Educação em Direitos Humanos também é assunto de mães, pais e responsáveis
Direitos Humanos
Por Diogo Cavazotti Aires
A família está, ou deveria estar, no centro principal da educação infantil. Contribuir para a continuidade dos estudos e proporcionar novas experiências no dia a dia fora da escola é ponto chave para o sucesso do que se aprende no ambiente educacional. Crianças interiorizam padrões educativos da família e isso pode ser bom, ou ruim, de acordo com a realidade em que se vive.
Na década de 2000, a Organização das Nações Unidas (ONU) lançou o Programa Mundial de Educação em Direitos Humanos, que foi uma resposta a um evento anterior semelhante, mas que tinha prazo de validade de 10 anos. O programa é contínuo e dividido em etapas. A primeira delas aborda o ensino primário e secundário, e tem como responsáveis os ministérios de educação, atores do sistema escolar e da sociedade civil. Os focos do trabalho são políticas educativas, aplicação destas políticas, entorno de aprendizagem (ou seja, que os direitos humanos não fossem praticados apenas dentro da sala de aula), ensino e aprendizagem e formação e aperfeiçoamento dos e das docentes. Percebam que este último item irá aparecer em muitas das etapas do programa, pois ele reconhece que uma boa capacitação de educadores e educadoras é um grande diferencial.
A segunda fase aborda o trabalho no ensino superior, funcionários públicos, forças da ordem e militares e tem como foco objetivos como políticas e medidas de aplicação, processos e instrumentos de ensino e aprendizagem, investigação (nas universidades), entorno de aprendizagem (novamente) e, mais uma vez, aperfeiçoamento professional de docentes do ensino superior. A terceira etapa diz respeito exclusivamente aos meios de comunicação.
E a quarta, é até então a última etapa lançada, fala sobre o empoderamento da juventude por meio da Educação em Direitos Humanos, por meio de políticas e medidas de aplicação, processos e instrumentos de formação e um entorno propício.
O Brasil lançou, também, um Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos baseado em cinco pilares: educação básica, educação superior, educação não-formal, educação dos profissionais dos sistemas de justiça e segurança e educação e mídia.
Entretanto, voltando ao programa mundial, o objetivo é que sejam lançados, de tempos em tempos, novas fases e públicos a serem foco do trabalho em Educação em Direitos Humanos. Aliás, já passou da hora, uma vez que estavam lançando novas etapas a cada quatro anos. A pandemia pode ter atrasado os planos de uma nova fase. Mas, analisando as etapas já lançadas e a realidade educacional de jovens ao redor do mundo, poderíamos sim sugerir um novo público foco de atenção no programa mundial.
Pais, mães e responsáveis precisam estar inseridos no processo educativo para que a educação se complete também em casa. Um entorno propício, uma participação ativa na realização de tarefas, no incentivo à educação, na também formação em encontros na escola e no colégio, fazem parte de uma educação saudável em prol do filho e da filha. Portanto, sugere-se aqui que a próxima etapa do programa mundial seja com este público: pais, mães e responsáveis.
No recém lançado livro “Fortalecer Laços – Escola e Família na Educação Infantil”, de Cristiane Regina Arns de Oliveira, a autora coloca essa inerência na educação e no trabalho com crianças, adolescentes e jovens. E isso ocorre desde cedo. Segundo Cristiane, a formação parental aponta para um desenvolvimento da criança de forma especial ao longo do desenvolvimento infanto-juvenil. Caminhando mais para frente, a autora aponta que uma das formas de combater a evasão escolar é o diálogo da escola com a família.
No livro, a autora relata que “compreender que as práticas parentais são modeladas pela cultura de cada família, nominada de microcultura familiar, pode colaborar com os profissionais da educação infantil na compreensão do tempo, do ritmo e das modalidades de aprendizagem de cada criança”.
A obra relata que pesquisas mundiais apontam que os principais contextos sociais na vida da escola são a família e a escola. E que estes contextos são os principais fatores da vida dos bebês e das crianças. “A família e a escola agem diretamente no fortalecimento das suas capacidades e são essenciais na prevenção, no enfrentamento e na superação das situações de grandes adversidades”. Aí pode-se incluir o bullying, responsável pelo baixo rendimento escolar, falta de contato com colegas, evasão escolar, episódios de violência e até suicídio. “O apoio parental, o encorajamento e a confiança que os pais atribuem às capacidades dos seus filhos são a base das atitudes resilientes por parte das crianças. Os pais são também o pilar da autoestima, característica tão importante para um desenvolvimento saudável”, diz o livro.
Segundo ao obra, pais e educadores devem:
– Conversar todos os dias com bebês e crianças antes mesmo do desenvolvimento da linguagem oral. Essa prática é essencial para fortalecer o sentimento de pertencimento da criança no ciclo de vida familiar, além de todos os aspectos que contribuem para o estímulo da linguagem verbal.
– Atender às demandas do bebê e da criança com respostas afetivas. Evitar o comportamento parental de indiferença com expressões do tipo: “deixa chorar que já passa”, “isso é manha”, “ele faz isso pra chamar a atenção”.
– Interagir com os bebês e as crianças com brinquedos e jogos de acordo com a faixa etária. Muitas vezes, os pais relatam que incentivam o brincar, enquanto eles resolvem questões profissionais e outras pelo celular. Aqui podemos refletir em quais momentos podemos estar 100% conectados com nossos filhos sem o uso dos eletrônicos ou da televisão.
– Incentivar as crianças no processo de interação social com outras crianças por meio de jogos, brincadeiras e atividades esportivas.
– Incentivar a prática de esportes, atividades corporais e músicas.
*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor
Sobre o autor: Diogo Cavazotti Aires é jornalista, mestre em Direitos Humanos e Direito Internacional Humanitário, doutorando em Educação, especialista em Educação em Direitos Humanos e o único brasileiro a ganhar uma bolsa de investigação da Corte Interamericana de Direitos Humanos.
