Corrida global da inteligência artificial pode impactar o futuro das periferias

Tecnologia
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Imagem: ChatGPT

 

Por Diogo Bezerra – Fundador da Mais1Code

 

Sabe aquela sensação de que o mundo está mudando tão rápido e ainda estamos tentando entender o manual de instruções? É exatamente o que está acontecendo com a Inteligência Artificial (IA). 

Muito além de uma novidade tecnológica, a IA já está reorganizando a economia global e o que está em jogo não é apenas quem tem o software mais rápido, mas quem vai ditar as regras, controlar os dados e, claro, concentrar a riqueza do futuro. Esse movimento tem acontecido de forma desigual e expõe um risco real para o Brasil: sem uma estratégia consistente de formação e inclusão tecnológica, o país pode reforçar um modelo em que a inovação acontece fora, enquanto aqui se consome tecnologia sem ter um domínio real.

Os Estados Unidos e a China estão numa guerra fria tecnológica e tratam a inteligência artificial como prioridade estratégica. O modelo norte-americano avança com forte protagonismo do setor privado pelas gigantes do Vale do Silício, com grandes plataformas tecnológicas e regras cada vez mais rígidas sobre uso de dados e desenvolvimento de sistemas. Já  a China aposta em uma estratégia de Estado, incentivando soluções de código aberto que, segundo análises do Stanford AI Index e da OECD, acabam sendo mais acessíveis para países em desenvolvimento.

O impacto social dessa corrida é profundo. Dados da Organização das Nações Unidas (ONU) e da Organização Internacional do Trabalho (OIT) indicam que cerca de 40% dos empregos globais podem ser impactados direta ou indiretamente pela inteligência artificial. Funções operacionais, administrativas e técnicas básicas, historicamente portas de entrada para jovens no mercado de trabalho, estão entre as mais suscetíveis à automação, o que amplia o risco de exclusão para quem já enfrenta barreiras estruturais.

No setor de tecnologia, essa transformação já é visível. Relatórios do Fórum Econômico Mundial, como o Future of Jobs Report, apontam que tarefas cognitivas repetitivas, incluindo programação básica, suporte técnico e atividades padronizadas, estão sendo rapidamente automatizadas. Esse movimento tem reduzido oportunidades iniciais para jovens profissionais, exigindo formações mais avançadas, estratégicas e integradas ao uso consciente da IA.

Para jovens das periferias, o cenário é ainda mais desafiador. Sem acesso à formação tecnológica de qualidade, eles não perdem apenas vagas, mas tempo histórico de adaptação. O resultado disso a gente já conhece: mais informalidade, menos mobilidade social e o poder de decisão concentrado nas mãos de poucos que dominam o código. A ausência de intervenção agora terá um custo social elevado nas próximas décadas.

É aqui que o papel das organizações sociais e do Terceiro Setor se torna estratégico. Não dá mais para ensinar apenas o “básico”. Precisamos formar jovens que tenham pensamento crítico e saibam usar a IA para resolver problemas reais dos seus próprios territórios. Quando um jovem periférico entende que pode transformar uma ideia em uma solução concreta usando tecnologia, a IA deixa de ser uma ameaça de substituição e passa a ser um instrumento de emancipação.

A corrida global da inteligência artificial não é neutra. Ela define quem terá renda, estabilidade e poder de decisão no futuro. Se o Brasil quiser participar dessa transformação de forma soberana, precisa investir agora na formação tecnológica de sua juventude, especialmente nas periferias. Caso contrário, corre o risco de assistir à concentração de valor fora de seus territórios, reforçando desigualdades que poderiam e deveriam ser superadas. A pergunta que fica não é se a IA vai mudar nossas vidas; ela já mudou. A pergunta é se vamos sentar na mesa de negociações ou se vamos apenas ler o cardápio.

 

*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.

 

Diogo Bezerra e Tauan Matos

Sobre Diogo Bezerra Diogo Bezerra é cofundador da Mais1Code, projeto social de formação tecnológica, e da PLT4Way, escola de idiomas inclusiva. Reconhecido entre os Top 50 Young Global Change Makers (G20) e vencedor do Shark Tank Brasil, lidera atualmente a internacionalização da Mais1Code, com projetos em Portugal e São Tomé e Príncipe. Sobre Tauan Matos Tauan Matos é cofundador e CEO da Mais1Code, projeto social de formação tecnológica. Formado em Web Design, lidera iniciativas de educação tecnológica e impacto social, como o Movimento Reprogramando a Quebrada. É embaixador do Global Youth Opportunity Network e vencedor do Prêmio Ago Social.