Maus-tratos na infância deixam marcas permanentes no cérebro, alertam especialistas

Direitos Humanos
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Maus-tratos na infância foi tema do programa Brasil ODS, no mês de novembro; durante o programa, especialistas discutem estudo brasileiro que revela impactos estruturais no hipocampo e reforça a urgência de identificar e interromper abusos precocemente

Maus-tratos na infância deixam marcas permanentes no cérebro, alertam especialistas
Imagem: Freepik

Por Sabrina Azevedo

Cerca de 400 milhões de crianças no mundo sofrem maus-tratos regularmente em casa, segundo a UNICEF. Novas evidências científicas mostram que essas violências, físicas, emocionais ou psicológicas, podem comprometer o desenvolvimento estrutural do cérebro, com impactos que persistem até a vida adulta. O programa Brasil ODS reuniu os médicos Pollyanna Lima Cerqueira e Pedro Mario Pan para discutir sobre o tema.

Um estudo brasileiro envolvendo 795 participantes entre 6 e 21 anos identificou que experiências de maus-tratos na infância afetam diretamente o hipocampo, região responsável pela memória, pelo aprendizado e pela regulação emocional.

A pesquisa acompanhou os participantes por uma década e concluiu que crianças expostas a abusos, sobretudo emocionais, mantiveram alterações no desenvolvimento dessa área do cérebro até os 20 anos de idade.

Os resultados e suas implicações foram debatidos pelos médicos Pollyanna Lima Cerqueira, neurologista infantil (FMUSP), e Pedro Mario Pan, psiquiatra e pesquisador da UNIFESP, um dos autores do estudo.

Impactos que ultrapassam a infância

Segundo Pedro Mario Pan, embora casos de violência sexual estejam presentes, a maioria das situações relatadas no estudo envolve abuso emocional, como xingamentos e agressões verbais. Ele explica que esse tipo de violência causa uma experiência contínua de vitimização.

“O que percebemos é que crianças que relataram situações de abuso ou negligência emocional apresentavam, anos depois, alterações na estrutura do hipocampo. Mesmo após uma década, o desenvolvimento médio dessa região não se igualava ao de crianças sem histórico de maus-tratos”, destacou.

O psiquiatra também reforça que fatores socioeconômicos, sociais e genéticos influenciam esses desfechos, mas os impactos do abuso se mantêm mesmo após esses ajustes, revelando a gravidade silenciosa das violências emocionais.

Clique aqui para ouvir o programa completo!

Intervenção precoce pode salvar trajetórias

Para a neurologista infantil Pollyanna Lima Cerqueira, a primeira infância é o período mais crítico.

“O cérebro atinge 90% do tamanho adulto até os 6 anos. Quanto mais cedo ocorre a intervenção, maior a chance de minimizar impactos clínicos e emocionais. Mesmo que não seja possível reverter completamente as alterações estruturais, o acolhimento e o suporte podem transformar o desenvolvimento e o comportamento dessas crianças”, explica.

A especialista reforçou a importância do reconhecimento precoce, da atuação de profissionais de saúde e educação e do papel crucial de instituições como o Conselho Tutelar, que devem ser acionadas ao menor sinal de violência.

Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)

Além dos convidados, o Brasil ODS recebeu os colunistas Paulo AlmeidaGabriela Chabbouh e Nina Orlow, especialistas nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Este programa colabora com o ODS 3 (Saúde e Bem-Estar), cujo objetivo busca assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todas e todos, em todas as idades, ODS 4 (Educação de Qualidade), onde visa assegurar a educação inclusiva e equitativa e de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todas e todos, e ODS 16 (Paz, Justiça e Instituições Eficazes), que visa promover sociedades pacíficas, garantir o acesso à justiça para todos e construir instituições fortes, responsáveis e inclusivas em todos os níveis.

Brasil ODS

O Brasil ODS é uma produção do Observatório do Terceiro Setor (OTS), apresentado por Joel Scala, que conta com o apoio da Fapesp — Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. Ele vai ao ar às quintas-feiras no portal do OTS e às 16h na Rádio Brasil de Fato.