Diversidade e mobilidade social: por que ninguém deve ficar para trás
Direitos Humanos

Por Vitor Hugo Neia
Junho é reconhecido mundialmente como o Mês do Orgulho LGBTQIA+, um período que convida à reflexão sobre direitos, cidadania e inclusão de todas as pessoas. Mais do que celebrar conquistas importantes, a data nos lembra que ainda existem barreiras significativas que impedem milhões de pessoas de acessar oportunidades em condições de igualdade no Brasil e no mundo. Em um País marcado por desigualdades históricas, falar de diversidade não é apenas uma questão de representatividade. É também uma discussão sobre desenvolvimento social, justiça e mobilidade social.
Durante muito tempo, os debates sobre diversidade e inclusão foram tratados como temas paralelos às agendas de desenvolvimento. Hoje, essa separação já não faz sentido. Não é possível discutir redução das desigualdades sem considerar os obstáculos enfrentados por grupos historicamente minorizados no acesso à educação, ao trabalho, à renda e aos espaços de decisão.
A realidade da população LGBTQIA+ ajuda a ilustrar esse desafio. Pessoas trans e travestis, por exemplo, ainda enfrentam níveis elevados de discriminação, são mais suscetíveis à violência e sofrem mais com a exclusão do mercado formal de trabalho. Muitos jovens, inclusive, abandonam a escola em razão de ambientes pouco acolhedores, comprometendo sua formação e suas possibilidades futuras. Quando direitos básicos são negados ou dificultados, a mobilidade social também se torna mais distante dessas pessoas.
A situação é tão complexa que, segundo dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), ocorreram 80 mortes de trans e travestis em 2025, sobretudo de mulheres, o que colocou o Brasil, mais uma vez, no topo do ranking de países mais violentos contra essa parcela da população. Por aqui, a expectativa de vida de pessoas trans gira em torno de 35 anos, em comparação à expectativa média geral de cerca de 76 anos para toda a população brasileira.
Dados como esses reforçam que a diversidade precisa ser compreendida como uma condição estruturante para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária. Promover inclusão significa remover barreiras que limitam o desenvolvimento de indivíduos e comunidades. Significa reconhecer que pessoas diferentes partem de pontos diferentes e que, para garantir igualdade de oportunidades, muitas vezes é necessário adotar estratégias específicas para enfrentar desigualdades históricas.
Nesse contexto, a inclusão produtiva desempenha um papel fundamental. Quando conectamos educação, qualificação profissional, geração de renda e acesso ao mercado do trabalho, ampliamos as condições para que pessoas em situação de vulnerabilidade possam construir trajetórias mais autônomas e sustentáveis. Mais do que gerar renda, a inclusão produtiva fortalece autoestima, pertencimento e cidadania.
Existem exemplos concretos de como essa transformação pode acontecer. Em São Bernardo do Campo, a Fundação Grupo Volkswagen apoiou iniciativas da Casa Neon Cunha, organização que atua no acolhimento e fortalecimento da população trans e travesti. O apoio envolveu qualificação profissional, assistência social e fortalecimento institucional, ampliando oportunidades de autonomia econômica para um público historicamente excluído.
Outro exemplo vem de Salvador, onde apoiamos a Associação Motirô no desenvolvimento do projeto “Além do Arco-Íris”. A iniciativa ofereceu formação profissional para pessoas LGBTQIA+ em áreas como hospitalidade, turismo e atendimento ao cliente, combinando capacitação técnica com apoio psicossocial. São ações que demonstram que a inclusão acontece de forma mais efetiva quando considera as necessidades reais das pessoas e dos territórios.
Mas os desafios vão além da execução de projetos específicos e pontuais. A construção de oportunidades mais inclusivas exige uma mudança de perspectiva, de forma integrada. Diversidade não pode ser um tema isolado ou restrito a determinadas datas do calendário, como é de costume. Ela precisa estar presente nas estratégias institucionais das empresas e organizações do terceiro setor, nas políticas públicas de todos os entes federativos, nos processos de contratação, nos programas de formação e nos critérios de investimento social.
Na Fundação Grupo Volkswagen, essa compreensão tem orientado nossa atuação. Diversidade e inclusão deixaram de ser um eixo separado para se tornarem princípios transversais que influenciam todos os programas, projetos, parcerias e iniciativas institucionais. O objetivo é garantir coerência entre discurso e prática, fortalecendo ações que contribuam efetivamente para a redução das desigualdades. Nesse sentido, pessoas em situação de vulnerabilidade que fazem parte da comunidade LGBTQIA+ estão entre nosso público-alvo prioritário e vagas afirmativas fazem parte dos processos seletivos de contratação para nossa equipe, em todos os níveis.
O Mês do Orgulho é um momento importante para dar visibilidade a essas discussões, mas o compromisso com a inclusão precisa ser permanente. Em uma sociedade democrática, ninguém deveria ter suas oportunidades limitadas por sua orientação sexual, gênero, raça, renda, deficiência ou território de origem.
Promover mobilidade social significa ampliar possibilidades. E isso só será plenamente alcançado quando todas as pessoas tiverem condições reais de acessar educação de qualidade, trabalho digno e oportunidades de desenvolvimento. Afinal, construir uma sociedade mais justa passa, necessariamente, por garantir que ninguém fique para trás!
*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.
