Brumadinho: “tentaram nos enterrar. Não sabiam que éramos sementes”
Direitos HumanosO Observatório do Terceiro Setor entrevistou Helena Taliberti, uma mãe que perdeu seus dois filhos no rompimento da barragem em Brumadinho; ela é presidente do Instituto Camila e Luiz Taliberti, que carrega o nome dos seus filhos em uma luta por justiça e conscientização social

*Por Lucas Neves
“Tentaram nos enterrar. Não sabiam que éramos sementes”. É a partir deste lema que o Instituto Camila e Luiz Taliberti atua há 7 anos, quando foi criado para buscar justiça e honrar as 272 pessoas que tiveram suas vidas brutalmente interrompidas pelo rompimento da barragem de Brumadinho–MG, em 2019.
Nascido de um evento traumático, a organização atua pela conscientização socioambiental, evidenciando os riscos e impactos da mineração, sobretudo, na vida das comunidades locais, além de cobrar respostas e preservar a memória daqueles que perderam suas vidas.
Transformando o luto
O nome do Instituto é uma homenagem aos irmãos Camila e Luiz, vítimas da barragem de Brumadinho. Eles são filhos de Helena Taliberti, que teve forças para transformar o luto, a indignação e o trauma em mobilização social.
“Foi um acontecimento que deixou a nossa vida completamente desestruturada e sem sentido. Você dorme com a família toda e, de repente, acorda sem ninguém”, lembra Helena. Além dos filhos, ela perdeu a nora, Fernanda, que estava grávida há 5 meses. Junto a eles, também estava o ex-marido de Helena, pai de Camila e Luiz.
Presidente do Instituto Camila e Luiz Taliberti, Helena conta que a organização surgiu de uma iniciativa coletiva. “A indignação foi muito grande. Não só de nós familiares, mas também dos amigos e das amigas dos meus filhos”.
Ao falar do processo de transformação das suas perdas dolorosas em ativismo social, ela conta que se sente na obrigação de lutar por justiça e para que eventos como Brumadinho não se repitam. Helena também destaca as particularidades do luto vivido a partir da tragédia.

“Na verdade, não é um luto normal. É um luto de 272 vítimas que morreram de uma forma muito trágica, muito cruel, e que poderia ter sido evitada”. As investigações após o rompimento evidenciaram a falta de manutenção e monitoramento adequados, além do desrespeito a normas por parte da mineradora Vale e outras empresas envolvidas.
A Vale acordou em pagar bilhões em indenizações e reparações, mas a responsabilização criminal segue em andamento. Portanto, mesmo passados 7 anos do ocorrido, as famílias das vítimas ainda aguardam uma resposta satisfatória do sistema judicial.
Fora as perdas humanas, o rompimento da barragem gerou danos significativos no ecossistema local. “Contaminou o rio, levou árvores, animais, lavouras e sítios inteiros foram destruídos”, destaca Helena.
“É uma tragédia que continua acontecendo, porque o impacto na vida das pessoas e das comunidades é imenso, principalmente para famílias e comunidades que estão próximas à mina” — Helena Taliberti
Ato na Avenida Paulista
25 de janeiro marca os 7 anos do rompimento da barragem. Para honrar a memória das vítimas e evitar que a tragédia caia no esquecimento, o Instituto Camila e Luiz Taliberti realizará evento na Avenida Paulista, em São Paulo.
Todos os anos a organização promove um Ato pela Memória no dia 25, que coincide com o aniversário da cidade de São Paulo. O ato acontecerá na esquina com Rua Augusta, com atividades de plantio e pintura para crianças, discurso de Helena Taliberti, apresentação musical do Forró das Minas e o Pedal pela Vida, ação simbólica que percorre a via em defesa da vida e da memória das vítimas.

Durante o evento, que começa às 10h, o público também poderá visitar uma tenda com programação cultural, exposição de obras e atividades que dialogam com memória, justiça socioambiental e os impactos da mineração.
Entre a programação, fica o destaque para o toque de sirene, que acontecerá às 12h28, horário exato do rompimento da barragem em 2019. “Tocaremos a sirene que não tocou há sete anos. Mais do que um ato simbólico, nosso esforço é reafirmar o compromisso com a memória das vítimas e com a construção de uma sociedade que não normalize crimes socioambientais”, destaca Helena.
Conscientização e preservação da memória
O ato na paulista é apenas um dos eventos que o instituto promove ao longo do ano. Segundo Helena, é fundamental que a tragédia em Brumadinho não caia no esquecimento e que exista um diálogo com a sociedade para evidenciar o problema, além de buscar soluções que tornem a mineração um setor mais responsável e ético.
“As pessoas, às vezes, falam para mim: ‘vira a página, vamos fazer outras coisas’. Não, gente, não é assim. Não tem página para ser virada. Você acorda todos os dias com uma ausência, com um buraco na sua vida. Não dá para esquecer”.
Ainda sobre a perspectiva da sociedade, Helena reforça a necessidade de exercitarmos a empatia. ”É entender que esse tipo de situação de extrema dor que as pessoas passam pode acontecer com qualquer um”.

O instituto promove ações nas áreas de sustentabilidade e cultura. Entre os projetos recentes estão a Mostra de Cinema, Mineração e Meio Ambiente (2023 a 2025) e a exposição Paisagens Mineradas (2024 e 2025).
“Trazemos toda essa questão da memória, da lembrança e da conscientização para a arte. Entendemos que a arte toca o coração das pessoas de uma forma muito mais profunda, em lugares que, muitas vezes, só conversar não toca”.
Helena Taliberti é um exemplo de coragem. A dor da perda não a impediu de lutar por justiça e pelos direitos humanos. A partir do Instituto Camila e Luiz Taliberti, ela não só honra a memória dos seus filhos, mas consegue transformar o luto e a sensação de injustiça em acolhimento, conscientização e transformação social.
“Essa força que tenho vem do amor dos meus filhos. Mas mais do que isso: do amor que os seus amigos e as amigas tinham por eles” — Helena Taliberti
