Doações de bets e outros contraditórios do terceiro setor

Captação de Recursos
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Imagem: Chat GPT

 

Por Daiany França 

 

No campo jurídico brasileiro, o princípio do contraditório é uma garantia constitucional que estabelece que todas as pessoas têm direito de se manifestar e de responder antes que uma decisão seja tomada contra elas.

Mas aqui, na nossa conversa, quero usar o “contraditório” em seu sentido mais amplo. A mim sempre importou perguntar quem tem direito ao contraditório, bem como ao erro, à ambiguidade e a outras “regalias” que, no fundo, são privilégios da branquitude. Porque não é todo mundo que pode expor o que pensa; errar e recomeçar. Não é toda organização que pode mostrar suas incoerências sem ser julgada e, muitas vezes, cruelmente sentenciada.

Talvez você esteja se perguntando, com alguma razão: “Daiany, afinal, do que estamos falando?”.

Se você ainda não viu, recomendo muito o episódio 232 do podcast Impacto da Encruzilhada, do amigo e parceiro de Rede Rizomática, Fábio Deboni: Bets e filantropia – um debate necessário.

Fui uma das convidadas do episódio, ao lado do Rodrigo Pipponzi, e desde então tenho buscado diálogo com pessoas próximas sobre esse tema que, como bem disse o Fábio, parece ser mais um “não-assunto” dentro do campo (mas não é porque há receio de falar que a coisa não está acontecendo; pelo contrário, aqui vão três evidências sobre a relação entre bets e filantropia: primeira, segunda, terceira).

Nesse momento, além de silenciada, a conversa me parece inacessível. Entre os que se manifestam, há a turma que levanta a bandeira ética e afirma, aparentemente sem espaço pra troca: “Com toda certeza, não!”. A justificativa central é que chega a ser imoral uma organização da sociedade civil aceitar doação de uma indústria que lucra com o endividamento e com a desgraça alheia. E, sejamos justos, há total razão nesse argumento.

A jornalista Mariana Tavares fez um belo levantamento para o episódio e há inúmeras matérias e pesquisas que escancaram esse quadro: jovens endividados, trabalhadores afastados por vício em jogo e famílias inteiras arruinadas pela falsa promessa do dinheiro fácil. Não faltam dados para confirmar que estamos diante de uma verdadeira tragédia social.

E quem sofre mais as consequências dessa calamidade? Pretos, pobres e periféricos; claro. =(

Mas há também aqueles que não têm uma posição fechada – se uma OSC deve ou não aceitar doação de bet. Eu mesma não tenho. Isso não significa ser a favor das bets. É claro que sou contra! Do mesmo modo que defendo que bilionários não deveriam existir.

 

Aliás, o mundo seria bem mais legal, justo e equânime a partir das minhas crenças e ideias. Mas essa batalha já perdi há uns bons anos. Como diz minha companheira: “o capitalismo venceu”.

 

Como doutoranda de um programa de Mudança Social e Participação Política, investigando quem capta e quem pode captar no Brasil, me coloco nesse debate com curiosidade, como quem deseja “jogar conversa dentro”, e me permito a te perguntar, com sinceridade: os dois comentários abaixo, reais, não te fazem pensar sobre quem pode dizer não à doação de bet, ou seja, sobre quem realmente tem direito ao contraditório no terceiro setor, e/ou filantropia, brasileiro?

“Estou aqui em casa esperando que alguma dessas bets gordas de grana invista num projeto nosso. […] Não dou 10 minutos pra começar o mimimi de quem nunca colocou um centavo no território.”

“Existe momento da vida que estamos tão bem (de aporte e patrocínio) que a gente conquista o privilégio de dizer não – e esse não é o caso.”

Lido cotidianamente com organizações periféricas e do Brasil profundo e jamais diria a elas que tipo de doação elas devem ou não devem aceitar. Claro, enquanto mentora e consultora, eu oriento e apoio a construção de políticas de captação de recursos dessas organizações e, a partir das minhas lentes conceituais e políticas, com a permissão delas, problematizo escolhas, levanto provocações e aponto as incoerências que nossas decisões podem carregar.

E costumo conversar bastante sobre nossos não-ditos. Não tenho medo de parecer ignorante – porque sou mesmo em muitos assuntos – nem das conversas difíceis, e sinto que isso me aproxima ainda mais das lideranças sociais. Só no último mês, por exemplo, vivi ou acompanhei situações que mostram como o contraditório atravessa nosso dia a dia: parcerias locais com mineradoras, denúncias de assédio moral, relações com o “poder paralelo”; enfim, a doação de bets é apenas mais uma delas.

Acredite, não é minha pretensão aqui convencer ninguém. Estou apenas abrindo diálogo, compartilhando pensamentos, talvez ainda um pouco bagunçados, com você.

De uma coisa, todavia, tenho certeza: no papo sobre bets e filantropia, os moralismos e as verdades únicas deveriam ficar de fora.

Para encerrar este artigo, já que me alonguei demais, deixo algumas perguntas que tenho me feito e também levado a colegas. Espero que possamos continuar essa ciranda nos comentários e em outros espaços de compartilhamento.

  • Se aqueles que tiveram condições de agir de forma diferente não se mobilizaram antes, não estamos todos, de algum modo, compartilhando a responsabilidade por esse cenário de agora?
  • Quem pode dizer não à doação de bet?
  • Se até mesmo as doações das bets já estão ficando com as grandes OSC, o que isso nos revela sobre a dificuldade histórica das pequenas organizações captarem recursos?
  • E a pergunta que não sai da minha cabeça: como foi que a gente chegou até aqui? E, já que chegamos, o que dá para fazer daqui pra frente?

 

*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.

 

Daiany França

Daiany França Saldanha é consultora, mentora e pesquisadora. Doutoranda e mestra em Mudança Social e Participação Política pela USP, atua há mais de 20 anos no campo social, na interseção entre terceiro setor, filantropia e fortalecimento de organizações. É diretora-executiva da Mais Impacto e reconhecida entre as principais vozes de Justiça Social e Filantropia no LinkedIn Brasil.