Janeiro Branco: falar de saúde mental é reconhecer o cuidado desde cedo
ONGs em AçãoEm alusão ao Janeiro Branco, especialista do Instituto Ame sua Mente defende ações baseadas em ciência e destaca a importância do fortalecimento das redes de apoio desde a infância e no ambiente escolar

Por Vitória Serrão.
Compreendendo que a educação também diz respeito a um ambiente de cuidado e proteção emocional, iniciativas como o Instituto Ame sua Mente surgem ao unir conhecimento científico e apoio técnico especializado, possibilitando a promoção da saúde mental a partir do ambiente escolar.
Em alusão ao Janeiro Branco, campanha criada em 2014 com o objetivo de conscientizar sobre a importância da saúde mental e emocional no Brasil, o médico psiquiatra e membro do Instituto Ame sua Mente e especialista em Infância e Adolescência, Gustavo Estanislau compartilhou, em entrevista ao Observatório do Terceiro Setor, a necessidade de redução de estigmas e destacou como o ambiente escolar e o papel do educador são fundamentais na prevenção e no manejo de transtornos mentais.
“Iniciativas como o programa de saúde mental na escola, elas tendem, em primeiro lugar, fazer com que as pessoas se habituem a falar mais sobre saúde mental”, afirmou Gustavo.
O apoio escolar e o fortalecimento das redes
Reconhecendo o ambiente escolar como um dos primeiros espaços de contato com a sociedade e de desenvolvimento das relações sociais, além da importância de profissionais da educação preparados, o médico reforça estratégias de promoção e prevenção da saúde mental ao nível comunitário, algo realizado pelo programa Saúde na Escola do Instituto Ame Sua Mente.
Entre as ações destacadas estão:
- o fortalecimento de redes de apoio, considerado um fator protetor fundamental para crianças, adolescentes e adultos;
- a realização de campanhas de conscientização voltadas à saúde mental;
- a formação de líderes comunitários capacitados para identificar pessoas em sofrimento psíquico;
- e treinamentos para educadores, com foco na identificação precoce de crianças e adolescentes que apresentem sinais de risco para o desenvolvimento de transtornos mentais.
A infância é o chão que caminhamos a vida toda
Segundo dados da PubMed, em 2019, cerca de 293 milhões de indivíduos com idades entre 5 e 24 anos apresentavam pelo menos um transtorno mental. Em complemento, a UNICEF destaca que a maioria dos transtornos mentais começa antes dos 14 anos. Para Gustavo Estanislau, o cuidado e a detecção precoce nas famílias e no ambiente escolar são imprescindíveis.
“Quanto mais rápido for possível encaminhar essas crianças para algum tipo de orientação à família ou cuidado direto com a criança, maior é a probabilidade de que elas tenham uma trajetória de vida mais saudável”, afirma.

O especialista também alerta para sinais de atenção relacionados à saúde mental de crianças e adolescentes, como alterações no padrão de sono, na alimentação e no comportamento, oscilações no rendimento escolar e maior isolamento, tanto no ambiente presencial quanto no virtual. Além disso, o médico psiquiatra chama a atenção dos pais para os tipos de conteúdos e postagens que o público infantojuvenil consome e compartilha nas redes sociais.
Segundo ele, os impactos das mídias sociais podem ser sutis, como a criança passa a se comparar excessivamente com outras, sem conseguir expressar isso em palavras, ou a se frustrar com mais frequência em relação às próprias tentativas de desenvolvimento, seja em habilidades escolares, esportivas e musicais. “As redes acabam expondo essa criança como um grande funil, a histórias de sucesso de crianças pequenas no mundo inteiro, o que pode gerar uma percepção distorcida da realidade”.
Para falar de saúde mental é necessário embasamento científico
No enfrentamento aos estigmas relacionados à saúde mental, Gustavo destaca a importância do combate a desinformações como: a associação dos transtornos mentais à fraqueza, a ideia de que a medicação seria uma forma de “escape”, além da prática da autodiagnosticação sem acompanhamento profissional e da reprodução de falas e estereótipos reforçados nas redes sociais. Segundo o especialista, esses estigmas acabam reduzindo ou minimizando a possibilidade de a pessoa buscar atendimento, avaliação psicológica ou psiquiátrica.
“É preciso se habituar a falar sobre saúde mental com embasamento científico. Hoje em dia, até podemos dizer que as pessoas falam mais sobre o tema, mas muitas vezes sem esse embasamento, o que acaba gerando uma série de novos estigmas”, reforça.
Gustavo também explica que os transtornos mentais estão associados a disfunções do sistema nervoso central. Por isso, mesmo pessoas consideradas fortes, bem-sucedidas ou que por longos períodos aparentavam estarem bem emocionalmente podem, em algum momento, desenvolver um transtorno mental. “O sistema nervoso, assim como qualquer outro órgão, pode apresentar disfunções ao longo da vida, em razão de diversos fatores”, observa.
O médico psiquiatra ressalta ainda que a trajetória de transtornos mentais, tende a ser oscilatória e cumulativa, agravando-se ao longo do tempo, na grande maioria dos casos. “Quanto mais tempo a pessoa demorar para buscar atendimento, maior probabilidade de chegar no atendimento com sintomas mais cristalizados e com mais dificuldade de flexibilização e melhora”, finaliza.
Conheça o Instituto Ame a Sua Mente
O Ame sua Mente é uma Organização da Sociedade Civil que visa promover saúde mental no ambiente escolar e, ao mesmo tempo, contribuir com conhecimento científico e técnico para educar e conscientizar a sociedade brasileira sobre o tema, desenvolvendo projetos pautados na redução de estigmas, prevenção e manejo de transtornos, sendo o educador o principal ator social de suas intervenções.
