Não existe justiça climática sem moradia no centro
Políticas Públicas

Por Camila Jordan
O I Fórum Brasileiro de Moradia e Clima não foi um evento. Foi o começo de um posicionamento importante — sobre quem o Brasil escolhe proteger quando o clima piora, o que já era um problema estrutural.
Quando o clima impacta as nossas cidades no Brasil, ele não atinge todo mundo da mesma forma — e a diferença, quase sempre, está na moradia e na localização. Está na casa auto construída na encosta, na impossibilidade de pagar um aluguel, na moradia sem qualquer segurança de permanência, na família que constroi e reforma a própria casa sem qualquer apoio técnico, na pessoa que sequer tem onde morar. São situações distintas, tratadas pelas políticas públicas como problemas distintos. A crise climática revela que é a mesma pergunta: quem tem um lugar seguro para viver quando chegam a enchente, o deslizamento e a onda de calor. Foi em torno dessa pergunta que nos reunimos no Memorial Darcy Ribeiro, em Brasília, no último dia 11 de junho.

A resposta climática brasileira ainda se organiza quase inteiramente em torno de mitigação de emissões de gases de efeito estufa e quase nada em adaptação. Ambas são agendas necessárias, mas seguimos deixando de fora um fator estrutural: a habitação e a desigualdade urbana. O déficit habitacional, a informalidade, a insegurança da locação e a ausência de moradia amplificam o impacto de enchentes, deslizamentos e ondas de calor e sempre na mesma direção, a de quem o Estado nunca contou. A desigualdade tem endereço: segundo o MapBiomas, 18% da área das favelas brasileiras está em regiões de risco de desastres, seis vezes a média nacional urbana. Mas o problema não se limita aos territórios informais. Ele atravessa toda a estrutura habitacional do país e foi assim, em toda a sua extensão, que o Fórum decidiu tratá-lo.
Foi dessa convicção que nasceu o Fórum, idealizado e produzido pela TETO e pelo Fundo FICA: não é possível enfrentar a crise climática no Brasil sem colocar a moradia no centro do debate e das decisões públicas.
Uma intervenção, não uma comemoração
O Fórum aconteceu às vésperas das eleições de 2026, e isso não foi por acaso. Foi cálculo. Estamos diante de uma janela de oportunidade estreita: o momento em que plataformas políticas e compromissos de investimento ainda estão sendo definidos. Depois que se consolidam, perpetuam inclusive os riscos que já existem. Ocupar essa janela é posicionar a moradia como eixo incontornável da justiça climática antes que as decisões se fechem sem ela.

Por isso, reunimos quem decide e quem vive a decisão na mesma sala. Estiveram presentes representantes do Ministério das Cidades, do Ministério da Justiça, do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, do Ministério dos Direitos Humanos, da Caixa Econômica Federal e do IPEA, ao lado de ONU-Habitat, PNUMA, WRI Brasil e GIZ. Universidades e centros de pesquisa — UnB, USP, UFPR, IPT, FGV Cidades, o CEFAVELA da UFABC — sentaram com movimentos sociais e lideranças de base. Foram 29 palestrantes, 4 mesas temáticas, mais de 560 inscrições presencial e online, muitas visualizações na transmissão e 24 menções na imprensa. Os números importam porque traduzem uma capacidade concreta: a de articular uma coalizão ampla e multissetorial em torno de uma agenda que, até aqui, não tinha mesa própria.
A autoridade vem do território
Mas a coalizão não se mede pelos logotipos. Mediu-se por quem teve a palavra.
Onze lideranças comunitárias de diferentes regiões do Brasil estiveram no Fórum, vindas da Favela City e do Jardim Lapena, em São Paulo; da Vila Beira Mar, no Rio; da Ocupação Floresta, em Pernambuco; do Quilombo dos Machado, no Rio Grande do Sul; da Reserva Indígena Tupinambá de Taparica, na Bahia; das comunidades do Distrito Federal. Pessoas que vivem diariamente o impacto da crise climática sobre a moradia e que, em qualquer outra sala, seriam tratadas como pauta. Aqui, foram interlocutoras.

Foi de uma delas, Edite Vieira, liderança da comunidade City, em São Paulo, a frase que sintetiza o que defendemos: a moradia não oferece apenas proteção física, mas também devolve dignidade às famílias. Não é metáfora. É a descrição exata do que está em jogo quando se decide aonde o investimento climático vai — e aonde não vai — chegar.
As quatro mesas trataram disso sem rodeios: habitação emergencial em áreas informais e de risco; locação social como resiliência climática; moradia como primeiro passo para a construção de autonomia; e melhorias habitacionais como adaptação climática feita dentro de casa. Quatro recortes de uma mesma tese: a de que a política habitacional já é política climática, mesmo quando ninguém a nomeia assim.

O Fórum não termina aqui
Encerrar o evento é a parte fácil. O trabalho começa agora.
O Fórum resultará em um Policy Brief sobre Moradia e Clima, que sintetizará as evidências, as experiências territoriais e as recomendações intersetoriais produzidas ao longo do dia. Esse documento será entregue formalmente aos tomadores de decisão, com um objetivo declarado: influenciar compromissos programáticos e catalisar compromissos públicos sobre moradia e clima, fortalecendo a incidência da sociedade civil nos espaços nacionais e internacionais onde essas escolhas são tomadas. E o Fórum se consolida como espaço recorrente. O II Fórum já está no horizonte, para aprofundar a articulação e, sobretudo, monitorar se os compromissos assumidos viram política.
Porque a pergunta que fica não é se o Brasil vai enfrentar a crise climática. É quem ele vai proteger ao fazê-lo. E essa resposta se escreve, antes de tudo, na moradia das famílias que a crise sempre encontra primeiro.
*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.
