Cultura de Doação e Cultura de Captação de Recursos: elas andam juntas, mas são diferentes
Cultura de Doação
Por Vivian Fasca
Uma das questões que tenho observado emergir com frequência é a mistura conceitual sobre o que é uma cultura de doação no país e o que é a cultura de captação de recursos, ambas determinantes para contribuir com a sustentabilidade financeira de organizações da sociedade civil que atuem com causas socioambientais.
Para o Movimento por uma Cultura de Doação, ”a Cultura de Doação é um conjunto de comportamentos, símbolos e valores que se expressam no compartilhamento habitual e voluntário de recursos privados em busca de uma sociedade justa, equitativa e sustentável”.
A cultura de doação em um país pressupõe que pessoas e organizações entendem a importância das doações e da filantropia como exercício da cidadania, como ato de generosidade em relação ao outro e como forma de endereçar e solucionar problemas sociais e ambientais na sociedade.
Mas o ato de doar difere do ato de buscar recursos para financiar projetos sociais ou para custear estruturas administrativas de organizações do terceiro setor.
Para a ABCR (Associação Brasileira de Captadores de Recursos), “ toda organização da sociedade civil (OSC, ou “ONG”, no mais popular) precisa de recursos para se manter. Tirando os institutos corporativos, ou as fundações familiares, que têm orçamento próprio garantido, a grande maioria das demais ONGs efetivamente necessita desenvolver uma estratégia específica para trazer recursos – principalmente dinheiro – para que ela seja capaz de cumprir a sua missão e ter impacto real na sociedade. E é essa prática que chamamos de captação de recursos”.
Certamente, um país com uma cultura de doação madura onde pessoas e organizações doam com frequência e doam somas de valores robustos cria um ambiente favorável para o desenvolvimento de práticas de captação de recursos mais desenvolvidas por organizações da sociedade civil, independentemente do seu porte, da causa que defendem ou da região onde estão instaladas. E isso cria um círculo virtuoso para que tenhamos uma sociedade civil organizada vibrante e dinâmica com impacto positivo, promovendo mudanças sistêmicas e transformação social.
Mas não necessariamente o fato de termos uma cultura de doação estabelecida no Brasil implicará automaticamente que teremos no terceiro setor uma cultura de captação de recursos madura com profissionais tecnicamente capacitados para a aplicação de práticas desenvolvidas, que permitem a implementação de estratégias caso a caso, buscando diferentes fontes de recursos, sejam de indivíduos, de empresas, de fundações filantrópicas ou recursos incentivados, garantindo a sustentabilidade financeira para as organizações da sociedade civil e suas respectivas agendas programáticas, além de as tornarem aptas a arcar com os custos administrativos, de pessoal e demais custos que compõem o que comumente chamamos de desenvolvimento institucional.
Como doadora e promotora da cultura de doação e como também profissional de captação de recursos, espero que possamos ter no Brasil um cenário em que a cultura de doação floresça, expandindo as possibilidades de doações, sejam através de indivíduos, seja através do investimento social privado e financiadores institucionais com maior flexibilidade e alcance, mas que também tenhamos evoluído para um ambiente no terceiro setor, onde as organizações da sociedade civil como um todo conseguem desenvolver as capacidades necessárias para buscar sua sustentabilidade financeira, amadurecendo a cultura de captação de recursos no país.
*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor
Sobre a autora: Vivian Fasca é membro do Comitê Coordenador do Movimento por uma Cultura de Doação

18/06/2025 @ 19:01
Excelente artigo!!