Entre visibilidade e realidade: o futebol feminino e o desafio de transformar legado em permanência
Impacto das ONGs

Por Wenceslau Madeira
A realização da FIFA Series Feminina 2026 no Brasil, com jogos na Arena Pantanal, em Cuiabá (MT), entre 11 e 18 de abril, é mais uma demonstração da força do futebol feminino em nosso país. É uma ocasião importante, simbólica e que coloca o Brasil no centro de uma agenda internacional, além de reforçar um movimento de valorização que, por muito tempo, foi negligenciado. Ao mesmo tempo, o evento pede um olhar mais atento ao que acontece fora do campo e longe dos grandes centros.
A visibilidade cresce, mas a base ainda enfrenta dificuldades. Para muitas meninas, o acesso ao esporte segue limitado, e o caminho, instável e sujeito a interrupções. É nesse ponto que o debate precisa começar: a própria Arena Pantanal é um exemplo do que a Copa do Mundo deixou para o país. Mas estruturas físicas, por si só, não garantem transformação. Não existe legado sem acesso e não há acesso que se sustente sem permanência.
O cenário não está desconectado do contexto social do país. O Brasil registrou, em 2025, o maior número de feminicídios da última década: 1.568 mulheres assassinadas por razões de gênero. É um dado duro e alarmante, que nos ajuda a entender o ambiente em que muitas meninas estão inseridas e ligam um alerta sobre os desafios que vão muito além do esporte.
Falar de futebol feminino, nesse contexto, vai além da competição e do calendário internacional. É tratar de acesso, de segurança, de permanência e de direito ao espaço. Abrir portas é apenas o primeiro passo. Garantir que essas meninas possam permanecer e se desenvolver é o que, de fato, constrói um legado.
Em muitas regiões, o esporte cumpre um papel que vai além da prática esportiva. Organiza rotinas, cria vínculos, fortalece a autoestima e oferece um ambiente de proteção. Para muitas meninas, fazer parte de um projeto esportivo é também estar em um espaço de cuidado e pertencimento.
Mas isso só se sustenta quando há continuidade. O futebol feminino não pode depender apenas de picos de visibilidade. Grandes eventos ajudam, mas não resolvem o que é estrutural. Sem investimento na base, sem formação de profissionais, sem espaços adequados e seguros, o impacto não se sustenta.
Minha experiência com a organização social De Peito Aberto mostra que, quando há presença constante no território e intencionalidade no trabalho, o esporte consegue, de fato, transformar trajetórias. Mas isso exige tempo, consistência e prioridade.
Esse é um ponto que também conversa diretamente com as empresas. A agenda ESG, especialmente no pilar social, abre espaço para um tipo de atuação mais comprometida com impacto real. Apoiar o futebol feminino na base, contribuir para a permanência de meninas no esporte e ajudar a estruturar ambientes mais seguros é uma forma concreta de gerar transformação.
Existe uma diferença grande entre associar marca a um evento e sustentar um processo.
A FIFA Series Feminina 2026 tem seu valor. Dá visibilidade, movimenta o cenário, amplia o debate. Mas o que realmente importa acontece no dia seguinte, quando as luzes se apagam e o cotidiano volta ao centro. É nas quadras e nos campos dos territórios reais que o futuro do futebol feminino em nosso país será decidido de verdade.
*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.
