Na era do Red Pill, educar meninos também é prevenir violência

Direitos Humanos
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Imagem: ChatGPT

 

Por Karen Scavacini

 

Em um país onde, em média, quatro mulheres são mortas por dia por razões de gênero, discutir violência exige olhar também para o que antecede esses casos. Na era do chamado “Red Pill”, o crescimento de comunidades online que reforçam modelos rígidos de masculinidade escancara uma questão central: educar meninos emocionalmente saudáveis é uma estratégia de prevenção da violência.

Antes de se tornarem adultos com dificuldades de vínculo e comunicação, esses homens foram meninos que não aprenderam a reconhecer e expressar emoções. Ainda hoje, persiste uma regra silenciosa que associa masculinidade à força constante e à ausência de vulnerabilidade. Muitos meninos ainda são ensinados, desde cedo, a esconder o que sentem. Existe uma regra não dita de que precisam ser fortes o tempo todo, e isso limita o desenvolvimento emocional. Quando a vulnerabilidade não encontra espaço, ela não desaparece, ela se transforma.

Sem repertório emocional, sentimentos como frustração e rejeição tendem a ser expressos de forma limitada, muitas vezes por meio da raiva. Esse cenário se intensifica no ambiente digital, onde adolescentes constroem parte da identidade em contato com conteúdos que reforçam modelos rígidos de masculinidade. Meninos que já têm dificuldade de expressar sentimentos acabam encontrando nas redes conteúdos que reforçam essas ideias. Não é a tecnologia em si, mas a combinação entre vulnerabilidade emocional e exposição a esses discursos que merece atenção.

Diante disso, o papel da escola e da família se torna central. É nesses espaços que os jovens podem desenvolver pensamento crítico e encontrar escuta, inclusive para romper padrões que muitas vezes são reproduzidos no ambiente familiar. Quando os meninos encontram espaços seguros para falar sobre rejeição, insegurança ou medo, eles se tornam menos vulneráveis a discursos que transformam dor em ódio. A possibilidade de nomear emoções é, também, uma forma de proteção.

Educar meninos emocionalmente saudáveis não é apenas incentivá-los a falar mais, mas oferecer condições reais para isso. Enfrentar a violência em sua raiz passa, necessariamente, pela forma como educamos, escutamos e acolhemos os meninos hoje.

 

*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.

 

Sobre a autora: Karen Scavacini é psicóloga, mestre em Saúde Pública pelo Karolinska Institutet (Suécia) e doutora em Psicologia pela USP. Fundadora do Instituto Vita Alere, que há 13 anos é referência nacional em saúde mental, prevenção e posvenção do suicídio, é criadora do Mapa Saúde Mental e responsável pelo Centro de Inovação e Pesquisa em Saúde Mental, Tecnologia e Suicidiologia. Atua há mais de 25 anos com saúde mental, e há mais de 10 anos com o bem-estar digital. Trabalha com escolas, universidades e empresas. Responsável pelo programa Skillslab da Escola de Economia da Fgv. Representante do IASP no Brasil. É pesquisadora, autora de livros e cartilhas, palestrante, TEDx Speaker e articuladora de ações inovadoras que integram cuidado emocional, comunicação e tecnologia.