinação e criatividade fora do comum”.

EDUCAÇÃO INFANTIL TRANSFORMADORA

“Sabemos que a educação no Brasil está melhorando, mas o grande desafio não é mais só oferecer vagas para todas as crianças e jovens na escola, e sim avançarmos na qualidade educacional”.

“Quando um município assume uma gestão e prioriza a construção de uma escola de qualidade voltada para a infância, tem a preocupação de uma escola de qualidade voltada para a infância, tem a preocupação de atender ao maior número de crianças, evitando a evasão escolar, abrindo espaços de aprendizagem, efetivando ações para melhorar o desempenho escolar dos alunos, investindo na formação dos educadores, entre tantas outras ações que elevem os patamares da educação pública”.

“A pedagogia da escuta é uma abordagem transformadora na educação; ela nos ensina que ouvir não é apenas um ato de escutar palavras, mas um gesto de acolhimento, empatia e abertura para o mundo das crianças. Ao priorizar a escuta, podemos criar espaços acolhedores e relacionamentos educados que promovem o crescimento emocional, afetivo, social e cognitivo das crianças”.

“É preciso haver a estruturação de espaços que facilitem que as crianças interajam e construam sua cultura de pares e favoreçam o contato com a diversidade de produtos culturais (livros de literatura, brinquedos, objetos e outros materiais), de manifestações artísticas e com elementos da natureza”.

“O planejamento da Educação Infantil é um elemento essencial para o sucesso da prática educativa. Ele não deve ser encarado como uma mera obrigação burocrática, mas sim como uma ferramenta poderosa que possibilita que os educadores proporcionem experiências significativas e personalizadas para as crianças”.

 

*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.

 

Diogo Cavazotti

Doutor em Educação. Mestre em Direitos Humanos e Direito Internacional Humanitário. Jornalista. Único brasileiro bolsista da Corte Interamericana de Direitos Humanos.