O Brasil das oportunidades desiguais: como a IA pode impactar o mercado de trabalho
Tecnologia

Por Vitor Hugo Neia
A Inteligência Artificial deixou de ser uma promessa distante para se tornar uma transformação concreta no mundo do trabalho. Em ritmo acelerado, a tecnologia vem redefinindo profissões, alterando modelos de negócios e mudando a forma como empresas e trabalhadores se relacionam com produtividade, qualificação e inovação. Em países marcados por desigualdades estruturais, como o Brasil, seus impactos ultrapassam a dimensão tecnológica e passam a envolver questões centrais para o desenvolvimento social e econômico, como inclusão produtiva, ampliação do acesso a oportunidades e promoção da mobilidade social.
Nesse contexto, os efeitos da IA dependerão diretamente da forma como a tecnologia for implementada. Quando utilizada apenas como instrumento de substituição de mão de obra, ela pode aprofundar desigualdades, atingindo especialmente trabalhadores mais vulneráveis e com menor acesso à qualificação. Por outro lado, quando aplicada como ferramenta de apoio e complementação do trabalho humano, a IA pode ampliar capacidades, melhorar a produtividade e abrir novas possibilidades de inserção profissional.
É justamente por isso que o debate sobre IA não pode ficar restrito à dimensão técnica. Mais do que discutir algoritmos, é necessário compreender os efeitos sociais dessa transformação e identificar quem terá condições reais de acessar e participar das oportunidades geradas pela nova economia digital. O futuro do trabalho será definido não apenas pela evolução tecnológica, mas também pelas escolhas feitas agora por governos, empresas, instituições de ensino e sociedade civil para garantir que essa transição seja mais inclusiva, qualificada e capaz de reduzir desigualdades.
No Brasil, essa discussão ganha ainda mais urgência diante dos desafios históricos do mercado de trabalho. Segundo ranking da Trading Economics de 2025, o país ocupa apenas a 78ª posição em produtividade entre 131 nações avaliadas. Ao mesmo tempo, a informalidade segue elevada: entre novembro de 2025 e janeiro de 2026, atingiu 37,5% da população ocupada, o equivalente a 38,5 milhões de trabalhadores. Esse cenário afeta de forma mais intensa pretos, pardos e pessoas em contextos de maior vulnerabilidade econômica.
É nesse cenário que a inteligência artificial pode representar tanto risco quanto oportunidade. O estudo IA no Mercado de Trabalho: Quem Ganha, Quem Perde — e Quem Fica para Depois, realizado pelo Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS Rio), em parceria com a Fundação Grupo Volkswagen e a Fundação Arymax, mostra que até 37% dos postos de trabalho no Brasil podem ser impactados pela IA, o equivalente a cerca de 37 milhões de trabalhadores. O levantamento evidencia que os efeitos da tecnologia não serão distribuídos de maneira igualitária. Mulheres, trabalhadores negros e profissionais em ocupações mais vulneráveis aparecem entre os grupos mais expostos aos impactos da automação.
A pesquisa também chama atenção para outro ponto central: o baixo nível de competências digitais da população brasileira. Segundo dados da Anatel citados no estudo, apenas 21,3% dos brasileiros possuem habilidades digitais básicas. Em um cenário em que conectividade, acesso a dispositivos e familiaridade com ferramentas digitais passam a ser requisitos cada vez mais importantes para a empregabilidade, a exclusão digital corre o risco de se transformar em uma nova camada de desigualdade social.
Ao mesmo tempo, a IA também apresenta potencial para ampliar produtividade e acelerar processos de aprendizagem, especialmente entre trabalhadores menos experientes. Isso mostra que o centro do debate não deve ser o avanço da tecnologia em si, mas a forma como o País irá se preparar para essa transformação. Sem investimento em qualificação, inclusão digital e proteção social, os ganhos de produtividade tendem a se concentrar em grupos que já possuem mais acesso a oportunidades.
Por isso, iniciativas voltadas à inclusão produtiva ganham papel estratégico. A participação da Fundação Grupo Volkswagen no estudo busca contribuir para a construção de uma agenda nacional voltada à democratização do acesso às oportunidades geradas pela inteligência artificial. Mais do que produzir diagnósticos, o objetivo é fortalecer o diálogo entre setor privado, poder público, academia e sociedade civil para pensar caminhos de desenvolvimento tecnológico mais inclusivos.
Entre as medidas apontadas como prioritárias estão investimentos em conectividade, programas de requalificação profissional com foco em habilidades digitais e socioemocionais, apoio a micro e pequenas empresas e criação de políticas públicas baseadas em evidências. Para o setor privado, o desafio passa por desenvolver estratégias que priorizem a complementação, e não a substituição, do trabalho humano, investindo em formação contínua e uso responsável da tecnologia.
A inteligência artificial representa uma das maiores transformações econômicas e sociais das últimas décadas. O desafio colocado para o Brasil não é impedir seu avanço, mas garantir que seus benefícios sejam compartilhados de forma mais equilibrada. Sem ações coordenadas, há risco real de aprofundamento das desigualdades já existentes. Com investimento em educação, inclusão digital e qualificação profissional, porém, a tecnologia pode se tornar uma aliada da mobilidade social e da inclusão produtiva.
No fim, o debate sobre IA no Brasil é também um debate sobre desenvolvimento humano. Transformar inovação em oportunidade será uma das principais condições para que o avanço tecnológico caminhe junto com justiça social.
*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.
