Colaborar sem colapsar: a próxima revolução é emocional

Cultura de Doação
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Imagem: ChatGPT

 

Por Luiza Serpa

 

A filantropia tem falado muito sobre colaboração. Sobre redes, parcerias, alianças, filantropia coletiva, participativa. Mas pouco sobre o que sustenta tudo isso: as emoções.

No campo social, quem atua sabe que o desafio nem sempre está só em captar recursos, mas em lidar com o outro. Com as diferenças, com o ego do parceiro, com o ritmo da equipe, com o desgaste de quem vive tentando mudar o mundo, que pensa diferente e tem uma visão de longo prazo.

Chamamos de colaboração o que, muitas vezes, é apenas coordenação de ações, com interesses individuais organizados. Para colaborar de verdade, é preciso desenvolver inteligência emocional coletiva, ter a capacidade de, em grupo, sustentar desconfortos, acolher frustrações e seguir em movimento, mesmo sem consenso. O lado invisível do impacto.

As pesquisas da Harvard Business Review mostram que times emocionalmente seguros são até 35% mais produtivos e criativos. No setor social, isso é ainda mais vital: nossos temas são sensíveis, nossos recursos escassos e nossas lideranças, sobrecarregadas.

Mas quantas vezes financiadores e organizações avaliam a saúde emocional das equipes que executam projetos? Quantas redes de impacto colocam tempo para escuta, mediação de conflitos e descanso coletivo?

Enquanto continuarmos medindo sucesso apenas por indicadores financeiros e metas atingidas, ignoraremos a infraestrutura invisível que sustenta qualquer transformação: relações saudáveis. Uau! Baita desafio.

Desenvolver inteligência emocional coletiva não é “papo leve”, secundário. É estratégia!
Significa construir confiança antes de pedir desempenho, incluir pausas e espaços de escuta nos cronogramas, dar nomes aos desconfortos e criar ambientes onde vulnerabilidade não é fraqueza, mas condição para inovação.

As organizações que entenderem isso primeiro, terão vantagem: vão reter talentos, lidar melhor com tensões e tomar decisões mais maduras e colaborativas. É a revolução silenciosa que começa nas reuniões, nas conversas difíceis e nas pausas que raramente nos permitimos. Será que chego lá?

 

Talvez o futuro da filantropia não dependa apenas de mais recursos, mas de mais maturidade emocional.

A empatia que pregamos para fora precisa existir também entre nós.

Porque se queremos transformar o mundo sem nos destruir no processo, precisamos aprender a colaborar sem colapsar.

 

*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.

 

Luiza Serpa

Luiza Serpa é fundadora e diretora do Instituto Phi, única brasileira no Conselho Estratégico da rede Latimpacto, Responsible Leader da BMW Foundation, fellow da Skoll Foundation, integrante do Conselho da rede NEXUS Global, membro da Entrepreneur’s Organization (EO). Faz parte do comitê da Plataforma Conjunta e foi reconhecida como Empreendedora Social do Ano pela Folha em 2020. Luiza contou sua história num capítulo do livro “Mulheres do Terceiro Setor”, da Editora Leader, que aborda as histórias, cases, aprendizados e vivências de 18 empreendedoras sociais ao longo de sua carreira.