A moradia é a primeira linha de defesa frente à crise climática

Direitos Humanos
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Recentemente, escutei esta frase que me marcou: a moradia é a primeira linha de defesa frente à crise climática.

Me marcou, não porque eu não soubesse disso, mas sim porque comunica de uma forma simples e clara, o que a nossa sociedade ainda não entendeu, ou prefere não enxergar.

Felizmente, temos ouvido cada vez mais reflexões como: “a crise climática não impacta todos da mesma forma.” Talvez esse tenha sido um dos poucos aprendizados deixados pela pandemia, quando ficou impossível ignorar que enquanto alguns viveram o isolamento protegidos em suas casas, outros enfrentaram a pandemia sem um teto digno.

A desigualdade estrutural é hoje o eixo central da maioria das sociedades, com mais ou menos expressão dependendo do país. No Brasil, segundo a OXFAM, a riqueza está concentrada em um pequeno grupo. Os 10% mais ricos detêm quase 80% da riqueza nacional, e o 1% mais rico detém quase 50% do total.

Crédito: Foto da Autora

 

Mas em uma das maiores economias do mundo, é para mim, impensável pensar que temos um nível de desigualdade tão grande, e políticas públicas ainda tão ineficazes que fazem com que uma pessoa PRECISE morar em um barraco como a foto acima.

Essa foto não é montagem nem IA, fui eu quem tirei há alguns meses no Jardim Lapena, na Zona Leste de São Paulo. Uma mulher e sua filha viviam nessas condições. Essa imagem me persegue, e me leva a outra pergunta: quem são as pessoas que mais sofrem com o déficit habitacional no Brasil?

A resposta é dura: famílias chefiadas por mulheres negras representam 62% do déficit habitacional, resultado do peso do trabalho não remunerado, da informalidade e da sobrecarga do cuidado.

Ou seja: além das desigualdades que já atravessam metade da população brasileira, agora, e já há alguns anos, precisamos somar os efeitos da crise climática, que agravam ainda mais as vulnerabilidades existentes.

E que efeitos são esses?

O Panorama Climático das Favelas e Comunidades Invisibilizadas, publicado recentemente pela TETO Brasil, mapeou o impacto da crise climática em 119 territórios de 51 municípios, em todas as regiões do país, a partir da escuta direta de moradores e lideranças locais. O resultado é alarmante: 86% das comunidades relataram enfrentar eventos climáticos extremos pelo menos uma vez por ano.

Entre eles:

  • ondas de calor intenso (71%),
  • tempestades e vendavais (56%),
  • enchentes (54%) e
  • ondas de frio e falta de água (50%)

Agora, por 1 minuto, faça um esforço de imaginar passar por qualquer uma dessas situações morando em uma casa como a da foto abaixo.

Crédito: Foto do Voluntariado da TETO Brasil

 

Chegamos, como sociedade, a um ponto crítico — o encontro entre a crise habitacional e a crise climática. Duas crises que são indissociáveis. Como garantir que ninguém fique para trás se milhões de pessoas ainda vivem sem dignidade, segurança ou perspectiva de futuro? Como falar em resiliência, adaptação, ou inovação urbana se 16 milhões de pessoas vivem em favelas sujeitas à precariedade da moradia, do saneamento e da infraestrutura básica?

Apesar de tudo isso, preciso seguir otimista.

Não porque as políticas públicas estejam avançando, elas estão, ainda que lentamente. Nem porque os debates e financiadores nacionais e internacionais tenham priorizado a moradia, porque raramente priorizam.

Meu otimismo vem das pessoas. Vem das conversas com moradores e moradoras que, mesmo diante de tantas adversidades, seguem acreditando que a transformação é possível. É com elas, nas comunidades mais vulnerabilizadas, que a TETO encontra todos os dias o verdadeiro significado de esperança,  não como discurso, mas como prática contínua.

Porque, no fim das contas, a casa é o primeiro escudo contra o colapso climático individual.

Garantir moradia digna é uma estratégia essencial de adaptação, uma medida de justiça climática e social. Recolocar a habitação no centro das políticas públicas urbanas e ambientais significa entender que investir em casas seguras, infraestrutura e regularização fundiária é tão urgente quanto proteger a Amazônia e as populações indígenas, repensar sistemas alimentares ou garantir a transição energética justa.

É hora de romper a separação histórica entre as agendas ambiental e urbana. Moradia digna é infraestrutura da resiliência, um direito humano, e ao mesmo tempo, uma ferramenta concreta para salvar vidas e reduzir desigualdades em um país onde o clima extremo já não é exceção, mas a regra.

 

*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.

 

Camila Jordan

Urbanista e mestre em Administração Pública pela Universidade de Columbia. Diretora de Relações Institucionais e Incidência da TETO Brasil, atua com justiça habitacional e foi reconhecida pela Bloomberg Línea como uma das 500 pessoas mais influentes da América Latina.